Páscoa em São Bonifácio

Se Páscoa tem o significado de amor, renovação e paz, se na Páscoa vivemos tempos de milagres, então podemos confirmar estas definições com vastas doses das que incandescem nossa alma de alegria.

  
  
Marcio e Claudia

A região

Marcio e Claudia

Neste feriado, seguimos viagem para um município catarinense que dista cerca de 80 km de Florianópolis. Pertencente a 25% do Parque Estadual da Serra do Tabuleiro, com uma área total de 452,48 km², São Bonifácio se localiza a uma latitude 27º54’05” sul e a uma longitude 48º55’45” oeste, estando a uma altitude de 410 metros. A população – descendente de alemães oriundos da região da Westphália -, ultrapassa os 3.103 habitantes. Tida como a Capital Catarinense das Cachoeiras, São Bonifácio nos deixa boquiabertos com suas exuberantes obras-de-arte verdejantes, cobertas por uma vegetação única que se faz de tapete para uma grande variedade de plantas e animais, trilhas e rios; se exibem, assim, majestosas, elegantes em formas sinuosamente harmônicas, encantando a vista do viajante de modo arrebatador.

Como não se bastasse a riqueza contemplativa das verdes colinas que a cada quilômetro percorrido pintam dinamicamente um cenário naturalmente exuberante, a paisagem é colorida com arquitetura típica alemã de casas em estilo enxaimel – tijolo assentado com barro e madeira de forma conjunta, sendo essa madeira disposta em formas geométricas que nos passa uma sensação de conexão com o Todo; e a cobertura podendo ser de tabuinhas, telhas ou mesmo folhas de zinco -, plenamente integrada a caprichados jardins, muitas vezes, com formosas variedades de folhas, frutos e flores.

A Pousada das Hortênsias

Marcio e Claudia

Acabávamos de chegar na Pousada das Hortênsias, que fica na comunidade de Alto Capivari e logo resolvemos fazer o reconhecimento. A estrutura da pousada dispõe de 40 leitos, 10 apartamentos, comida típica alemã, sala de jogos, lago com pedalinho e pesca, ponte pênsil, trilha, gruta, nascente de rio, parque infantil, espelho d’água, bóia-cross, campo para prática de esportes e cavalos para cavalgadas matutinas.

Marcio e Claudia

Conhecemos a Trilha da Nascente, com árvores ornadas por barbas-de-velho, flores singulares, bromélias, algumas delas floridas e a paz dos tímidos raios de Sol tocando suavemente cada superfície. No retorno da trilha, ficamos na dúvida se ali que avistávamos eram belos cavalos ou as almas de dóceis cãezinhos sob a forma daqueles animais cativantes. O cavalinho marrom se aproximou da gente para um carinho. E depois resolveu nos seguir para qualquer lugar que fôssemos. Logo depois, a égua branca fez o mesmo. Viemos a descobrir que estes cavalos foram criados desde pequenos junto às crianças e que a branquinha é mãe do cavalo marrom com crina clara lustrosa.

O encontro do amor

Marcio e Claudia

Ao cair da tarde, resolvemos sair da pousada para caminhar pela estrada. A conversa era fina, amável e confortável. Avistávamos morros parcialmente iluminados pelos últimos feixes dourados do Sol, completando a paisagem esmeralda dos campos, que se contrastava com o verde profundo dos pinus e copas de outras árvores. Passou um casal caminhando e mais uns dois carros, até que no terceiro, como um raio, a conexão se estabeleceu de forma estrondosa, amorosamente poderosa. Um casal de amigos muito querido de Florianópolis fortuitamente nos encontrara. Que luz... Parecia que o Sol havia se levantado rapidamente para espiar o que ali estava acontecendo. A gente se abraçou e o passeio daqueles quatro visitantes aconteceria de uma forma totalmente diferente daquela programada. Ali, estávamos entregues ao acaso. Neste momento, compreendíamos, mais do que tudo, que nossas vidas recheadas de ansiedade, programações e buscas muitas vezes ficam ofuscadas e encardidas quando nos deixamos escravizar pelas ordens do tempo e do espaço.

A partir dali, o tempo e o espaço deixou, mesmo que por alguns dias, de existir. Para quem já estava retornando a Florianópolis, aquele encontro foi um achado e, para quem estava em São Bonifácio, uma benção. Não há presente maior nesta vida do que aquele que podemos compartilhar.

O próximo passo seria arrumar uma forma de acomodar nossos amigos viajantes. Na Pousada das Hortênsias não havia mais lugar e a temperatura começava a baixar. Foi aí que a mágica se operou.

