A dupla se desfaz e o desafio continua...

No dia 8 de outubro fui para a rodoviária de Porto Alegre para pegar o Robson, o nosso massagista que a Celina tinha contratado em São Paulo para acompanhar-nos de Rio Grande a Buenos Aires. Embora fosse desejável ter um massagista por toda a viagem sabia

  
  

No dia 8 de outubro fui para a rodoviária de Porto Alegre para pegar o Robson, o nosso massagista que a Celina tinha contratado em São Paulo para acompanhar-nos de Rio Grande a Buenos Aires. Embora fosse desejável ter um massagista por toda a viagem sabia que a parte da corrida seria a mais difícil e a que corríamos o maior risco de lesões.

Manoel, agora literalmente com os pés na estrada!

Manoel, agora literalmente com os pés na estrada!
Foto: Robson Sérgio

Da rodoviária seguimos de carro até Rio Grande, uma viagem tranqüila de 4 horas quando viemos conversando e nos conhecendo. A boa impressão inicial só se confirmou nos próximos dias. Robson trabalha há 10 anos como massagista em na clínica Oriental de Massagem, no Shopping Ibirapuera e atualmente está fazendo um curso de acupuntura na escola de mesmo nome. Ele já trabalhou com esporte e tive certeza que a escolha da Celina tinha sido muito apropriada.

No dia seguinte gravamos uma entrevista com a Rede Globo local e a tarde já éramos famosos pela cidade. Passávamos com o carro e as pessoas apontavam e comentavam: são eles... A noite nos vimos na televisão enquanto jantávamos.

E então o grande dia chegou, o dia de começar a etapa mais difícil da travessia, correr 814 km de Rio Grande a Buenos Aires. Passei uma noite agitada, acordando várias vezes. A preocupação era grande, pois já estava sem correr há mais de 30 dias e nos últimos dias não tinha feito exercício algum com as pernas.
O dia estava nublado e bem fresco, ideal para correr. Saímos do local onde tínhamos chegado de caiaque, o Yatch Club de Rio Grande.

Temos sido muito rígidos com o critério de cumprir a característica da travessia de fazer toda a distância de São Paulo a Viña Del Mar com nosso próprio esforço. A única exceção planejada é a travessia do Rio da Prata do Uruguai a Buenos Aires que usaremos a balsa.

Os primeiros 21 km foram tranqüilos, mas já no reinício começamos a sentir nossas pernas e acabamos o dia com muita dor nas coxas. Mas após uma massagem prolongada já me sentia muito melhor e otimista.
Durante o dia fizemos 4 etapas de 10 km e massagens entre uma etapa e outra. No começo me sentia um pouco encabulado de parar no acostamento e receber a massagem, pois as pessoas passavam e não entendiam nada. Depois relaxei mesmo após um senhor vir oferecer ajuda, pois achava que o Kubi tinha enfartado e que o Robson estava fazendo uma massagem cardíaca.

O dia seguinte reservava grandes novidades de algo que já há muitos dias vinha acontecendo. Desde a Lagoa que eu e o Kubi vínhamos de desentendendo e por grande parte do tempo nesses dias de remo passamos quietos sem conversar muito.
Apesar de termos passado 40 dias no Nepal e termos tido um excelente relacionamento, desta vez podia sentir um clima muito pesado entre nós e por duas vezes nos desentendemos de forma séria nos dias de remo. Neste dia pela manhã tivemos outro desentendimento e durante o dia todo enquanto corria vim pensando nesta situação e o que podíamos fazer.

A garoa caia intermitentemente e o dia estava bom para correr, mas o dolorimento do dia anterior se transformou em uma dor persistente que me acompanhou por todo o dia. Precisava usar toda a minha disposição de continuar a correr para não desanimar. A vontade de parar era imensa mas continuei até completar a maratona do dia. Nossos tênis Asics são os melhores que existem no mercado e estava com o treinamento adequado para este tipo de desafio, mas estávamos pagando o preço por ter começado a correr depois de tantos dias de imobilidade com as pernas.

A noite conversei com o Kubi e resolvemos que era melhor nos separarmos e ele decidiu voltar para São Paulo. Um desafio como este exige harmonia absoluta entre os participantes, pois a exigência física é imensa e toda a energia mental tem que ser canalizada para ajudar o corpo a cumprir sua tarefa. Se existe atrito entre os membros da equipe tudo fica infinitamente mais difícil.
No dia seguinte o Kubi pegou um ônibus e voltou para Rio Grande e de lá foi para São Paulo. Com muita tristeza no coração vi o Kubi partir, mas também sei que esta é a melhor decisão para nós.

Nesta noite dormimos na sede da reserva ecológica do Taim, uma linda região de banhados que abriga uma gama enorme de fauna e flora. No terceiro dia corri entre capivaras, ratões do banhado, preás, inúmeros pássaros e até algumas cobras e um jacaré que descansava preguiçosamente na margem sem dar bola para nós. Este foi um dos dias mais bonitos da travessia.

Esta região está recebendo muito mais chuva do que é normal mesmo para esta época do ano onde habitualmente chove muito. Com isso a Lagoa Mirim está na margem da estrada e do outro lado o banhado está coberto de água e por isso os animais estão muito mais visíveis do que o normal.

O terceiro dia de corrida repetiu o padrão do anterior, um pouco de dor nas pernas nos primeiros 21 km e muita dor nos últimos mas com a ajuda do Robson segui até o fim da jornada embora tivesse grande dificuldade para andar a noite.
Nesta noite voltamos a dormir na sede da reserva do Taim onde os agentes do Ibama nos receberam de forma extremamente carinhosa. Aliás, este tem sido o padrão desde que saímos de São Paulo, por onde passamos só ouvimos incentivos e todos nos tratam de forma muito gentil. As vezes estou correndo e cada passo é difícil mas daí passa um carro e com um comprimento de mão nos estimula a seguir. Com isso a dor vai embora e o próximo quilômetro é mais fácil.
Hoje uma dupla de motoqueiros de São Paulo parou para conversar conosco. Eles estavam voltando de Punta Del Leste no Uruguai e já tinham nos visto correndo próximo a Rio Grande. Daí um deles se lembrou de uma entrevista nossa que ele tinha assistido na TV A, em um programa de esportes. Ele me recebeu com um abraço e as palavras de meu herói. Fiquei emocionado e isso me deu mais combustível psicológico para continuar o caminho.

Hoje o tempo mudou e depois de muitos dias nublados o sol saiu e a temperatura subiu e chegou a fazer mais de 30 graus. Eu tenho muito pouca tolerância para o calor e costumo dizer que prefiro 30 graus negativos do que positivos principalmente para a prática de esportes e hoje sofri muito com o calor.
Nossa rotina tem sido assim: corro por 2 km até onde o Robson está me esperando, tomo água e segui por mais dois km. A cada 10 km paro para uma massagem rápida e assim transcorre o dia.
Faltam então 17 dias de corrida e na minha cabeça agora que se passaram esses 3 dias e que sei o esforço que tem sida cada dia me parece que cumprir esta etapa será algo muito mais difícil do que imaginava. Mas assim também foi com a bicicleta e com o remo...

  
  

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