Ucrânia: ir ou não ir, eis a questão

Noite sossegada em um posto de combustíveis próximo à fronteira e manhã com muita neblina. Crescia a expectativa para entrarmos na tão questionada Ucrânia. Uma curiosidade: ao longo da estrada, dezenas de cruzes e coroas nos lembravam a todo momento o per

  
  

Noite sossegada em um posto de combustíveis próximo à fronteira e manhã com muita neblina. Crescia a expectativa para entrarmos na tão questionada Ucrânia. Uma curiosidade: ao longo da estrada, dezenas de cruzes e coroas nos lembravam a todo momento o perigo daquele trecho de pista simples, apesar de ser aparentemente seguro. Mas, a imprudência dos motoristas polacos, tanto nas ruas como nas rodovias, pode justificar a quantidade de acidentes.

O dia amanhece com neblina na viagem para a Ucrânia

O dia amanhece com neblina na viagem para a Ucrânia

A poucos metros da aduana, uma muvuca logo nos lembrou a distante Ponte da Amizade, que liga as cidades brasileira e paraguaia de Foz do Iguaçu e Ciudad del Este. Só quem já cruzou infinitas vezes essa fronteira pode ter uma idéia do que passamos nesta da Polônia com a Ucrânia. Não se sabia qual pista era a dos que iam, a do que vinham e a dos que esperavam a liberação das grandes e pequenas cargas, se é que podemos chamar assim alguns carros entulhados de maçã e de outros produtos. O vai e vem de carros e pessoas deixou um rastro de lama na pista. O primeiro obstáculo mesmo foi cruzar entre os carros sem raspar em nada. Apesar do estresse, nos divertimos com a situação que nos lembrou um pouco o nosso dia-a-dia de trabalho no Brasil.

Eurotrip espera na fronteira

Eurotrip espera na fronteira

Depois de esperarmos alguns minutos na fila, tivemos a entrada liberada no espaço de controle aduaneiro. A lentidão só não é maior na fronteira do Brasil com a Argentina – outro ponto que conhecemos bem. Isso que precisávamos apenas carimbar os passaportes e ter o carro vistoriado. Para entrar na Ucrânia, nosso visto teria que ser conferido e o carro ganhar mais alguns documentos para ter sua entrada permitida no país.

Já estamos a caminho de L’viv

Já estamos a caminho de L’viv

Alguns enroscos na entrada da Ucrânia. Passaportes e vistos de Cláudia e Patrícia conferidos, o de Fabiula com algum problema. O que será? O policial parecia não acreditar que a pessoa do passaporte fosse a mesma que estava ali na sua frente. Isso porque Fabiula e Claudia cortaram o cabelo no início da expedição, lembram??? Com um inglês improvisado, ele pediu um segundo documento. Nervosas, começamos a rir. Ele sério e também querendo rir, com um gesto nos pediu silêncio. A carteira de imprensa, com outra foto, também de cabelo comprido, foi a salvação. Fabiula teve o passaporte carimbado.

Fabiula escolhe os pães ucranianos

Fabiula escolhe os pães ucranianos

Depois do sufoco, outro aperto, já no portão de saída da aduana. O papel que nos entregaram na entrada só tinha um carimbo e ainda precisava de outro. Quem foi que esqueceu de carimbar? O policial nos pediu pra voltar. Antes, quase nos matou de susto. Para manobrar o carro, as orientações que ele dava pareciam palavras de ordem gritadas: Stooop, Stoooop! Ai, ai, ai... onde foi que nos metemos?

O automóvel não é o meio de transporte mais utilizado, pelo menos no campo

O automóvel não é o meio de transporte mais utilizado, pelo menos no campo

De volta ao setor de documentação, fomos levadas para uma sala. Enquanto esperávamos, vimos que dois homens deram dinheiro para o fiscal agilizar a liberação. Ali, os documentos do carro foram conferidos e outros preparados. Vistados, agora sim pareciam estar de acordo com as regras do país. Depois de duas horas e meia, fomos liberadas para seguir viagem sem nos exigirem nenhuma propina. Apesar da demora, está tudo correndo bem. Voltamos para a estrada. L’viv nos espera.

A paisagem mudou completamente. Agora culturas de subsistência ladeiam a estrada. Famílias inteiras, desde os mais novos até os mais velhos trabalham no cultivo de raízes, legumes e grãos quase sem nenhum maquinário. Os carros, caminhões e jipes que passam por nós parecem vindos da guerra. Nas ruas, o que mais se vê são pessoas uniformizadas. Algumas claramente na ativa, outras parecem ter adquirido com gosto a moda militar. Resquícios do tempo de Guerra Fria em que o militarismo estava incrustado nesta cultura.