Aconchego de Dona Rilda

Marcio e Claudia

Fomos aconselhados a conhecer a casa de uma simpática senhora que aluga sua casa. Casa? É vislumbre... Cozinha montada com pedra de mármore, casa em estilo enxaimel, diversos quartos, todos os cômodos quentinhos, confortáveis, decorados com o carinho de avó. No segundo piso, o teto era de madeira compondo lindíssimos desenhos geométricos com janelões de vidro em formato triangular que proporciona visão para a cidade, de um lado, e para um pé coalhado de caqui mole, do outro. Desta janela, vimos aquele entardecer poético de cores azuladas, que se aprofundam e formam degradês celestiais. Surgia ali do vazio luminoso que é composto o acaso, da natureza vazia de cada fenômeno - que nasce e morre neste vasto e grandioso Universo – um presente divino.

À noite na Pousada das Hortênsias

Marcio e Claudia

Lareira acesa. Cuidados com a decoração, com objetos antigos que resgatam a memória de nossos avós: máquina de escrever, rádio, entre outras peças que poderiam facilmente ser classificadas como de um museu, cujas antiguidades, valiosas em suas histórias e lembranças, completaram a recepção da pousada com o doce charme do rústico. Observávamos o carinho que a família da Gabriela e do Maikon tinham com aquele encanto de pousada.

Enquanto saboreávamos o vinho típico de São Bonifácio... O casal interrompeu a conversa para exclamar : - “Venham que lindo!!!” Imediatamente nos juntamos ao coração e olhos deles; um ponto majestoso de luz dava o contorno das árvores no alto da montanha que abraça a pousada. – “Uaaauu...” Obrigado. Obrigado. Obrigado. Das extensas janelas que estávamos sentados próximos, a Lua se levantava para nos brindar com sua alegria. O luar pareciam braços e pernas que nos envolviam em sua luz. A luminosidade ficava cada vez mais intensa: de uma luz azulada para a dourada e da dourada para a prateada.

Horas depois, antes de deitar, ao olhar para o céu, as estrelas nos visitavam e, ao olhar para o rio que corria ao longo das cabanas, as águas mudavam de cor; ficaram prateadas. E com esta tonalidade, refletiam os olhos e a mente vazia de um coração cheio. O coração fluiu com o rio radioso e as estrelas, pulsando paz, bem-aventurança e consciência, ora contornando as pedras maiores, ora cobrindo as menores. O concerto das águas produzia um silêncio interior de ininterrupta alegria, criando um estado de graça eterno dentro de sua finitude. A noite era tranqüila, feliz, fria e serena. A benção acontecia em forma de sensações.

As cachoeiras

Marcio e Claudia

Seguimos sentido sul para uma cachoeira que ficava a 5 quilômetros dali. No percurso, a paisagem era entrecortada por árvores que faziam do cenário uma obra-prima suprema. Para chegar até a queda dela, precisamos descer, descer, descer... E ali encontrávamos mais um local daqueles em que podemos recarregar as baterias. Entre minitobogãs, descanso com as costas nas hidromassagens naturais e caminhadas ao longo do rio, a região estava coberta de vida pulsante: borboletas belíssimas que carregavam em uma de suas asas a sabedoria e na outra, a compaixão, juntas colorindo pelo céu o mundo, além de amoras silvestres e flores.

À tarde e na manhã seguinte, desbravamos a segunda cachoeira, que se situa na comunidade Rio Salto, no município de Águas Mornas. Caminhamos por uma pequena trilha que nos leva a uma cachoeira que surpreendeu a todos com a sua imponência. Avistamos lá debaixo umas três quedas e que parecia daquele ponto que teria acesso por trilha às quedas de cima. E fomos lá tentar.

Marcio e Claudia

A descida até as quedas de cima da cachoeira inspira muitos cuidados. Após nos agarrarmos em raízes, troncos, cipós e galhos, chegamos a um pequeno mirante: há uma espécie de península em terra úmida, coberta de gramíneas e com duas árvores que podem servir de leve sustentação. Daquele ponto, fomos presenteados com uma flor vermelha de um lírio no meio da mata, do outro lado da queda d´água. Olhando para baixo, o medo queria nos encontrar, porém a exuberância de suas formas, texturas, fragrâncias e sons não deixavam ele nos dominar; muito pelo contrário, o sentimento era de alegria, entrega àquela beleza potencialmente infinita e agradecimento. Percorrendo os olhos como se fossem câmeras viajando em travelling, traçando um panorama de cima, ficava fácil de nos sentirmos unos com a cachoeira: ela vinha forte em seu jato de água, ganhava ainda mais ritmo, galopando por sobre as pedras até alterar o desenho de sua trajetória em 90 graus, seguindo rio abaixo por entre os vales verdejantes que, logo ao subir os olhos, poderíamos avistar o céu, compondo a paisagem em compasso com os raios luminosos do Sol.

