Cachoeira da Fumaça: o grande barato é mais embaixo

Uma das maiores estrelas da Chapada Diamantina é, claro, a Cachoeira da Fumaça. Impressionante pelo tamanho colossal de sua queda livre, em torno dos 400 metros.

  
  

Introdução

Cachoeira da Fumaça

Uma das maiores estrelas da Chapada Diamantina é, claro, a Cachoeira da Fumaça. Impressionante pelo tamanho colossal de sua queda livre, em torno dos 400 metros. Vista de cima apavora pela sensação de se estar suspenso no nada. Vista de baixo, mesmo sem água, como foi o caso, assusta por colocar a gente na humilde condição de `um ínfimo cisco no infinito universo`.

Um paredão de pedra se ergue vertiginoso numa garganta cujo fundo é um poço muito grande de águas escuras. Mergulhar ali é como pular num copo de Coca Cola gelada. De noite a estrela da Chapada dá até ilusão de ótica no céu sempre estrelado demais. Quando a gente deita sobre uma pedra e olha para cima, para a garganta de onde a água virou mesmo fumaça, tem a impressão de estar vendo o contrário. Como ela fosse um buraco negro de pedra por onde se pode ver o céu, mas... de cima pra baixo.

Quem faz os roteiros básicos da Chapada, `roteiro de tia` como o pessoal fala por lá, tem na maioria das vezes, uma visão de cima dos morros, dos vales e das serras. Uma visão panorâmica

Quando se desce ao nível do chão é que se percebe a dimensão extraordinária de todo aquele cenário. Você caminha duas horas ao lado de um morro e parece que não saiu do lugar. O topo parece então inatingível. É porque você está no fundo do poço do mar que virou sertão. Agora, marés, só as de um novo oceano... as ondas de frio e calor nas correntes de ar, que trazem as chuvas.

Quando chove muito é preciso atenção. A precipitação escorre pelas encostas e uma tromba d`água se forma do nada. Em questão de minutos, tudo o que estiver pela frente é arrastado. Por isso sempre é bom ficar de olho no céu.

Essa trilha que leva ao fundo da cachoeira da Fumaça, parte do seu topo e desce por uma fenda em sua margem direita. Ainda é novidade na região.

É uma trilha que exige muito do joelho por causa da descida bastante íngreme e escorregadia, de cerca de 3 horas. Apesar disso não oferece perigo. Não há muitos trechos de alta dificuldade. O momento da passagem pela fenda é o mais complicado, exigindo mais atenção do que experiência.

O esforço vale a pena. Depois desse passeio que dura 5 dias você nunca mais vai ver a Chapada Diamantina da mesma forma.

Primeiro dia

Morro do Pai Inacio

Esta foi minha segunda semana na Chapada Diamantina. Nela fiz uma das trilhas mais emocionantes do trekking brasileiro: a descida para o poço da Cachoeira da Fumaça por uma fenda na lateral direita da sua encosta. A trilha pode ser feita por qualquer pessoa que tenha resistência física, não é perigosa, e oferece beleza, dificuldade e adrenalina na dose certa. Ainda não é muito conhecida e, tome nota, é inesquecível.

Acordei na Pousada do Alcino, famosa em Lençóis por ter o `melhor café da manhã da Chapada Diamantina`. Nossa anfitriã, a Dai, explica a fama: `a diferença é que aqui a gente nunca repete o café da manhã. Cada dia a gente inventa uma coisa`. Imagine uma mistura muito louca de loiraça belzebu com globetrotter, um tipo mãezona, e você tem a Dái, amiga de Alcino o dono da pousada. Ela não é da terra. Nasceu em Pindamonhangaba, interior de São Paulo. Se é o melhor café da manhã da Chapada não sei. Só sei que é bom pra caramba!

Bom começo pra uma aventura que ia durar 5 dias e 40 km no meio do mato. O normal deveria ser subir a trilha da Fumaça pelo Vale do Capão. No meu caso já começou já de um jeito diferente: escalando o Morrão, um dos centros de referência mais importantes da Chapada Diamantina, porque por ele passam várias trilhas imperdíveis da região, inclusive de bike e a cavalo.

