As histórias de Fanya...

Acordamos cedo, tínhamos dezenas de coisas pra fazer. Hoje era o último dia que Carla ficaria conosco. Na terça-feira ela já tinha de estar em sua cidade, no sul da Inglaterra, novamente. Só não contávamos com a chuva que começou a cair durante a tarde. U

  
  

Acordamos cedo, tínhamos dezenas de coisas pra fazer. Hoje era o último dia que Carla ficaria conosco. Na terça-feira ela já tinha de estar em sua cidade, no sul da Inglaterra, novamente. Só não contávamos com a chuva que começou a cair durante a tarde. Uma chuva torrencial que nos deixou, as quatro, pingando. Justo nesse dia, estávamos sem nossas jaquetas de nylon e sem guarda-chuva.

Helinho e Fanya, no The Other Cinema

Helinho e Fanya, no The Other Cinema

Fomos à internet, enviamos reportagens para duas revistas inglesas, checamos e-mails e atualizamos nossa página... Nos despedimos da Carla no meio do temporal. Ficamos realmente tristes, afinal nós estamos em três e ela iria voltar pra casa sozinha... Mas sabemos que ela ficará bem... Qualquer coisa é só “gritar”, onde estivermos estaremos bem mais perto do que sua família no Brasil.

A alegria de nossa nova amiga

A alegria de nossa nova amiga

Nos reunimos com mais um patrocinador em potencial. Ele nos informou que até quarta-feira teria uma resposta. Vamos torcer!

O mercado de Covent Garden

O mercado de Covent Garden

Seguimos então para o cinema onde o Helio trabalha. Tínhamos de buscar o material do Hotel Tropical das Cataratas que chegou do Brasil (obrigada pessoal!). Papo vai, papo vem, chegou uma personagem incrível no cinema... Uma senhora de 78 anos, chamada Fanya. Amiga de Helinho, ela ficou ali conversando com ele.

Ao olhar aquela senhora de roupas simples, com apenas alguns dentes na boca, é fácil imaginar quantas histórias interessantes ela tem para contar. Nossa viagem é feita dessas oportunidades. É bem possível que se estivéssemos com nossa rotina normal no Brasil, não disporíamos de tempo para aprender com ela durante algumas horas. Mas aqui temos sim esse tempo.

Patrícia ficou exatamente três horas e meia conversando com a nova amiga enquanto Cláudia e Fabiula foram assistir a um filme.

Bem... Fanya é egípcia da região de Alexandria, filha e neta de russos e está em Londres há pelo menos 40 anos. Veio graduada para continuar os estudos em lingüística. Patrícia perguntou quantas línguas ela fala. Fanya disse que não fala muitas, mas consegue ler várias e pediu: “Diga o idioma que eu te respondo se consigo ler ou não!” O russo falava em casa com os pais, o inglês aprendeu na escola inglesa no Egito, ela lê ainda em francês, italiano, espanhol, português, húngaro, polaco e é bem provável que também leia em aramaico e em grego, já que ela disse que o alfabeto russo é bem parecido com o grego. “Foram dois irmãos gregos que, indo para a Rússia, difundiram o alfabeto”.

Falaram sobre comunismo, sobre religião, sobre pintura e dança, sobre o sofrimento do povo da antiga URSS, antes e depois da revolução. Patrícia nunca havia pensado a respeito, mas Fanya disse a ela que Jesus Cristo era um comunista. Vivia na simplicidade, dividindo o que tinha com seus discípulos. Picasso também era comunista, comentou. “O nome dele aparece ainda hoje nos arquivos da CIA como perigoso.”
Fanya também é comunista, pelo que se percebe. Interessante conversar com alguém que pudesse dar uma outra versão do que é o comunismo. Depois de termos ouvido tanta gente falar mal do regime em países como Hungria e Polônia.

Fanya é artista plástica, já teve trabalhos expostos na Bienal de São Paulo, Veneza e no Cairo. Parece que hoje vive sozinha, preferimos não invadir muito sua vida. O que se sabe é que não teve filhos por opção. “É muita responsabilidade, vi muitas crianças sofrendo e prometi para mim mesma que filhos meus não sofreriam, por isso decidi não tê-los”.

As horas foram passando e a gente nem percebeu. Que experiência incrível ter passado aquelas horas com ela. Provavelmente nunca mais a encontrarei. Obrigada Fanya pelas horas de conversa...

  
  

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