Visitamos Dachau, o primeiro campo de concentração nazista

Do sonho ao pesadelo, da arte para a mais crua realidade e crueldade já praticada pelo homem. Saímos da Rota Romântica para conhecer Dachau (lê-se Darrau), o primeiro campo de concentração nazista criado por Adolf Hitler, que fica na cidade de mesmo nome.

  
  

Do sonho ao pesadelo, da arte para a mais crua realidade e crueldade já praticada pelo homem. Saímos da Rota Romântica para conhecer Dachau (lê-se Darrau), o primeiro campo de concentração nazista criado por Adolf Hitler, que fica na cidade de mesmo nome.

Portão com a frase debochada na entrada do campo

Portão com a frase debochada na entrada do campo

Poucas semanas depois de Hitler tornar-se Chanceler do Reich, em 1933, o campo de concentração de Dachau foi preparado para receber presos políticos, pessoas que não concordavam com o regime de governo do ditador. O lugar foi inaugurado no dia 22 de março e serviu de modelo para todos os outros campos de concentração subseqüentes e também como “escola de violência” para os SS (soldados da tropa de assalto) que supervisionavam os campos.

Cercas eletrificadas em Dachau

Cercas eletrificadas em Dachau

Dachau era dividido em dois setores, um usado como campo de concentração e outro um centro de treinamento para os SS e prisão. Entre setembro de 38 e fevereiro de 39, os prisioneiros foram mandados para outros campos, assim todo o espaço foi usado no treinamento dos soldados nazistas e de comandantes dos futuros campos de concentração.

Crematório em funcionamento na década de 40

Crematório em funcionamento na década de 40

Em 12 anos de existência, de 1933 a 1945, mais de 200 mil pessoas de 34 nacionalidades foram aprisionadas em Dachau. Destes, 43 mil foram mortos. Nos seus cinco primeiros anos, com capacidade para 6 mil pessoas, o lugar era usado apenas para o confinamento de presos políticos, prisioneiros de guerra e pessoas contrárias ao regime.

Memorial lembra as vítimas do Holocausto

Memorial lembra as vítimas do Holocausto

Em 1937, os próprios presos começaram a fazer a ampliação do campo que no ano seguinte passou a receber judeus. Ciganos, homossexuais e religiosos também foram perseguidos e levados para lá. Em 1944, havia mais de 30 mil pessoas presas em Dachau. Sacerdotes dos países ocupados, principalmente polacos, eram mandados, em sua maioria, para o campo de Dachau, onde ocupavam os últimos cinco barracões, do número 26 ao 30.

Foto feita pelos soldados americanos no dia da liberação do campo

Foto feita pelos soldados americanos no dia da liberação do campo

No portão de entrada há uma inscrição em alemão que diz “Arbeit Macht Frei” (O Trabalho Liberta). A inscrição tinha duplo sentido: era usada como propaganda nazista, dando a entender que os campos de concentração eram usados para a reeducação dos presos; por outro lado, a frase era de deboche diante das pessoas que ali ficavam confinadas – afinal, a única maneira de se sair dali era através da fumaça da chaminé do crematório, como alardeavam os chefes dos campos. A mesma frase foi levada por Rudolf Hess ao campo de Auschwitz, na Polônia.

Ao transpor aquele portão, as pessoas perdiam seu nome, direitos civis e todos os pertences. No lugar, recebiam um número, um uniforme e um triângulo colorido (cuja cor estampava o motivo da prisão). A estratégia nazista era a de que aos poucos as pessoas perdessem sua própria identidade. Uniformizados, de cabelos raspados e feições alteradas por causa do trabalho pesado e da alimentação fraca, com o passar dos dias os prisioneiros não reconheciam mais uns aos outros.

De 1965 a 1968, o campo de Dachau foi transformado em um Memorial e o que hoje se vê é muito diferente do que foi um dia o campo de concentração. Mesmo assim, a intenção é recordar o sofrimento dos prisioneiros. Das duas fileiras de 17 barracões construídos para recolher as pessoas e usados como alojamento, existem apenas dois, também reconstruídos. Neles é possível ver exemplos de alojamentos de três períodos: 1933 a 1934, 1937 a 1938 e 1944 a 1945. Exposições fotográficas e documentos da época contam a trajetória dos prisioneiros e o cotidiano do campo ao longo dos 12 anos de sua existência.

O local onde funcionava o campo de treinamento dos soldados nazistas não é aberto à visitação porque atualmente funciona o quartel de polícia móvel da Bavária.

A segurança do campo era absoluta, tornando as fugas praticamente impossíveis. Cercas eletrificadas de quatro metros de altura circundavam o local, seguidas ainda de um muro de concreto com sete torres de vigilância, onde ficavam soldados armados com metralhadoras. Além disso, havia ronda do lado de fora. Em 1937, 1621 soldados trabalhavam na segurança, destes 116 cuidavam apenas da prisão preventiva. O museu não mostra registro de fugas.