No caminho, cruzamos por uma feira já na saída da pequena cidade de Jaroviv. Entre os produtos alguns calçados, brinquedos e pães caseiros, estes expostos em uma prateleira montada na carroceria de um antigo caminhão do Exército. Tudo muito diferente pra nós. Mas, adoramos. Compramos um pão doce e outro salgado, deliciosos.

Mais alguns quilômetros e já estávamos em outra cidade, maior que a última e com um movimento de pessoas e carros bastante grande. Onde estamos e como fazemos para chegar até L’viv? Sem entender quase nada das placas escritas em alfabeto russo, o jeito é parar e perguntar o caminho. Cláudia desceu e abordou dois senhores que mal entendiam o que ela falava, mas que se prontificaram a nos indicar o rumo certo. Tivemos que levar um deles junto no carro.

Passadas algumas ruas, ele disse que poderíamos parar e nos indicou um hotel. Adivinhem o nome do hotel... L’viv. Será que ele entendeu o que queríamos? Não perguntamos sobre o Hotel L’viv, mas sobre a cidade de L’viv. Fazer o quê? Seguimos um pouco mais por aquele trânsito maluco até pararmos em outro ponto da cidade. Cláudia novamente desceu para tentar descobrir onde é que estávamos. Ela voltou rindo que não se agüentava. Sabem que cidade era aquela? A própria L’viv, L’vuv, L’vov... sei lá. Cada um fala de um jeito e até hoje não sabemos qual é o certo.

Paramos, mas não achamos o lugar tranqüilo para deixar o carro. Seguimos mais um pouco e paramos em frente a uma igreja. Precisávamos nos informar sobre o que ver na cidade e onde seria melhor estacionar o motorhome, além de saber também para que lado ficava a saída para outra cidade na fronteira com a Polônia, afinal não iríamos ficar ali por muito tempo. Mas, não imaginávamos que a passagem pela Ucrânia seria tão breve.

Na igreja, um senhor que fazia a manutenção do prédio se prontificou a nos ajudar, mas sem falar inglês ficou difícil nos entendermos. Ele pediu então a ajuda de uma outra moça. Ela nos disse que o senhor morava próximo à saída da cidade e que ele poderia nos levar até lá. Mal tivemos tempo de dizer que não iríamos naquela hora. Ele largou o que estava fazendo e disse que iria junto. Tudo bem... qualquer coisa, depois voltamos.

Embarcamos e ele foi indicando o caminho e resmungando a cada pouco. Não se sabe se ele reclamava da gente, do trânsito ou dos pedestres que cruzavam a rua. Andamos de um lado ao outra da grande L’viv. Quando chegamos à saída e o senhor pediu para descer e disse que podíamos seguir reto por aquela estrada, a idéia de voltar para o centro da cidade deixou de existir. Não ia ter como. Muita calma nesta hora!!!! Paramos, almoçamos e seguimos para mais uma fronteira. Nos despedindo da Ucrânia um pouco frustradas pela passagem relâmpago, mas certas de que tínhamos escolhido o certo.

Mas antes, outra aduana nos aguardava. Logo na chegada fomos paradas por um policial que nos levou até umas pequenas casas de câmbio na beira da estrada. Ele disse que precisávamos pagar uma taxa. Não sabíamos se aquilo era certo ou se ele estava querendo se aproveitar da situação. Pagamos e entramos na aduana. Aparentemente a prática era legal. Ficamos aguardando na fila que nunca andava. Foi mais de uma hora e meia paradas ali sem que nenhum outro carro também fosse liberado. Finalmente a fila começou a andar. Tivemos os passaportes carimbados e o carro vistoriado. Tudo certo, apesar de um policial insistir em nos perguntar se transportávamos narcóticos. Ele nos perguntou isso três vezes. Que dureza!

Paramos novamente, agora na aduana da Polônia. A conferência foi rápida. Mas antes de sairmos no pátio, fomos parada outra vez. Já cansadas das duas horas que passamos ali, entregamos todos os documentos que tínhamos, nossos e do carro. Será que faltava mais alguma coisa? Acho que não, afinal falaram qualquer coisa e nos mandaram seguir. Essas fronteiras...

Conclusão: Tirando o problema da língua e do alfabeto russo, das estradas mal conservadas e da demora nas aduanas, não tivemos nenhum problema na Ucrânia. Nada com os guardas, com ladrões ou com a assustadora máfia russa. Tudo na santa paz. Mas também não deu tempo...

  
  

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