Marcio e Claudia
Marcio e Claudia
Marcio e Claudia

Agradecimentos

Marcio e Claudia

Agradecemos aos presentes de Páscoa que ganhamos, novos e amigos de longa data, a cesta em forma de vários coelhinhos coloridos e quitutes dentro, as cachoeiras, os dias ensolarados, as noites frias e confortantes, entre muitos outros. Obrigado Gabriela, Maikon e família da Pousada das Hortênsias e Dona Rilda que nos acolheram com muito carinho. Encerramos o relato com frases, que fizeram todo o sentido para nós nesta viagem, de Clarisse Lispector: "Renda-se, como eu me rendi. Mergulhe no que você não conhece como eu mergulhei. Não se preocupe em entender, viver ultrapassa qualquer entendimento."

A vida é o caminho

Marcio e Claudia

"Tu já chegaste... Portanto,... sente o prazer em cada passo, e descontrai-te acerca das coisas que irás superar... Não temos nada diante de nós, apenas um caminho para ser percorrido a cada momento com alegria. Quando praticamos a meditação peregrina, estamos sempre a chegar, o nosso lar é o momento atual, e nada mais...". Thây.

"Tenho uma boa história para contar. Imagine um riacho descendo do alto da montanha. Ele é muito jovem e quer correr. Seu objetivo é o oceano. Quer chegar lá tão rápido quanto possível. Quando alcança as planícies e o campo, fica mais lento. Se torna um rio. Fluindo lentamente, começa a refletir as nuvens e o céu. Há muitos tipos de nuvens, com diferentes formas e cores, e o rio passa todo o tempo as perseguindo, uma depois da outra. Mas as nuvens não ficam paradas. Elas vêm e vão. O rio chora muito, porque nenhuma das nuvens fica com ele para sempre. As coisas são impermanentes. Ele sofre devido a sua atitude e comportamento.

Um dia um vento forte limpou todas as nuvens e o céu ficou extremamente azul. Não havia absolutamente nuvens. O rio pensou que a vida não valia a pena ser vivida mais. Ele não sabia como desfrutar do céu azul. Ele o via como vazio, e sentia que a vida não tinha significado. Esta noite ele quis se matar. Como pode um rio se matar? De alguém não é possível se tornar ninguém. De algo não é possível se tornar nada. Durante aquela noite ele chorou muito. Este é o som da água batendo nas margens. Esta foi a primeira vez que ele voltou-se para si mesmo.

Até agora, ele tinha apenas corrido para fora de si mesmo. Ele pensava que a felicidade estava fora, não dentro. A primeira vez que voltou a si mesmo e ouviu o som de suas lágrimas, ele descobriu algo. Ele não sabia que um rio era feito de elementos não-rio. Ele estava perseguindo nuvens, pensando que não poderia ser feliz sem elas, e não percebeu que ele era feito de nuvens. O que ele estava procurando já estava dentro dele. Felicidade é assim. Se você sabe como voltar ao aqui e agora e perceber os elementos de sua felicidade que já estão disponíveis, não precisa mais correr.

De repente o rio percebeu que havia algo refletido nele: o céu azul. Ele vê o quão pacífico, sólido, livre e bonito o céu é. Ele não tinha percebido antes. Ele sabe que sua felicidade deveria ser feita de solidez, liberdade e espaço. Ele é preenchido de felicidade porque pela primeira vez soube como refletir o céu. Antes, ele havia somente refletido as nuvens e ignorado completamente o céu. Esta foi uma noite de transformações profundas. Todas as lágrimas e sofrimento foram transformados em alegria, solidez e liberdade.

Na manhã seguinte não havia vento. As nuvens retornaram. Agora ele as reflete sem apego com equanimidade. Ele diz “Oi” cada vez que uma nuvem aparece. Quando a nuvem se vai, ele não fica triste. Ele achou a liberdade. Ele sabe que a liberdade é a fundação da sua felicidade. Ele aprendeu a parar e não correr mais. Naquela noite algo maravilhoso se revelou. A imagem da lua cheia foi refletida. Ele está muito feliz dando as mãos para as nuvens e a lua, caminhando para o oceano. Cada passo, feito em conjunto com as nuvens e a lua traz ao rio muita felicidade.

Cada um de nós é um rio. Começamos como um regato descendo do alto da montanha, querendo correr o mais rápido possível. Então aprendemos como ficar mais lentos um pouco, e começamos a perseguir objetos de nosso desejo. Sofremos. Às vezes sofremos tanto que não queremos nem mais existir. Então temos a chance de voltarmos para nós mesmos e refletir profundamente. Percebemos que o objeto de nosso desejo é a causa de nosso desespero e das nossas aflições. Todos os elementos da felicidade estão disponíveis no aqui e agora. Temos tudo que precisamos. De repente conseguimos o tipo de liberdade que nunca tivemos e somos capazes de viver cada momento de nossa vida diária profundamente. Como nos tornamos um rio feliz, podemos ajudar muitos rios a nossa volta a se tornarem felizes também." Thich Nhat Hanh

  
  

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