Carrancas - Um show de ecoturismo em Minas Gerais

Os bandeirantes sabiam tudo de ecoturismo. Suas entradas pelos sertões revelaram ouro e diamante no passado e fizeram nascer povoados que hoje exploram a riqueza natural de cachoeiras e cavernas.

  
  

Apresentação

Cachoeira da Zilda

Os bandeirantes sabiam tudo de ecoturismo. Suas entradas pelos sertões revelaram ouro e diamante no passado e fizeram nascer povoados que hoje exploram a riqueza natural de cachoeiras e cavernas. É o caso de Carrancas, no sul de Minas Gerais, um dos mais novos ecodestinos do país. Fica a cerca de 400 km de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte... Perto de Lavras e Barbacena, tipo seis horas de viagem...

O município é vizinho da histórica São João Del Rey, uma das cidades mais importantes do Brasil Colônia. Ali sim, por ironia, achou-se muito mais ouro que em Carrancas. Mas como centro de abastecimento no caminho da Estrada Real, que escoava o ouro das Minas Gerais para os portos do Rio de Janeiro, Carrancas foi importante à sua maneira.

O povoado surgiu em 1720, quando bandeirantes paulistas da capital e de Taubaté entraram pelo sertão até as margens do Rio Grande, atraídos pelo ouro dos Campos das Vertentes. Foi chamado de Nossa Senhora da Conceição das Carrancas, Carrancas de Baixo, Carrancas de Cá...

O nome, Carrancas, faz lembrar aquelas esculturas que ficam na proa dos barcos do Rio São Francisco. Nada a ver. É culpa dos garimpeiros! Dizem que os caras encheram a terra de buracos procurando ouro. No caminho para o vilarejo ficavam duas rochas muito grandes que também foram escavadas. Olhando de longe pareciam duas carrancas medonhas. Tinha gente que nem passava por lá de noite. Tinha medo.

O nome pode não ajudar mas o fato é que Carrancas é um município muito agradável. Além da tranqüilidade de uma cidade de interior e do ar puro, existem no pedaço 18 cachoeiras, uma lagoa, um escorregador e um conjunto de piscinas naturais divididos em 7 complexos turísticos. O mais perto está a 2 km do centro. O mais distante fica a 17 km. Tudo ligado por estradas vicinais de terra em bom estado de conservação. Pena que não tenha sobrado muito de seus edifícios coloniais. No quesito arte e arquitetura, sua maior riqueza são os 4 evangelistas (Mateus, Marcos, Lucas e João) pintados pelo mestre Natividade, discípulo de Aleijadinho, no teto da igreja matriz.

Hoje, junto com a agricultura e a pecuária de leite, Carrancas começa a cavocar o potencial do seu ecoturismo. Mas as autoridades do município precisam ficar atentas para lapidar a jóia que tem nas mãos. Ao mesmo tempo em que colocam na internet um site parar divulgar suas belezas, deixam que se forme um lixão no caminho para a Cachoeira da Zilda, um dos seus principais passeios.

Também é importante controlar o fluxo simultâneo de turistas para que suas cachoeiras não virem o piscinão de Ramos. Alguns locais são bem limitados fisicamente e não comportam uma excursão de 40 pessoas, por exemplo.

A maioria das atrações está em propriedades particulares, em fazendas produtivas que ainda criam gado, plantam e fabricam queijos.

Isso por um lado é bom, porque estimula a contratação de guias locais o que, teoricamente, preserva o meio ambiente. Por outro lado, o acesso às atrações fica a mercê do proprietário da terra que pode proibir ou cobrar por ele. No escorrega da Zilda cobra-se, por exemplo, 1 real por cabeça.

A cidade tem uma infra-estrutura ainda acanhada em termos de hospedagem e alimentação mas conta com a opção de um camping familiar e passeios a cavalo e de bike, inclusive à noite. Suas trilhas não exigem grandes esforços físicos e podem ser feitas por crianças e pessoas mais velhas numa boa.

Primeiro dia

Vista do percurso até chegar em Carrancas

O primeiro dia foi uma extensão da noite anterior, passada no ônibus que enfrentou, com conforto, o trânsito carregado da saída para o feriadão de 15 de novembro. Depois de umas sete horas de viagem chegamos à Carrancas ao amanhecer, bem a tempo de se empanturrar com os pães de queijo e biscoitos de todos os tipos do café da manhã. Uma rápida cochilada na pousada e lá fomos nós para a primeira das estrelas de Carrancas: o Complexo da Zilda.