Vista do Pai Inacio

Passados alguns minutos das oito da manhã o guia Zói e o motorista Guilherme, velhos conhecidos depois de uma semana de aventuras comigo no `roteiro de tia` apareceram na porta com o Raio Branco, o jipe Toyota que nos levou até o começo da trilha onde íamos encontrar outro guia, o Piaba. Tivemos que pegar o asfalto em direção a Palmeiras e passar pelo morro do Pai Inácio pra chegar lá.

O objetivo era o Morrão, que parece um cupinzeiro gigante, com seus cerca de 250 metros de altura. Nesse cenário grandioso passam diversas trilhas imperdíveis da Chapada.

Durante 3 horas descemos a encosta do vale coberto por uma vegetação rasteira, com um capim muito afiado chamado `capim navalha`. Eu estava de bermuda e penei. Minha perna ficou parecendo pente, toda `anavalhada` pelo tal capim. Nunca quis tanto estar usando um meião de futebol. - como naquele momento ia ser muito bom. O calor era bravo e as calças me faziam suar como um camelo. O fotógrafo de natureza, David Legerfeld e seu assistente Léo, formavam o resto do grupo. Eram mais ou menos duas da tarde quando chegamos na base do Morrão, num lugar conhecido como Águas Claras por causa de uma série de quedas d`água cristalinas onde vivem muitos sapos, roedores e tartarugas. Ali numa toca apelidada de Toca do Rabudo (um roedor parecido com um guaxinim) fizemos acampamento.

O calor era muito forte. Fomos direto tomar um banho num lugar muito lindo que tem ali, onde conforme o nível de água do riacho, descobre uma hidromassagem natural encravada dentro da cachoeira que é simplesmente a porta do céu para quem erra por aqueles causticantes campos gerais.

Entrei por um buraco no leito rochoso da cachoeira como se estivesse entrando num bueiro. Sentei num banquinho natural com as pernas esticadas numa boa e na minha frente, num buraco da cachoeira que descia pelas minhas costas, fiquei longos minutos olhando o laguinho que aparecia na minha frente. Coisa de cinema americano. Parecia piscina de milionário. Ali esfriei os miolos para encarar o Morrão. Mesmo com o sol das 3 da tarde caminhamos durante mais de 1hora em volta daquele imponente bloco de rochas. Em torno dele nossos passo pareciam não render. Tive a impressão de estar andando numa esteira de academia. Com esforço razoável alcançamos a entrada da trilha. Durante um bom tempo a subida é feita na encosta leste da montanha, em terreno muito íngreme coberto de capim navalha. Próxima do topo a trilha fica mais radical e passa por terreno pedregoso onde é preciso mais `escalar` do que andar.

Depois de uma hora e meia alcancei o topo para apreciar o sol se pôr. Lá de cima dá pra ver o Morro do Pai Inácio, em Lençóis, a entrada do vale do Pati, o Vale do Capão e uma amplidão enorme. Os crepúsculos diamantinos são sempre longos porque o sol se esconde em breves minutos atrás da cadeia de montanhas mas brilha durante bom tempo no horizonte. Tempo suficiente para descermos o Morrão e jantar nas Águas Claras. Como pra baixo todo santo ajuda chegamos na toca, uma hora depois, ás 7 da noite.

Comemos o primeiro macarrão da expedição. O sono bateu rápido depois de um dia inteiro de caminhadas e escaladas. Barriga bem cheia, mesmo sem tomar banho, fui dormir. Tentar pelo menos. As indústrias fazem barracas pra gnomos eu acho. Com 1,88 metros de altura, nem sozinho e na diagonal, eu cabia na barraca.

Cobri minha cabeça com o capuz do agasalho, enfiado no saco de dormir e apaguei. De vez em quando acordava com as rajadas do forte vento que parecia correr encanado por entre as montanhas.

Segundo dia

Vale do Capão

Acordei cedinho, antes das sete, para um banho na Cachoeira. `Quem é doido, moço` diriam Zói e Piaba. O vento, frio, ainda soprava forte.

Desmontamos as barracas enquanto as nuvens resolviam se iam deixar o céu azul ou não. Melhor que não por causa do calor. Íamos caminhar uns 18 km até a Vila do Capão para, aí sim, começar a escalada para a Fumaça no dia seguinte.

