A emocionante chegada em Rio Grande!

Após o abastecimento de provisões voltamos a ficar com o caiaque absolutamente cheio e bastante pesado, mas agora já estamos mais experientes e remando mais eficientemente e com isso fazendo dias mais longos. Apesar de não fazer planos para isso já podíam

  
  

Após o abastecimento de provisões voltamos a ficar com o caiaque absolutamente cheio e bastante pesado, mas agora já estamos mais experientes e remando mais eficientemente e com isso fazendo dias mais longos. Apesar de não fazer planos para isso já podíamos ver que acabaríamos a Lagoa em muito menos tempo do que o previsto.

Por todo o trajeto estávamos rodeados de paisagens desérticas...

Por todo o trajeto estávamos rodeados de paisagens desérticas...
Foto: Manoel Morgado

Cada dia apresentou uma característica diferente por causa dos ventos que continuavam se apresentando de diferentes direções e intensidades. Mas os dias de céu azul não voltaram mais. Acordávamos com aquele céu cinza e com uma garoa fina que dá vontade de ficar na cama. Tínhamos de buscar toda a energia dentro de nós para sair da proteção da barraca e encarar o frio das 6 da manhã.
Durante toda a travessia procuramos começar bem cedo e remar a maior parte do percurso de manhã, pois os ventos, de um modo geral, eram mais tranqüilos neste horário.

...Mas com muita natureza por perto!

...Mas com muita natureza por perto!
Foto: Manoel Morgado

Apesar do mau tempo a Lagoa continuava bonita e com uma característica que é muito raramente encontrada no mundo de hoje, ela é, nesta margem, absolutamente deserta. Chegávamos no local de acampamento às 14 horas e tínhamos a praia inteiramente para nós e o único barulho era o das ondas e dos pássaros.

...E quem disse que também não gostamos de sombra e água fresca!

...E quem disse que também não gostamos de sombra e água fresca!
Foto: Manoel Morgado

Uma das coisas mais marcantes desta parte da travessia para mim foi à introspecção que o local e a atividade me causaram. Como eu sentava na frente no caiaque e a comunicação é um pouco difícil por causa do vento constante e pelo desequilíbrio que olhar para trás causa, ficávamos horas em silêncio. Mas não era somente pela dificuldade de conversar.
A própria atividade, remar repetidamente milhares de vezes em um movimento meio circular como é a remada do caiaque me levou a um estado meio meditativo onde por longos períodos de tempo eu estava a milhares de quilômetros dali. Tive muito tempo para analisar minhas motivações de estar fazendo esta travessia e também de pensar em outras coisas que quero fazer.

Chegando em terra firme após um daqueles difíceis dias com muito vento e fortes ondas!

Chegando em terra firme após um daqueles difíceis dias com muito vento e fortes ondas!
Foto: Manoel Morgado

O último dia nos trouxe mais uma surpresa, um momento de tensão e stress. Saímos as 7:30 já sabendo que seria o último dia, mas também sabendo que para que isso acontecesse teríamos um longo dia à frente.
No dia anterior tínhamos tido uma brisa norte que nos permitiu fazer quase 50 km. Teríamos de fazer outros 50 km para chegar em Rio Grande.
Mais uma vez amanheceu nublado só que desta vez com uma visibilidade de não mais do que 3 km. A primeira parte do dia era uma travessia de uns 10 km para evitar uma enorme baía. Mas, ao contrário das outras travessias, desta vez não enxergávamos o outro lado. Saímos com o GPS na mão e nos orientando por ele torcendo para que a visibilidade melhorasse.

E este foi nosso mais lindo por de sol na lagoa...

E este foi nosso mais lindo por de sol na lagoa...
Foto: Manoel Morgado

Ao contrário de barcos mais estáveis onde é muito mais fácil usar um GPS, para nós fazermos uma leitura e ver nossa direção significava eu parar de remar. Com isso o caiaque fica muito instável. Ele é seguro enquanto os dois estão remando, mas começa a balançar muito quando fica a deriva. A outra coisa é que ele muda de direção muito facilmente com as ondas então é muito difícil fazer a leitura e manter o rumo para a leitura resultar correta.

Para dificultar mais as coisas as ondas começaram a crescer e sabíamos da outra vez que viramos que a água é bastante fria quando se está com o corpo todo dentro d’água. Ou seja, a perspectiva de virar o caiaque naquelas condições, sem visibilidade, a alguns quilômetros de qualquer margem não era nada atraente.
Encontramos uma estrutura metálica na nossa rota, um antigo farol destruído e resolvemos nos segurar nele para reavaliar nossa situação. Mas isso também era bastante difícil, pois com as ondas tínhamos de fazer muita força para ficar lá sem bater o barco contra as pilastras.

As opções não eram muito boas. Ou ficávamos e esperávamos a melhora da visibilidade de uma maneira muito instável e cansativa ou encarávamos o tempo ruim e arriscávamos chegar do outro lado. Resolvemos nos situar de maneira mais acertada possível e seguir.
Ao invés de usar o GPS durante o restante do tempo nos orientávamos em relação as ondas e seguíamos remando. Após uma tensa meia hora finalmente avistamos a outra margem e então seguimos sem maiores problemas.
Às 14 horas começamos a avistar as enormes estruturas do porto de Rio Grande. Que choque ver uma cidade após tanto tempo só com a natureza ao nosso redor!

Com uma certa tristeza no coração dei as últimas remadas em direção ao Yatch Club de Rio Grande.
Mas a tristeza logo acabou com a deliciosa recepção que tivemos na chegada.
Todos queriam saber o que tínhamos feito e se espantavam com nossa travessia. Vários deles já tinham feito a Lagoa em veleiros e sabiam das dificuldades, dos ventos e ondas fortes, da semelhança com um mar aberto.
Foi nos oferecida gratuitamente acomodação e lá fomos para o primeiro e merecido banho quente após tantos dias de frio.
...E, a noite a sonhada churrascaria com uma boa jarra de vinho da colônia...

Fazendo um balanço geral tudo correu de forma maravilhosa, com grandes dificuldades, lógico, mas não teria graça se não fosse assim. Sentimos muita falta de nossos bonés e principalmente nossos óculos Okley que perdemos quando viramos o caiaque.

De resto estamos super satisfeitos com a cabrita, o nome que demos para o nosso caiaque Opium, e com os remos Ygará. Eles provaram que são feitos para encarar condições bastante severas de mar.

Esta parte da travessia, com certeza, ficará entre as mais intensas desses árduos três meses. A solidão, a beleza do lugar, os desafios e conquistas, os aprendizados, tudo isso fez desses 10 dias algo realmente especial. Fica a certeza de que vou repetir esta experiência em algum outro lugar deste lindo planeta. Quem sabe o Alaska?!

E agora? Bom, agora temos uma pequena corridinha de 814 km até Buenos Aires...

  
  

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