São 10 km de estrada de terra, partindo do centro. No caminho duas coisas chamam a atenção: um depósito de lixo orgânico na beira da estrada e a quantidade enorme de cupinzeiros nos campos em redor.

Cachoeira da Zilda

Descemos no leito rochoso de um riacho. Subindo seu curso forrado de uma pedra escorregadia a gente chega numa piscina natural onde deságua a Cachoeira da Proa. Subindo pelo grande bloco de pedra que parece o bico de um navio o caminho vai acabar na Cachoeira da Zilda, meia hora depois.

O lugar é muito legal. Uma pequena praia de cascalho dá acesso a uma piscina natural onde rola um banho bem gostoso com a água geladinha que cai da cascata de uns 10 metros de altura e que fica do lado direito. Tem vários lugares para tomar uma ducha gostosa, na cachoeira também.

Quem conhece o pedaço consegue enxergar a entrada `secreta` da gruta funda que sobe pelo lado esquerdo da cachoeira, onde mora uma penca de morcegos. A gruta ainda é nova, está em processo de formação de suas estalactites e estalagmites, ali, bem na frente do poção.O mato encobre sua entrada e por isso a maioria dos visitantes nem nota. Ainda bem porque aquilo tudo é muito frágil e deve ser preservado.

Cachoeira dos Anjos

Anyway foi por lá, em meio aos sonolentos morcegos que pegamos um atalho, lá pelas duas da tarde, para almoçar num restaurante rústico. No cardápio, carne de porco, como é de lei em Minas Gerais. Depois do farto almoço, nada de moleza. Direto para as outras Cachoeiras do Complexo da Zilda: a Cachoeira dos Anjos e a Racha da Zilda, tudo ali perto, tipo uns 2 km. Para chegar na Cachoeira dos Anjos a gente tem que passar por um riacho cheio de pedras. É uma caminhada rápida, de uns 200 metros. Logo se chega a uma garganta de pedra com uma cachoeira alta, tipo uns 6 metros, do lado esquerdo. Em frente como que um grande salão de pedra escorregadia leva até um buraco de onde jorra um riacho. Quem tem força consegue passar pela correnteza do poço do `sonrizal`, com 6 metros e meio de profundidade. Ali existe a racha da Zilda, um corredor de pedra estreito por onde se tem que nadar contra a correnteza forte para chegar no `panelão`, outro poço fundo, com 8 metros. O lugar é muito bonito e vale a visita mesmo no final da tarde, quando já está mais frio.

Quando começa a escurecer voltamos para o ônibus. No caminho paramos no escorrega da Zilda, o tal com ingresso a 1 real por cabeça. È incrível. Nunca vi um escorrega assim. Não é uma pedra toda desnivelada, cheia de altos e baixos. Ao contrário, é perfeita. Parece uma fatia, lisinha. Lembra muito aquelas chapas de aço que a Sabesp coloca na rua quando está em obras. Até porque não é grande. Deve ter uns 4 metros de comprimento por uns dois de largura. Mas escorrega muito bem...É ótimo.

Depois de escorregar na Zilda o pessoal reclamou muito de ter que `escalar` um morrinho besta sô... Para chegar ao ônibus que era muito grande e não conseguia descer pela estradinha pra buscar os folgados.

Voltamos para a pousada. Todo mundo tinha duas horas para tomar banho e se trocar, antes do jantar no Carrancudo, na praça da matriz. Resultado: a chave geral caiu duas vezes quando todo mundo ligou o chuveiro elétrico. Banho por etapas.

Uma coisa que todo mundo repara: quando cai a noite, milhares de mosquitos, besouros e mariposas aparecem do nada e ficam voando que nem bestas em `vórta das lâmpida` como diria o grande Adoniran Barbosa. É um mais estranho que o outro. Um maior que o outro. Sabe aquele `siriri`, um insetinho parente do cupim que solta as asas e aparece no calor, de montão? Com o que existe de cupinzeiro em Carrancas, tinha que ter muito siriri uai!

O jantar no Carrancudo revelou que a gente não entende nada de comida mineira. Teve gente reclamando que a polenta estava fria. O dono do restaurante teve que explicar que aquilo era angu e não polenta. E que em Minas o pessoal come frio mesmo. Desculpa aí. Foi maus!

Depois do jantar, ali pelas 11 da noite, não há muito o que fazer, apesar da fama carnavalesca da cidade. Carrancas foi a primeira cidade brasileira a adiantar o carnaval. Deu até no jornal Nacional com o Cid Moreira. Por causa de um padre bravo que queria todo mundo rezando na igreja na época da quaresma.