Tivemos que refazer uma parte da trilha da véspera caminhado ao lado do Morrão por um bom tempo. O Piaba, na minha frente, carregava os isolantes e uma mochila enorme de equipamento. Cada vez que o vento batia jogava ele pra trás como uma pipa.

Duas horas depois de passar por campos gerais, entramos numa estrada de terra no fundo do vale. Subindo em direção à Vila do Capão passamos por uma comunidade esotérica famosa no pedaço e fizemos um pit stop na casa de Gatão, um tipo Claudio Heinrich da Chapada que é guia também. Fomos nadar na piscina natural que tem nos fundos da casa dele. No meio do riacho, uma pedra que parece a tartaruga ninja forma um lugar maneiro pra ficar lagarteando ao sol. Pulando uns vinte metros de pedras é fácil chegar num piscinão enorme que a curva do riacho forma. Êta coisa boa! Pegamos uma carona na pick up do Gatão no meio da tarde e fomos comer pastel de palmito de jaca na Vila do Capão.

A Vila tem um comércio bem familiar, muito rudimentar mas que sustenta o povo da região. A maioria ali vive em função do turismo. Estava precisando de algumas coisas tipo pasta de dente, pilha de lanterna e tal. Aproveitei para distribuir a renda no local, tomando suco num lugar, comprando a pilha em outro e assim por diante. No final da tarde subimos a íngreme estradinha que liga a Vila do Capão ao Vale do Capão e Lençóis. Ainda deu tempo de ver o sol tingindo de dourado a entrada da trilha para a Cachoeira da Fumaça quando chegamos na Pousada Verde onde ia dormir aquela noite.

Depois de um jantar supimpa com feijão tropeiro, aipim frito, palma, carne seca, o sono bateu forte. Perto das nove da noite, Terráqueo, um grande figura e também guia, chegou com uma entrega especial. O grupo agora ia ficar maior. A veterinária Alessandra e a fisiatra Gabi, iam encarar o mesmo desafio: descer ao poço da Fumaça

Acordei no dia seguinte com um analista de sistemas, o Zé Roberto, roncando na cama ao lado. Ele era o último que faltava para a gente partir pra cima da Cachoeira. Fiquei pensando como aquele cara tinha entrado no quarto se eu dormi como uma pedra. Agora sim ia começar a Expedição `Fumaça por Todo Lado`, Fumaça por cima e por baixo.

Terceiro dia

O dia começou cedo já com sol. No jardim da pousada um pé de `saco de veio` chamou a atenção. A planta dá um fruto que parece um limão peludo mas é cheio de ar. Por isso o pessoal chama de `saco de veio`: é murcho, peludo e não serve pra nada. O pessoal se prepara. Muito esparadrapo nos pés, meias, equipamentos... Oito e meia da manhã lá estou eu assinando pela segunda vez o livro de controle de entrada do IBAMA em duas semanas. Subo de novo os primeiros trezentos metros bem puxados da trilha me agarrando nas pedras do caminho. Depois um platô bem mais agradável para andar, com vegetação rasteira e solo arenoso ás vezes, e cumprir os 7 km da trilha até o topo.

Volto de novo até a boca da Cachoeira mas dessa vez. Há pouca água no riacho que escorre pela garganta para voar pelo precipício de quase 400 metros de altura. Mesmo assim é possível testemunhar o fenômeno que faz a água voltar para cima da pedra. Mesmo seca a cachoeira da Fumaça é impressionante.

Depois de um reforçado lanche de trilha voltamos um pequeno trecho e enveredamos por uma trilha do lado direito da garganta. È preciso andar pelo menos `uma volta de relógio grande` como diz Zói para alcançar a greta que dá acesso à fenda por onde vamos descer. A mesma paisagem pedregosa com vegetação rasteira acompanha a trilha que sobe e desce pela encosta. Quando a sede apertou chegamos ao `santuário`. Um nicho de pedra de onde brota uma mina de água. Aproveito para matar a sede pensando que o nome desse lugar é bastante apropriado. Parece mesmo um tipo de altar de santo. E também por conta da água pura que escorre pra fora da terra, coisa cada vez mais sagrada e que deve ser preservada. Neste ponto Zói informou que a entrada da fenda estava `mais perto que longe`. Meia hora, pouco mais, chegamos na fenda. Um buraco estreito e bem íngreme causado por um deslizamento da parede do cânion.