Os prisioneiros eram selecionados para trabalhos forçados divididos em pesado, médio ou leve. Com alimentação de baixa caloria, quem caía no serviço pesado tinha uma expectativa de vida de apenas 52 dias nos campos. Todos os dias eram obrigados a fazer formaturas que levavam horas, para a contagem das pessoas, não importava o frio ou o calor. Durante essas revistas muitas pessoas que já estavam debilitadas não resistiam às horas em pé e acabavam morrendo.

Além de todo o sofrimento físico, os prisioneiros eram submetidos a pressões psicológicas. As regras e os castigos pra quem não as cumprisse eram anunciados logo na entrada do campo. Em Dachau existiam sete postes com quatro ganchos em cada um, onde as pessoas eram amarradas. Enquanto uns eram torturados os outros assistiam e aguardavam a vez de serem castigados. Muitos foram os suicídios na tentativa de acabar com o próprio sofrimento.

Em Dachau foram feitas as piores experiências médicas de todos os campos. O bloco da enfermaria era o mais temido pelos prisioneiros. Principalmente no período de guerra. Os presos foram usados como cobaia em diversos experimentos como quanto tempo resistiriam a uma queda em água gelada, quais eram os efeitos da água do mar no organismo, os efeitos do vírus da malária e até injeções de ar eram aplicadas nas pessoas. Todos os sintomas e efeitos eram registrados e estas informações usadas durante os combates de guerra.

A câmara de gás e o crematório ficavam numa das extremidades do campo, afastados dos alojamentos, separados por uma ponte e um portão. Para evitar que as pessoas se recusassem a chegar até lá, os soldados diziam que eles iriam para o banho. Na primeira sala, as pessoas tiravam as roupas que eram todas desinfectadas antes da entrada do próximo grupo, na segunda, onde estavam as saídas de gás venenoso (zyclon B), foram colocados vários chuveiros falsos, tudo para enganar os prisioneiros até o último momento. Esta câmara de gás tinha capacidade para 150 pessoas, que morriam em 20 minutos de inalação do gás. A terceira sala era usada como depósito de corpos antes de serem levados para o crematório logo ao lado.

Dachau tinha quatro fornos, em cada um deles podiam ser queimadas até 3 cadáveres ao mesmo tempo. É assustador ver de perto um local como este, imaginar o sofrimento dos milhares de inocentes que perderam a vida ali, sem nenhum motivo. Nada explica os horrores sofridos pelas pessoas durante o holocausto.

O campo foi liberado no dia 29 de abril de 1945 pelas tropas americanas. O horror causado pelos nazistas chegava ao fim, mas um outro tipo de problema se instalava na vida dos 60 mil sobreviventes que não tinham mais família, casa e muitas vezes um lugar para onde voltar. Como existia uma epidemia de tifo, devido à falta de higiene, e um alto grau de desnutrição, as pessoas tinham que ser tratadas ali mesmo antes de serem liberadas. Muitas pessoas foram repatriadas aos países de origem, outras sem ter para onde ir acabaram ficando no campo de concentração que a partir de 1948 virou um abrigo de refugiados e exilados.

Com o passar do tempo, o abrigo acabou se tornando uma outra prisão para aquelas pessoas que viviam dentro de um lugar cheio de terríveis lembranças e em 1965, com o total fracasso do refúgio, as pessoas foram transferidas para apartamentos em outros locais. As tropas americanas só abandonaram o campo de concentração de Dachau em 1972.

Apesar do campo ter sido modificado, vale a pena ser visitado. A todo o momento as pessoas são lembradas dos horrores nazistas na tentativa de se evitar que a história um dia se repita. O lugar é ponto de visitação de estudantes da região e é comum ver grupos acompanhados de professores que contam e mostram a história onde ela aconteceu.

  
  

Publicado por em

Natálie

Natálie

07/02/2011 20:41:14
Acabei de visitar o campo e o texto está muito fiel. Parabéns. E como diria um dos monumentos comemorativos: NUNCA MAIS. Amém!

Wanderley

Wanderley

19/05/2010 13:14:27
bom esse texto me ajudou muito
viajei
parecia que eu estava la
valeu pelo texto

Alan Cesar Camara Wykret

Alan Cesar Camara Wykret

24/09/2009 16:14:06
Ótima síntese do campo de Dachau. Emocionante e esclarecedor.

Marco Aurelio

Marco Aurelio

21/07/2009 15:45:04
Excelente texto, muito esclarecedor me fez viajar na historia, como se estivesse vivendo tudo aquilo.
Parabens

Anastacio Baltasar

Anastacio Baltasar

16/06/2009 20:17:06
Magnífica reportagem. Só estranhei um pouco o bom estado aparente dos prisioneiros na foto feita pelos americanos no dia da libertação.