Agora diversão é um forró aonde vai todo mundo, dos 8 aos 80 anos. E a paquera na rua detrás da matriz... Em último caso, a pousada tem Tv no quarto.

Segundo dia

Cachoeira da Fumaça

Acordamos às sete da manhã, horário padrão de qualquer excursão que se preze. Depois do calórico café da manhã com pão de queijo fomos a pé para a Cachoeira do Tira Prosa, descendo a rua da pousada. Rapidinho a gente chega num lago relativamente grande. Por ele sobe o leito seco e rochoso de um riacho, numa espécie de estrada de pedra. Legal de caminhar ali e bonito de ver a tal de Cachoeira do Tira Prosa. Subindo por esse caminho, coisa de meia hora, tem outra: a Cachoeira do Moinho. No local, antigamente, funcionava mesmo uma roda de moinho. Hoje a cachoeira é só pra tomar banho. Fica a 1,5 km da cidade. Um pulinho. Chegando lá é só cruzar o riacho por cima e descer para o poço por onde se pode alcançar a parede de água da cachoeira e curtir aquela ducha. Lá pelas 11 da manhã resolvemos ir para o Poço do Coração que também fica pertinho da cidade.

È um lugar muito bonito com 3 lances principais. Pequeno, intimista, não tem muito espaço. No primeiro patamar existe um poço para mergulhar do alto, de uns 3 metros de altura. Na frente, como se fosse um deck de piscina, existe uma grande pedra plana. Dá para ficar deitado tomando sol na boa. A queda d` água continua até outro patamar onde existe o poço em forma de coração, uns 20 metros para a frente. Outros poços se comunicam com o Poço do Coração e é possível passar de um para o outro por debaixo d`água.

Ninguém queria saber de parar de pular no poço. Foi difícil juntar todo mundo e ir até outro complexo de cachoeiras: o Complexo da Fumaça, que fica a 6 km do centro de Carrancas.

Isso lá pelas duas da tarde. Subimos um morro alto, do lado esquerdo do Poço e depois descemos em terreno com capim rasteiro, fácil de andar. Depois de 40 minutos de caminhada chegamos na Cachoeira do Véu da Noiva, numa versão de 36 metros de altura. Grande. E o legal é que a trilha passa no meio dela. Dá para ficar explorando vários pontos diferentes da cachoeira ao mesmo tempo. De lá avista-se a Cachoeira da Fumaça, à esquerda, no fundo do vale.

A trilha chega lá fácil. A queda d`água tem 19 metros de altura. È uma parede grande e alta de rocha que cai numa piscina natural muito bonita e larga. Do lado direito, passando por uma pontezinha de madeira, existe um bar bem modesto que abastece de latinhas de alumínio a paisagem em volta. Existe também um camping informal no terreno ao lado do boteco. Muitos motoqueiros que fazem motocross param ali para se refrescar um pouco.

Passamos direto pelo bar. Nosso ônibus está lá em cima do morro esperando para nos levar até uma fazenda onde vamos tomar um café colonial. São quase 4 horas quando chegamos na fazenda. O sol baixo enche de luz e calor o varandão onde uma infinidade de pães e biscoitos estão servidos com queijo fresco e leite tirado na hora.

Tudo isso com vista para um genuíno curral cheio de vacas e bezerros fazendo figuração. Ali também é um bom lugar para comprar doces e geléias. Você encomenda e eles entregam no hotel, no dia seguinte. Voltamos para a pousada no final da tarde. Outra vez o banho foi por etapas. E o jantar foi na Esmeralda, com música ao vivo. Legal o cara que cantava. Não lembro o nome. Ele ficou empolgado quando chegamos. Quando viu aquele público todo chegando (também eram mais de 20 pessoas) aí que ele não parou mais de cantar.

Terceiro dia

O ultimo dia foi mais tranqüilo. Acordamos às oito da manhã, atacamos os pães de queijo e entramos no ônibus para ir até a Serra das Bicas, onde fica a Cachoeira das Andorinhas. Quem vai de carro pára bem pertinho da trilha que atravessa um pasto. O ônibus era pesado demais para o mata burro da fazenda. Descemos ali e tivemos que andar uns 2 km na estradinha até chegar na trilha. De longe já dava pra ver a Cachoeira no alto da Serra. A trilha sobe por uma mata tipo mata atlântica depois de passar por um pasto muito grande.