Tivemos que descer com muito cuidado por causa da areia solta que fazia a gente escorregar e as pedras soltas que rolavam de vez em quando. Esse é o ponto crítico da descida. Daí pra frente a trilha passa por exuberante amostra da mata atlântica até chegar no pedregoso leito do rio formado pela água que escorre do poço formado no fundo da cachoeira. Ainda na descida tem um ponto de onde se pode ver já mais perto o paredão e o poço da Cachoeira da Fumaça. Os 40 minutos de caminhada pelas altas pedras do rio seco parecem 40 horas. Minhas pernas já não estão obedecendo muito bem quando chego numa capoeira com ramos bem entrelaçados de um arbusto verde e muito robusto. È difícil até passar por essa barreira natural que circunda todo o imenso poço da cachoeira. Nas paredes do fundo, numa quina do paredão as pedras formam um deck natural. O poço está com bastante água embora da cachoeira não caia quase nada. Um monte de pedras e todos os tamanhos formam o `chão` do lugar.

É uma sensação muito estranha estar ali. Ficamos minúsculos como uma formiguinha comparada a um elefante. O final da tarde e a sombra no local deixam o poço muito frio. Não estou nem aí. Pulo no poço de roupa e tudo. Dá medo! A água escura não deixa ver nada. Depois de um tempo meio em êxtase deito de barriga pra cima numa pedra dentro do poço e olho pra cima. A boca da cachoeira está muito longe, lá me cima. O paredão de pedra parece que vai cair por cima de mim.

Antes que anoiteça, o Piaba chama todo mundo para a toca suspensa onde vamos passar aquela noite: na encosta esquerda da cachoeira, numa plataforma da rocha de uns 10 metros de comprimento por onde se chega depois de se esgueirar por entre o mato e as pedras. Fica a uns 40 metros de altura com relação ao poço. Parece uma varanda de frente pro mar. Comemos nosso segundo macarrão e ficamos olhando pro céu estrelado até o sono baixar. A partir dessa noite dispensamos as barracas e passamos a dormir com o `manto de estrelas` por sobre as cabeças. Ali estávamos a uns 10 km da civilização e absolutamente isolados do mundo. Sem rádio, telefone, tv, jornal...

Foi uma das melhores noites da minha vida. Alguns goles da cachaça Abaíra e uma garrafa de vinho animaram a fogueira até altas horas e fizeram todo mundo enxergar um velho barrigudo dormindo no skyline noturno que rola nas encostas da Fumaça. A cachaça é boa ou não é?

Quarto dia

Dormir sobre a pedra faz a gente acordar mais cedo que o habitual. E com fome de Leão. Depois de um café da manhã cheio de carboidratos tomado na nossa `cobertura`. Arrumamos as tralhas e descemos para mais um banho no poço. A água, gelada, claro.

Antes de partir sempre rolava um ritual entre os escalavrados companheiros de expedição. O fotógrafo de natureza David Legerfeld, aplicava grossas camadas de esparadrapo em quase todos os dedos do pé para continuar na trilha. As meninas com problemas no joelho se manifestando faziam demorados alongamentos... O Piaba com dor de dente... Todos os integrantes da expedição já eram veteranos do local, estavam na segunda semana de Chapada, e sabiam que numa trilha dessas você não pode se machucar. É ruim pra você e ruim pro grupo.O negócio era se cuidar!

Descemos pelo leito pedregoso do rio da Fumaça protegidos do sol por uma densa mata atlântica. No caminho paramos numa mina de água onde existe uma grande comunidade de pernilongos e muriçocas.

Mais pra frente encontramos um casal de botânicos colhendo amostras da mata e lá pelo meio dia passamos pela toca do Macaco, onde os grupos que fazem uma trilha no sentido inverso costumam acampar.

Essa toca é uma calha de pedra muito grande onde se formaram vários degraus, de diversos tamanhos. Certos cantos de pedra parecem casas com lugar para cozinha, camas para dormir, etc.