Marcela

Marcela

16/06/2009 15:13:04
Nossa parabéns! Uma pesquisa muito legal, com todos os tipos de informaçoes ao conhecimento de alunos e curiosos...

Eu sou uma aluna e estava procurando sobre o campo de concentração, e achei todos os dados necessarios...

Obrigadaaaa...

Ana Maria Brandeburski

Ana Maria Brandeburski

03/05/2009 22:15:41
Parabéns pela bela e fidedigna reportagem que emociona quem lê. Em 2007 conheci Dachau e como já conhecia a história e em especial como viveu o prisioneiro Pe.José Kentenich, que no inferno de Dachau fundou a magnífica obra que é o Movimento Apostólico de Schoenstatt com devoção a Mãe e Rainha Tres Vezes Admirável de Schoesntatt e que naquele terrível clima de terror muito ajudou seus companheiros a superarem seus sofrimentos, pela fé , pela confiança ilimitada na "Mãe do Pão" , como ele intitulou Nossa Senhora em meio a tamanha fome e crueldade. Realmente causou-me grande emoção .

ANDREA

ANDREA

22/04/2009 22:32:13
PARABÉNS PELO TEXTO, CONHECENDO MELHOR O PASSADO TALVEZ, POSSAMOS REFLETIR MELHOR ANTES DE ELEGER NOSSOS GOVERNANTES, PARA NÃO CORRERMOS O RISCO DE SERMOS GOVERNADOS POR PSICOPATAS.

Carlos Tenório Dias de Oliveira

Carlos Tenório Dias de Oliveira

19/03/2009 16:44:59
Estive em Dachau em agosto de 1999, a matéria de vocês é tão real que me faz acreditar que mesmo que não conhece o local seria capaz de imaginá-lo. E como conheço, apesar de quase dez anos, revivi toda a emoção que senti durante a visita.
Parabéns pela reportagem.

Equipe EcoViagem

Equipe EcoViagem

Olá Carlos, O Portal EcoViagem trabalha para levar à todos as melhores matérias. E são internautas como você que nos impulsiona a trabalhar e melhorar cada vez mais! Agradecemos o comentário. Portal EcoViagem
Ariane Cristina de Campos mariano

Ariane Cristina de Campos mariano

03/02/2009 13:52:19
Goataria de parabenizar a equipe que efetuou este documentário!!!!!!!!!!!!!!!!
O principal ponto positivo para mim são os argumentos que o autor do texto e documentário expoe de maneira clara e evidente ! Sem que ouvese nenhum tipo de maquiagem em relação aos fatos reais ocorridos !
Minha súpli ca é que o homem não encontre suas capacidades destrutivas novamente!!!
Que Deus ajude e liberte quem sobrevivel para contar a história!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

Paulo Santana

Paulo Santana

22/01/2009 21:58:23
Estive nesse campo em fins de 1992, fiquei muito triste ao ver de q o ser humano é capaz, mas mesmo assim quis tirar fotos e ver tudo q era possivel, pois alem de servir de experiencia,deve servir de alerta para nós seres humanos, para que tomemos cuidado com nossas atitude.Em resumo devemos chegar bem mais pertos de Deus.

Nela

Nela

20/01/2009 14:56:44
como é possivel o ser humano ser tao cruel? nao tenho palavras...

Roberto enio alves da silva filho

Roberto enio alves da silva filho

12/12/2008 18:36:59
quanta maldade naquela epoca pessoas sendo sacrificadas sem motivos nenhum pura crueldade mas ainda bem que tudo passou so ficaram as lembraças em nossas mentes.

Miguel Hlebczuk Junior

Miguel Hlebczuk Junior

10/12/2008 20:41:21
Olá... primeiramente quero parabenizá-lo pelo texto.. e tb quero dizer que tenho parte dessa história "viva" na família, me avô veio de navio para o Brasil ainda criança.
Abraço

Monalisa

Monalisa

16/11/2008 20:23:17
o texto foi muito importante pra um trabalho escolar
é importante recordar q temos ainda muito sofrimento espalhado pelo mundo e que não devemos esquece do q o ser humano foi capaz
temos que nos unir e impedir q isso se repita

Michele

Michele

29/09/2008 20:22:27
eu axo q isso foi uma enorme crueldadde

Tati

Tati

17/09/2008 22:56:43
Olá adorei o texto...
estou no 9 ano e este texto me ajudou fazer um trabalho de historia!
valeeeeu!
beeeijO

Eunice

Eunice

16/09/2008 20:50:39
muito triste mesmo depois de tantos anos a maior vergonha da humanidade

Anna Carolina

Anna Carolina

14/09/2008 16:21:39
AMEI!
Nada melhor como repassar experiências!
Estou no 9ano e estudando a 2Guerra Mundial, esse testo me ajudou muito!