Não demora muito e a gente chega num primeiro lance da cachoeira. E em seguida, sem muito esforço estamos no poço da Cachoeira das Andorinhas, assim chamada pela grande quantidade dessas aves que vive lá, agarrada nas pedras. Os guias locais dizem que ela tem 75 metros de altura.

Conforme o tempo vai passando, o sol surge lá no topo e vai iluminando o poço onde a gente se banha. Ficamos um bom tempo por lá, curtindo. Voltamos para a cidade a tempo de tomar um banho, almoçar outra vez no restaurante da Esmeralda, passar na sede dos guias locais para assinar o livro de visitas da cidade e depois fazer a digestão na Fernão Dias num pique de volta de feriadão.

Carrancas

O município de Carrancas não está nos mapas. Tem 4 mil habitantes e fica no sul de Minas Gerais, na região de Lavras. Faz divisa com São João Del Rey e suas ricas igrejas barrocas. Está a 430 km de São Paulo e a 295 km de Belo Horizonte pela BR-381 (Fernão Dias) e a 370 km do Rio de Janeiro pela BR-040.

Por causa da altura - 1.052 metros na média - tem clima tropical de altitude e vegetação típica de área de transição entre o cerrado e a mata atlântica.

Na época de sua fundação, em 1720, a área foi toda cavocada pelos garimpeiros. Na seqüência, constatado o pobre potencial aurífero das terras, tudo foi queimado e virou pasto.

O município vive, hoje, da pecuária leiteira, alguma agricultura e da fabricação de laticínios em escala familiar. Há cerca de 2 anos começou a investir no turismo. Sua infra-estrutura ainda é modesta na área de serviços.

Suas atrações estão todas muito perto da cidade, em propriedades particulares e foram divididas em 7 complexos turísticos:

Complexo da Fumaça: inclui a Cachoeira da Fumaça, o Véu da Noiva, a Cachoeira da Serrinha, a Cachoeira do Luciano e a Cascata da Barragem;

Complexo Vargem Grande: inclui a Cachoeira da Vargem Grande e as Piscinas;

Complexo da Toca: o escorregador da Toca;

Complexo da Zilda: um dos mais legais, é formado pela Cascata da Zilda, a Cachoeira dos Índios, a Cachoeira dos Anjos, a Racha da Zilda e o Escorregador da Zilda;

Complexo Grão Mongol: Onde estão a Lagoa Azul. A Cachoeira do Açude e a Cachoeira do Bananal;

Complexo da Ponte: com as cachoeiras do Moinho e do Salomão;

Complexo da Serra das Bicas: Com as cachoeiras do Paredão, das Onças, das Bicas (ou das Andorinhas), a do Livre Arbítrio e a do Turco.

Carrancas ainda tem grutas com pinturas rupestres e outros passeios históricos como a visita à nave da igreja de Nossa Senhora da Imaculada Conceição, pintada por um discípulo de Aleijadinho, a Estação Ferroviária, a capela de Nossa Senhora da Conceição do Porto de Sacco, distante 32 km do centro, na divisa com São João Del Rey. Ali, nas margens do Rio Grande, foi achada uma imagem da santa e em 1802 erguida a capela. A região do Porto de Sacco (uma fazenda secular) era um importante centro comercial antes da chegada da Maria Fumaça no pedaço.

Dicas do autor

Paulo Priolli

As trilhas de Carrancas são muito fáceis e podem ser feitas por gente de qualquer idade. Por causa da distância, que equivale a uma viagem de umas 6 horas, Carrancas e um passeio ideal para feriadões de 3 a 4 dias;

Se você tiver tempo aproveite para visitar São João Del Rey e Tiradentes, na região;

Há cavalos e bicicletas para alugar e fazer alguns passeios como o da Estrada Real á noite, com direito a moda de viola e `causos` contados em volta da fogueira;

Procure a associação de guias para qualquer informação (Central de Guias Seriema, Pça Manoel Moreira, no largo da matriz. Fone (0xx35) 3327-1342 e contrate sempre um guia local;

Não esqueça nunca as dicas básicas: leve óculos escuros, chapéu, protetor solar, capa de chuva, sapato confortável (no caso é melhor até uma papete), tome bastante água, etc, etc.

  
  

Publicado por em

Docha

Docha

21/10/2009 13:53:10
Exelente! Gostei muito da materia, continuem, esse projeto é bom. Aqui na minha cidade temos tambem um projeto de eco turismo da escola onde trabalho em parceria com os alunos do ens. médio, começamos em setembro de 2009 não é tão bom como este mas vamos chegar lá. ecoturismojk.blogsport.com Doverlândia Go.
Alvercino Batista Osório (Geógrafo)