Resolvemos continuar mais uma hora a caminhada até o calor aumentar mesmo porque aí a mata não cobria mais o leito das pedras. Uma travessia demorada que cansa muito as pernas e o joelho. Paramos numa das muitas piscinas naturais que existem no rio para um mergulho e para fazer nosso lanche. Chupar uma laranja num lugar como esse é uma experiência realmente satisfatória.

Depois do almoço e do descanso, continuamos a descer o rio para acampar na Cachoeira da Capivara, onde chegamos no final da tarde. Um grupo de soteropolitanos já estava acampado por lá.

Antes de se chegar ao salto da cachoeira existe uma pedra bem grande e plana que se emenda com uma dessas tocas que existem às centenas pela região, no lado esquerdo de quem desce o rio.

Forma um poço bem na frente e 20 metros mais na frente despenca de outros tantos de altura para formar um poço muito bonito onde é ótimo nadar e tomar uma ducha. Os mais doidos se jogam lá de cima no poço.

No finalzinho da tarde chegou um grupo grande de turistas estrangeiros, franceses principalmente. Todos acampamos na toca. De noite todo mundo se juntou na pedra para um luau sem música. As nuvens no céu estrelado formavam imagens engraçadas.

Dormimos todos ali mesmo até as cinco da manhã. Todo mundo roncou pra xuxú. Menos eu, claro.

Quinto dia

Cachoeira do Palmital

Lá pelas cinco da manhã caiu uma chuva estranha, rápida e rasteira, que nem chegou a molhar muito, mas foi o suficiente pra acordar todo aquele povo roncando em cima da pedra. Foi cada um pra um lado tomar café da manhã e seguir caminho. Nós continuamos a descer o leito do rio. Primeiro uma parada para um banho no poço da Capivara. Em seguida fomos para a Cachoeira do Palmital.

Uma espécie de Cachoeira da Fumaça em miniatura. Depois de uma boa caminhada, tipo umas duas voltas de relógio grande, chegamos num poço de água cor de coca cola bem grande. Lá no fundo um degrau de pedra da largura da cachoeira servia de ducha com uma queda d`água de uns 20 metros de altura num grande paredão rochoso.

Bom demais nadar no poço e entrar na ducha. O caminho para Lençóis era longo, ainda uns 20 km e feito nas encostas rochosas de um dos ramos da serra do Sincorá. Passamos pelo Ribeirão das Mutucas, onde por graças de Deus não havia nenhuma naquela hora. Daí pra frente o caminho foi feito com o sol na moleira e o calor que o chão rochoso refletia. Ali tinha sido um garimpo. Estava todo revirado, cavado, pedras e buracos por todo lado. Ainda assim a vegetação de cerrado ali, tinha uma flor vermelha bonita, chamada raio de sol, espalhada como os buracos do garimpo. Tudo no sertão é antes de um tudo, forte.

No meio da tarde passamos pela casa de seu Zé e dona Nilze onde paramos para um gole de água fresca, um pouco de sombra e um dedo de prosa. Foi lá que conhecemos o cachorro Clóvis, um tipo labrador castanho claro que resolveu descer com a gente até Lençóis.

A descida foi `pela BR` como falava o Zói. Uma larga faixa de pedra aflorada na terra conduziu a gente até a corredeira do Ribeirão do Meio, uma das entradas de Lençóis, Ali a pedra lisa como um mármore é multicolorida e cheia de buracos como um queijo suíço. É meio estranho andar descalço sobre ela. Mas alguns buracos servem para ótimos banhos porque formam hidromassagens individuais. Um buraco onde se encaixa e fica debaixo de uma ducha de água. É só procurar que acha.

Lá pelas cinco da tarde completamos o trecho final da travessia de cerca de 3 km. Descemos pela rua das Pedras que é onde rola o comercio e a vida noturna de Lençóis até chegar na praça que existe na entrada da cidade. Depois de tirar a mochila das costas e ficar descalço tomei 3 Coca Colas geladas para celebrar a aventura. O pessoal só queria saber de cerveja. O Clóvis andava de um lado pra outro atrás da cachorrada.

Quando recuperamos as forças voltamos para os braços da Daí na pousada do Alcino, na rua do Tomba Surrão, nome emprestado da ilustre família dona daquela área na época do garimpo. Todo mundo lá na Pousada só falava na festa de uma senhora de 80 ou 90 anos muito conhecida na cidade. A Dai ia com o pessoal da pousada e estava fazendo um monte do seus quitutes para levar. Saiu todo mundo com roupa de festa.

