A escalada ao Aconcagua e o término da Travessia

Três dias depois de chegar em São Paulo e de descansar um pouco dos três meses de atividades posso contar para vocês como foram os últimos dias da travessia. Depois de alguns dias de parada forçada por causa da enorme e não habitual quantidade de neve que

  
  

Três dias depois de chegar em São Paulo e de descansar um pouco dos três meses de atividades posso contar para vocês como foram os últimos dias da travessia.
Depois de alguns dias de parada forçada por causa da enorme e não habitual quantidade de neve que bloqueava a subida das mulas de carga ao campo base, dia 29 de novembro partimos para o Aconcagua. Digo partimos, pois estava acompanhado de mais seis amigos que resolveram me acompanhar nesta jornada, a Silvia e o Nando que iam fazer o trekking até o campo base e o Fernando Cruz, meu companheiro inicial de travessia, o Neco, o Pedro e o Jorge que fariam a escalada.
Logo no segundo dia tivemos uma amostra da instabilidade do tempo no Aconcagua. Depois de um dia de bom tempo subitamente o céu ficou escuro e os primeiros flocos de neve começaram a cair. Nevou a noite toda e de manhã tinha sete cm de neve acumulada no chão e em nossas barracas. Mas o céu novamente estava azul e a paisagem absolutamente linda. Fizemos a Playa Ancha, um enorme vale normalmente árido e pedregoso que liga o primeiro acampamento de aproximação ao acampamento base sob um visual magnífico e completamente diferente do que em fevereiro.
Após três dias aclimatando no campo base (4300 mts), estabelecemos o campo um a 5000 metros. Mais uma vez o clima nos favoreceu, pois o período de mau tempo veio enquanto nos aclimatávamos no campo base.
O Aconcagua tem um ciclo de períodos de mau tempo alternados por “janelas” curtas de bom tempo.
A partir do campo base estabelecemos um ritmo regular de subida e descanso. Chegamos no campo base, descansamos um dia aclimatando, daí levamos 20 kg de material, comida e combustível ao próximo campo, mas votamos a dormir no campo base e no dia seguinte mais um carregamento montanha acima e daí ficamos no campo um. Este mesmo esquema aconteceu no campo dois e aconteceria no campo três não fosse o clima ter feito com que mudássemos de idéia.
Depois do obrigatório período de mau tempo chegamos no campo dois (5500 mts) com céu azul e uma calmaria pouco comum nesta montanha onde ventos de mais de 100 por hora são quase a regra acima de 5.000 metros. No dia seguinte à chegada, o tempo continuava excelente e aproveitamos para levar comida e combustível para o campo três. Esses “transportes” tem uma outra função que é de ajudar na aclimatação.
Na manhã seguinte, o plano original era de transferir nosso acampamento para o campo três, a 6.000 metros e aclimatar lá por uma noite para então tentar o cume. Mas se o tempo continuasse bom decidimos que não iríamos arriscar e que tentaríamos o cume do campo dois. Isso era um pouco arriscado, pois não poderíamos contar com a aclimatação extra da noite a 6.000 metros e também teríamos um dia muito duro com 1500 metros de desnível vertical e isso acima de 5.500 metros!
A noite foi extremamente calma e quente para esta altitude. Quando saímos da barraca, as cinco da manhã, o termômetro marcava apenas 11 graus negativos. Começamos a subida com nossas lanternas de cabeça em uma lenta fila pela estreita trilha coberta de neve.
O progresso de todos foi bastante bom até o campo três com exceção do Fernando que não tinha dormido bem e se queixava de dor de cabeça e náuseas. No caminho ao campo três vomitou duas vezes e ao chegar lá todos sabíamos que a escalada dele tinha terminado. Eram sinais de mal de altitude e a única solução era descer. Com muita tristeza vimos o nosso companheiro sempre animado e alegre virar as costas e voltar ao acampamento dois.
O nascer do sol foi uma linda recompensa para nossos esforços tingindo o horizonte de um degrade de rosas, vermelhos e lilases. Renovados pela luz e pelo sol seguimos a subida com o termômetro marcando 16 graus negativos.
