As tradições do Marrocos

Estávamos empolgados e prontos para explorar o Marrocos.

  
  
Montanhas Rif

Passamos apenas mais duas noites em continente Europeu resolvendo últimas coisinhas tal como comprar repelente e pastilhas para água e logo estávamos embarcando na balsa com destino a Ceuta, ainda parte da Espanha, porém em continente Africano. Estávamos empolgados e prontos para explorar o Marrocos.

Abastecemos em Ceuta (por não cobrarem impostos, o diesel é bem mais barato), terminamos nossos cartões telefônicos ligando para casa e então fomos enfrentar a fronteira. Esperávamos ter que ficar lá horas, mas até que não foi tão mal e após preencher alguns papéis, comprar seguro obrigatório para o carro, trocar dinheiro e carimbar nossos passaportes, fomos liberados. É claro que havia vários caras querendo nos acompanhar no processo todo, além de ficarem oferecendo seus “serviços de Guia” para conhecermos cidades e medinas. Após algumas palavras e vários “Não, muito obrigado” seguimos nosso caminho, contentes de estarmos na África.

Chefchaouen

Ao longo do nosso percurso, pelas Montanhas Rif, até Chefchaouen, havia muitas pessoas oferecendo “hashish” (Cannabis) na beira da estrada, pois esta região é famosa pela produção do mesmo, o que nos chamou bastante à atenção. Nossa primeira parada foi Chefchaouen, onde passamos a noite em um camping e até estouramos nossa champagne para comemorarmos o começo de mais uma etapa e mais um continente.

Na manhã seguinte fomos conhecer a medina de Chefchaouen, com suas pedras brancas com um leve tom de azul lavado, criando um clima diferente e muito bonito. Fomos até a “Grand Place” e depois tivemos nossa primeira experiência com os vendedores Marroquinos. Resolvemos entrar em uma das lojas de tapeçaria, afinal de contas teríamos que viver esta experiência ao menos uma vez.

Grand Place

Enfim, entramos na loja que tinha milhares de tapetes diferentes expostos nas paredes, cada qual com um desenho distinto, todos muito bonitos. Ele logo nos ofereceu chá e começou a nos mostrar tapetes, expondo todos eles a nossa frente, no chão. Depois de termos vistos uns 30, ele foi passando um a um e pediu para dizermos se havíamos gostado ou não, e conforme fosse ele separava os que havíamos gostado. Foi assim até restarem apenas três tapetes . . . e então começou a negociação. Confessamos que ficamos espantados com o preço que ele nos deu de um só tapete (750 dirham = 75€ = RS$300), mas é claro que este preço era negociável e então a barganha começou, porém mesmo assim o valor que conseguimos chegar era bem além do que gastaríamos. Após muito papo e eles tentando nos convencer a comprar os tapetes de qualquer jeito, até mesmo falavam “credit card” quando dizíamos que não tínhamos todo esse dinheiro. No final das contas acabamos saindo de lá sem tapete, porém com mais uma experiência diferente, que lembraremos para sempre.

A negociação do tapete

Nossa próxima parada foi a cidade de Meknes, com um breve “pit-stop” em Volubilis, a cidade mais remota do Império Romano. As ruínas de Volubilis são famosas pelos seus mosaicos que se encontram em ótimas condições. Caminhamos pelo complexo todo vendo mais uma vez tudo que os Romanos construíram e o quão avançado era sua arquitetura.

Chegando em Meknes, fomos para o camping que era super bem localizado, apenas 20 minutos a pé da “Place El Hedim”. Deixamos o carro lá e caminhamos até a entrada da medina. Acompanhamos a muralha do Palácio até chegarmos a “Bab Mansour”, a porta principal que da entrada a medina.

Volubilis

Paramos em um restaurante bem simples e típico Marroquino e experimentamos pela primeira vez o tradicional “tagine”. Veio tudo rapidinho e bem servido, uma delícia e tudo por apenas 30 dirham (3€ = RS$12) por pessoa. De barriga cheia, fomos conhecer a medina e seus “souks” (mercados), caminhamos dentre tendas vendendo sapatos, artesanatos, roupas e tudo que você possa imaginar. No caminho de volta para o camping visitamos o mausoléu “Moulay Ismail”, que é bem famoso, onde pudemos apreciar a decoração e estilo desta época e da religião Muçulmana é claro.

À noite, no nosso camping, conhecemos o Jean-Fabiénne, um francês já de idade que viaja com sua mulher em uma Kombi toda convertida e equipada. Ficamos batendo papo e ele já tinha viajado por toda a África e tinha muitas recomendações e dicas para nos passar.

Nos encontramos na manhã seguinte, abrimos o mapa, e ele foi nos dizendo o nome de vários campings em diversos lugares, contatos úteis e lugares imperdíveis, o qual fomos anotando com atenção. Ele e sua mulher Lucette já viajaram muito pela África e conhecem bastante a região de Marrocos, Mauritânia e Mali.

Nós com Jean-Fabiénne e Lucette

Para nós foi muito bom conhecê-los e ficamos muito felizes de ver que tem gente, mesmo que com idade, que continua viajando e seguindo seus sonhos, sempre de alto astral e sorrindo. Eles são um exemplo de que tudo é possível, basta querer.

Nos despedimos e seguimos viagem à caminho de Fez . . .