Eu e o pessoal voltamos para a praça e destroçamos um filé com aipim fritinho, arroz e palma cozida. Só pensava no café da manhã do dia seguinte. Ainda tive o dia livre para conhecer melhor Lençóis, uma cidade colonial ainda muito conservada e que está sofrendo um processo de restauração que pode transforma-la na Ouro Preto da Bahia.

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Dicas do autor

Paulo Priolli

Essa é uma trilha difícil de fazer. Exige bastante prudência, concentração, consciência e resistência em vários sentidos. Tem um grau forte de dificuldades.

As condições metereológicas e ambientais mudam muito com relação ao poço da cachoeira da Fumaça. Quando chove muito na cabeceira do riacho que forma a queda lá em baixo pode ser muito úmido por causa do vento que desloca a água pra todo lado. A partir de dezembro começa uma temporada de chuvas e nem sempre as condições de segurança são as melhores possíveis. Não se deve brincar com a natureza. Além disso a trilha fica bem escorregadia em algumas ocasiões.

Leve sempre suas coisas protegidas por sacos plásticos.

Não esqueça de levar uma lanterna boa, potente. É muito necessária por lá.

Canivetes tipo suíço também são bastante usados na trilha.

Evite peso porque a trilha é puxada e anda muito pelo leito pedregoso do rio da Fumaça.

Proteja bem seus pés da umidade e do desgaste para evitar bolhas, micoses e coisas do gênero. Se possível usar botas especiais que protegem até o tornozelo.

Se for usar tênis, prefira os do tipo futsal que dão mais equilíbrio e firmeza nas pedras.

Cuidado com os joelhos. Se tiver problemas consulte um médico antes de ir.

Ande com dinheiro trocado no bolso porque a escala de mercado de lá é pequena se comparada à das cidades grandes. Tente fazer suas compras em vários locais para distribuir a renda entre os comerciantes. Hoje em dia o turismo é a principal atividade da região.

Faça o favor de não produzir lixo nas trilhas e outros pontos turísticos e se o fizer, faça o favor maior ainda de se encarregar do lixo. Se possível também o lixo dos `sugismundos` que passam pelos mesmos caminhos.

Em Lençóis só existe o Banco do Brasil. Bradesco só na cidade vizinha, Palmeiras.

A água da cidade é amarelada, mas boa para o consumo quando filtrada.

A rede elétrica é 220 volts.

Na Chapada existe muita luz e o filme ideal é o de asa 100. É um filme de grão fino que dá muita nitidez às fotos.

  
  

Publicado por em

Adérico

Adérico

20/05/2011 22:07:46
Sr Paulo Priolli, excelente relato. Parabéns. Seu amigo Adérico, manda um forte abraço.

Hildebrando Ferreira de Oliveira

Hildebrando Ferreira de Oliveira

04/06/2010 23:11:23
Muito ótimo seu relatório, estive hoje 04/06/10, no Capão visitando a cachoeira da fumaça, é uma das grandes maravilhas do mundo, e vale a pena visitar.
Um grande abraço.

Sílvio Romero Almeida da Silva

Sílvio Romero Almeida da Silva

13/07/2009 14:10:34
Muito bom o relato feito por Paulo Priolli da caminhada do Morrão a Lençois, passando pelo Capão, Cachoeira da Fumaça parte alta e parte baixa, Cachoeira da Capivara, Cachoeira do Palmital e Ribeirão do Meio. Trata-se de um roteiro pouco praticado mas que pelo que foi descrito é uma boa opção de caminhada na Chapada Diamanttina.

Adriano Dourado

Adriano Dourado

10/04/2009 11:34:59
Bom dia, com toda essa beleza que a Chapada Diamantina oferece, o ministro do turismo deveria dar uma atenção especial a lugares maravilhosos como este, e reativar linhas aéreas para a chapada; Além do mais: tem um aeroporto no municipio de Lençois, que esta sem linhas aéreas suficiente e preços acesivel para turistas. Enfim precisamos cobrar mais dos nossos governantes, e etc....