As 10 da manhã, após cinco exaustivas horas tínhamos chegado em um abrigo abandonado a 6500 metros. Nos encostamos nele e lá ficamos por meia hora tentando recuperar o fôlego e descansar. Comemos um pouco, tomamos chá de nossas garrafas térmicas e prosseguimos. Estávamos a menos de 500 metros verticais do cume, mas as dificuldades estavam apenas começando.
A partir daí o gradiente de subida se tornou muito mais inclinado e a trilha escorregadia de modo que cada passo significava um esforço descomunal. Após mais 3 horas chegamos na famosa canaleta, uma rampa bastante inclinada que leva diretamente ao cume, 200 metros acima. Eram 2 da tarde e já estávamos subindo há 9 horas. Tínhamos estabelecido uma hora para, em qualquer situação, estivéssemos onde estivéssemos, voltar. Isso é importantíssimo, pois acontece com freqüência de estar próximo ao cume e resolver prosseguir mesmo que as luzes vermelhas de alerta estejam piscando e tudo lhe diga que é hora de voltar. Tínhamos combinado de às 5 da tarde voltar de onde estivéssemos.
Apesar da distância do começo da canaleta ao topo ser muito pequena, podíamos até ver pessoas sentadas no cume, esta última parte leva no mínimo 2 horas e meia. Estávamos então no limite de nosso tempo. Depois de muito pensar, o Jorge e o Pedro resolveram não prosseguir. Estavam muito cansados e de qualquer jeito se sentiam felizes pelo que tinham alcançado. Tinham superado suas marcas anteriores de altitude em muito. O Pedro tinha ido ao Kilimanjaro anteriormente (5895 metros) e o Jorge tinha como marca apenas 4300 metros. Ambos estavam agora a 6700 metros de altitude!!
Segui então com o Neco, que já tinha feito o Island Peak (6200 metros) anteriormente comigo no Nepal. Olhando retrospectivamente me pergunto de onde tirei determinação para continuar. Cada pedaço do meu corpo exigia, comandava para que eu parasse, virasse as costas e voltasse. Cada passo custava um esforço enorme, mas mesmo assim eu continuava. Três passos, descanso de quase um minuto, mais três passos, mais uma parada. Cada recomeço desencadeava uma batalha entre a mente que queria seguir e o corpo que se recusava a obedecer. Mas aos poucos os metros foram vencidos e as 4:15 da tarde do dia 12 de dezembro de 2002 a travessia estava concluída. Eu estava no cume do ponto mais alto do mundo fora da Ásia, o Aconcagua a 6962 metros!
Não posso dizer que estava feliz de estar lá, estava muito exausto para sentir qualquer coisa. A felicidade só veio depois, no dia seguinte.
Meia hora antes de chegarmos ao cume nossa sorte com o tempo desapareceu. É como se tivéssemos feito um acordo com os deuses de nos dar tempo bom até as 4 da tarde daquele dia para que fizéssemos o cume. Chegamos lá em cima com o céu completamente encoberto e com nuvens negras chegando rapidamente do horizonte. Tiramos as fotos habituais do cume, nos abraçamos, comemos dois power gel e viramos as costas para iniciar a longa descida de volta a segurança de nossa barraquinha 1500 metros abaixo.
O começo da descida foi muito nervoso com nossas pernas bambas de cansaço e o terreno irregular de gelo e pedras onde nossos crampons escorregavam. Passada a canaleta, encontramos nossa descida cada vez mais coberta de neve fofa que agora caia em grande quantidade. Após três intermináveis horas retornamos ao campo três, mas daí a luz já começava a diminuir e a neve tinha bloqueado completamente nossa trilha de subida. Só achamos a direção de volta ao campo dois porque eu já tinha feito algumas vezes este caminho, em fevereiro e agora. Um pouco depois das 8 da noite, após 15 horas de esforço físico extremo chegávamos de volta ao aconchego das barracas e do chá quente que o Fernando nos serviu. Estávamos completamente cobertos de neve, gelados e exaustos, mas tínhamos feito o que nos propusemos a fazer.
Na manhã seguinte depois de acordar continuei de olhos fechados repassando o que tinha acontecido no dia anterior. