As incríveis histórias do muro que dividia Berlim

Nossa programação para sábado era bastante intensa e o que conhecemos foi realmente incrível. Queríamos muito saber mais sobre o Muro. O destino então foi o Checkpoint Charlie, o mais conhecido ponto de acesso entre as duas partes da cidade durante a guer

  
  

Nossa programação para sábado era bastante intensa e o que conhecemos foi realmente incrível. Queríamos muito saber mais sobre o Muro. O destino então foi o Checkpoint Charlie, o mais conhecido ponto de acesso entre as duas partes da cidade durante a guerra fria. O local era de domínio americano. Bem no centro da Friedrichstrasse, existe uma réplica da guarita onde ficavam os soldados americanos, em frente vários sacos de areia fazem uma barricada. Logo ao lado, uma placa mantém as inscrições da época: “você está entrando no setor americano, deixe suas armas fora e obedeça as regras de circulação.”

Detalhe da barricada usada durante a Guerra Fria

Detalhe da barricada usada durante a Guerra Fria

Num imenso prédio que fica ao lado, funciona o Museu do Muro. São três andares de fotografias, recortes de jornais, obras de arte e relíquias da época e que mostram desde momentos anteriores à construção do muro até os tempos mais recentes, quando os berlinenses do oeste e do leste puderem se ver frente-a-frente sem barreiras.

Souvenirs vendidos em frente ao Checkpoint Charlie

Souvenirs vendidos em frente ao Checkpoint Charlie

Ficamos horas circulando pelas salas, lendo os cartazes, observando os objetos, vendo vídeos. O museu conta a trajetória de alemães que conseguiram transpor a barreira imposta pela guerra fria, seja cavando passagens subterrâneas ou fazendo fundos falsos em automóveis ou ainda atravessando o muro a bordo de um balão, como fizeram duas famílias.

Sala que representa os vagões em que os judeus eram transportados

Sala que representa os vagões em que os judeus eram transportados

A história ainda é muito viva aqui. Logo depois do fim da Segunda Guerra Mundial, os soviéticos dominaram a parte oriental da Alemanha. Berlim que ficava nesta região também foi dividida. A Berlim Ocidental, como nos disse Oldoni, funcionário da embaixada brasileira, era a prisão mais liberal de que se tem notícia, como ele gosta de classificar. A vida aqui era um paradoxo. Os que estavam no leste viviam cercados sem estarem presos, e quem morava no oeste, desfrutava de liberdade embora vivendo dentro de uma ilha de concreto e arame farpado para evitar que as população do leste tivesse acesso a esta parte do país. Eram duas formas de viver muito diferentes a poucos metros de distância. De uma hora para outra, os alemães orientais foram submetidos ao regime soviético. Sem entrar no mérito de qual era o melhor, se o comunista ou capitalista, não dá para negar que a separação foi traumática para todos.

Livro sagrado dos judeus

Livro sagrado dos judeus

Dezenas de pessoas morreram tentando cruzar o muro. Entre eles um rapaz de 18 anos baleado por policiais que faziam a vigilância e permaneceu sangrando até a morte junto ao emaranhado de arame farpado que existia no lado oriental da parede de concreto. A agonia do jovem foi registrada e as fotografias estão em exposição no museu. As regras eram muito rígidas. Os policiais que faziam guarda eram proibidos de ajudar, os que quebravam essa regra ou faziam vistas grossas aos fugitivos eram punidos.

Não é difícil se emocionar assistindo a um dos vídeos exibidos no museu. Ele mostra o sentimento das pessoas naquele final de 1989, quando o muro deixou de representar separação. Famílias que há muito não se viam puderam se reencontrar... Nossa expectativa quanto à visita ao museu era muito grande, saímos de lá tendo aprendido muito mais do que imaginávamos.

A poucas quadras, fica o Museu Judaico, nossa próxima parada. Na entrada, o sistema de segurança chamou nossa atenção. Todos passam por um detector de metais e depois por uma revista feita por um casal de funcionários. O lugar é ainda maior do que o museu que visitamos anteriormente.

Assim que chega, o visitante é orientado para começar a visita pela parte de baixo, a mais importante do museu. São vários corredores com uma pequena exposição de documentos protegidos por vidros. O visitante é levado até salas cheias de computadores, onde é possível conhecer a história dos judeus na Europa e algumas passagens da Segunda Guerra Mundial. O sistema é interativo e muito interessante.

Seguindo pelos corredores, chegamos na Torre do Holocausto. Uma sala de concreto com mais de 20 metros de altura, gelada, escura e completamente vazia. No alto existe apenas uma pequena abertura que permite a entrada de alguns raios de sol e ruídos exteriores. O lugar representa os vagões onde eram transportados os judeus até os campos de concentração. “Eles viam a luz e ouviam sons, mas não podiam sair de lá”, explicou uma funcionária do museu. A sensação que se tem é assustadora, nós não conseguimos ficar por muito tempo lá dentro.

Outro corredor nos leva até um jardim construído em homenagem aos mortos na guerra. A proposta do museu é bastante interessante e nada apelativa. Nos outros andares, estão em exposição documentos, roupas e objetos da rotina judaica, sempre dispostos de forma a convidar o visitante a interagir. Vários filmes são apresentados, um deles em 3D.

Tínhamos uma lista de quatro lugares pra conhecer. O sábado foi curto demais e tivemos de parar no segundo item mesmo, o restante ficou para o domingo. À noite nos dirigimos até um camping, a poucos quilômetros de onde estávamos. É importante vez ou outra plugar o motorhome à energia elétrica. Já era noite quando chegamos e fazia muito frio. Aproveitamos para colocar a roupa para lavar. Na hora da secagem, um problema de má compreensão do idioma alemão fez com que perdêssemos a ficha que ligaria a secadora de roupas, para comprar outra só na manhã seguinte, quando o camping reabrisse. Resultado:voltamos para o carro com uma trouxa de roupa molhada e improvisamos dentro mesmo os variais. Não havia lugar onde não houvesse uma roupa pendurada. O incidente valeu para que déssemos boas risadas antes de dormir.

  
  

Publicado por em