Cyro del Nero. Adeus a um grande amigo.

Já considerado o melhor cenógrafo nacional, Cyro del Nero deixou-nos aos 78 anos.

  
  

- Acho que você está um pouco desanimado. O que aconteceu?

- Eu estava fora do Brasil quando recebi a notícia dos falecimentos de dois grandes amigos: Cyro del Nero e Eduardo Carone, nosso querido Ducho.

BrasilZÃO.com

- Não fique triste. A vida continua. Cyro del Nero, como sabe, nasceu no dia 28 de dezembro de 1931. Foi educado de forma rigorosa, pois sua família era protestante e, portanto, muito religiosa. Sua mãe era pianista e seu pai tocava violino. Com o passar dos anos o jovem Cyro descobriu que não tinha facilidades para atuar no mundo do teatro, mas que, em contrapartida, o caminho de sua vida era a cenografia.

- Pois é. Quando acompanhamos o fim de uma pessoa que foi tão importante para o mundo cultural brasileiro ficamos em dúvida quanto ao real significado de nossa existência. Neste último dia 31 de julho, sábado, após voltar da Grécia, Cyro del Nero deixou-nos.

- Era impressionante a capacidade desse artista multidisciplinar. Em 1974 Cyro foi responsável pelo logotipo do evento Roberto Carlos Especial. Com Raul Seixas, colaborou no musical Gita. Teve passagem pela TV Record, pela TV Tupi e Excelsior. Foi também diretor de arte na TV Globo, sendo responsável, na década de 1970, pelas vinhetas e aberturas do “Fantástico”.

- É espetacular, não é mesmo? Como se não bastasse, Cyro del Nero foi professor titular da universidade de São Paulo – USP, e dava cursos de cenografia e de indumentária teatral.
É praticamente impossível pontuar todas as realizações e feitos de Cyro del Nero durante sua vida. Foi considerado o melhor cenógrafo nacional na IV Bienal de Artes Plásticas de São Paulo.

- Enquanto converso com você busco mais informações sobre este paulistano do Brás, homem da vida cultural, amante da Grécia e amigo querido por milhares de pessoas. Posso ler o que encontrei?

- Pode.

- “Paulistano do Brás, Cyro Del Nero é descendente de imigrantes italianos, vindos no começo do século. Nascido em 28 de dezembro de 1931. De família protestante, teve educação rígida, religiosa. A mãe era pianista e o pai também dono de muita sensibilidade musical, tocava violino. Família harmônica, Cyro tem uma irmã seis anos mais nova. A sua formação foi principalmente dentro de bibliotecas. Teve muitos amigos poetas e frequentava a Biblioteca Municipal Mario de Andrade. Logo, ainda bem garoto, fez amizade com Manoel Carlos, Fernanda Montenegro, Fernando Torres, Carlos Zara. E eles pensavam o dia inteiro em música, filosofia, artes. Inicialmente, Cyro, que era um rapagão alto e bonito, pensou em ser ator e fez pequenas ‘pontas’ em teatro. Mas logo viu que, como gostava de desenhar, o seu campo seria a cenografia. Encontrou um diretor grego, que realmente mudou a sua vida. Foi quando Cyro fez sua primeira cenografia na montagem da peça O Anfitrião. Logo a seguir foi convidado por Flavio Rangel, e fez a cenografia da peça O canto da cotovia. Mas o grego resolveu voltar para a Grécia. Cyro deu mil saltos e conseguiu dinheiro da passagem com Ciccilo Matarazzo. Foi para a Grécia também. Lá ficou três anos, que foram inteiramente modificadores de sua vida. Casou-se. E voltou com dois filhos. Mas, é bom que se registre, não ficou só na Grécia, esteve em vários países da Europa. Internacionalizou-se. Quando voltou, seus amigos do Brasil tinham progredido e Cyro não ficou um dia sem trabalho. Foi logo contratado para cenografia de televisão. Esteve na TV Record e na TV Excelsior, que para ele, modernizou completamente a linha televisiva. Criou as grades de programação, as vinhetas, os intervalos desenhados, a fim de personalizar a emissora. Cyro esteve em todas. Depois foi para a Globo como diretor de arte, e seu campo se expandiu ainda mais. Fez, entre outras coisas, a abertura do “Fantástico”, e de todas as principais novelas da TV Globo. Trabalhou também na TV Tupi do Rio e, posteriormente, de São Paulo. Ganhou prêmios. Entre eles o de Melhor cenógrafo nacional, na IV Bienal de Artes Plásticas de São Paulo. Mas, como Cyro é capricorniano, segundo ele mesmo diz, ele é muitos em um. Dedicou-se também à moda. Trabalhou nos desfiles da Rhodia, por dez anos. Teatro nunca abandonou, pois é sua paixão. Fez no T.B.C. muitas montagens, como: A Semente, entre dezenas de outras. Fez montagens de óperas, como: O Guarani, de Carlos Gomes. Ainda em 1998 foi convidado pelo governo francês para montar o Pavilhão Brasileiro no Louvre. Foi uma apoteose. Cyro conseguiu levar para lá: o aroma, o paladar, o som da Amazônia. E tudo isso feito com sua genialidade e seu amor. Hoje, Cyro Del Nero, que já se casou outras vezes, tem sete filhos, e ainda grandes projetos de vida. É professor de Artes da USP, faz palestras e cenários, muitos e maravilhosos cenários, que espalha pelo mundo afora. Esse é o genial Cyro Del Nero, diretor de artes da Associação dos Pioneiros da TV Brasileira.”

- O que acaba de ler deve ter sido escrito quando Cyro ainda era vivo. Vamos lutar para viabilizar o instituto Cyro del Nero.

  
  

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