Chegando em Fez, logo avistamos uma placa para o Camping Diamant Vert e lá fomos nós. Simplesmente estacionamos o carro e fomos pegar o ônibus para a cidade, pois queríamos conhecer um pouco de Fez antes de escurecer. Esperamos no ponto até que o ônibus chegou e finalmente estávamos a caminho do centro da cidade.

Caminhamos em direção ao Palácio Real - "Dar el-Makhzen" e logo tínhamos um companheiro oferecendo seus serviços de guia. Não importava o quanto disséssemos que não poderíamos pagar-lhe nada, ele nos seguia e continuava conversando com a gente. No final das contas acabamos combinando de nos encontrarmos com o Mohamed (nosso “guia”) na manhã seguinte, para visitarmos a “Medina” (cidade velha) juntos.

Dar el-Makhzen

Ainda naquela mesma tarde vimos à entrada do Palácio Real com suas respeitáveis sete portas, cobertas em ouro. Andamos pelo “souk”, que consiste em um mercado de diversas lojas e também “camelôs” por toda parte, onde você encontra de tudo! Antes de voltarmos, fomos até o “Borj Nord” onde pudemos apreciar a vista de toda esta “Cidade Imperial”.

No dia seguinte nos encontramos com o Mohamed as 10:30am e então começou nosso extraordinário passeio. Vimos diversas “Babs” (portas e/ou portões), começando pela "Bab Boujeloud", onde entramos para a “Medina”. Foi então que começou a piração . . . muitas coisas para vermos e apreciarmos ao mesmo tempo, fora o “congestionamento de pessoas”. Tínhamos que ficar de olhos bem atentos no Mohamed para não nos perdermos dentro deste labirinto . . . Não tivemos problemas e nossa visita pela “Medina” foi excepcional!

Borj Nord

No decorrer do nosso curso vimos muita coisa diferente e extremamente interessante. Começando pelos pratos de bronze todos trabalhados, depois os panos e toalhas com desenhos bordados, e também os turbantes e xales feitos no tear, tudo trabalhado a mão. Gostamos de tudo que vimos, mas infelizmente nosso budget não inclui a compra de muitos souvenires, porém não resistimos e acabamos comprando um turbante cada, e aprendemos as três maneiras tradicionais de usá-lo: Tuareg, Saara e Berbere. Foi difícil explicar para todos os simpáticos vendedores que gostávamos do que víamos, mas não podíamos comprar!

Aprendemos também que todos os “bairros da Medina” têm 5 coisas:

1. Fonte (onde todos pegam água)

2. Forno público (onde as pessoas levam seus pães para assar)

3. Banho Turco (onde as pessoas tomam seus banhos uma vez por semana)

4. Mesquita (onde somente os Muçulmanos podem entrar)

5. Escola (que ensina o Alcorão para as crianças pequenas).

Tivemos a oportunidade de visitar um “Banho Turco” o que foi interessantíssimo, além de extremamente quente, pois consiste em 3 fases: um banho de água muito quente, uma sala estilo “sauna a vapor” e depois um banho com água morna.

O mais atraente ainda estava por vir, e lá fomos nós vermos as famosas áreas onde eles tingem tudo, desde as peles de camelo e ovelhas, até tecidos em si. O lugar é impressionante e chocante ao mesmo tempo. As condições em que as pessoas trabalham são espantosas, pois nós mal conseguíamos suportar o odor do local.

Seffarine Medersa

Tinham peles de camelo e ovelha, algumas tingidas e outras não, todas estendidas nos telhados para secar. Pudemos ver também, no terraço, uma pilha enorme de lã, que havia sido extraída das ovelhas para então poderem trabalhar com as peles em si. O mais fascinante de ver foram as áreas onde o tingimento é feito propriamente, o qual pudemos avistar de longe. Consiste basicamente em diversas “piscinas de tingimento”, com rapazes dentro delas até os joelhos, colorindo as peles e panos. O resultado de todo este trabalho é espetacular, porém as condições que essas pessoas trabalham e vivem é pasmante.

Visitamos a “Seffarine Medersa", uma escola especializada em preparar professores para as outras escolas do Alcorão.

Normalmente as pessoas iniciam seus estudos aos 15 anos de idade e permanecem na escola em torno de 10 anos, antes de receberem o aval necessário. O “campus” é admirável, com suas portas todas esculpidas e decorações típicas por toda parte; um pátio rodeado por quartos com uma “piscina” no centro, criando um clima bem sereno.

Estávamos com fome então fomos comer alguma coisa. O Mohamed nos levou a um restaurante típico, e tivemos uma experiência autêntica Marroquina. Pedimos, entre nós três, os pratos característicos: “cous-cous”, “tagine” e “kefta” – todos estavam uma delícia e foram muito bem servidos!

Nosso tour estava chegando ao final, mas ainda tivemos tempo de passar rapidamente pela região dos tapetes, visitar uma das lojas, e mais uma vez termos que explicar que não podíamos levar conosco a loja inteira. A equipe de futebol do Marrocos estava na semifinal da Copa África e todo mundo estava se preparando para torcer, inclusive nosso guia, que estava ansioso com o jogo.

Nos despedimos do Mohamed, ele nos explicou como sair da “Medina” (mesmo assim nos perdemos no caminho), e lhe demos uma camiseta de futebol do Brasil como agradecimento. Esta experiência foi bastante marcante e única, e com certeza lembraremos muito bem deste dia!

Mais uma noite no camping e depois seguimos a caminho das dunas do Saara, tendo passado pelas Montanhas Atlas e seus picos nevados, com vistas lindas.

  
  

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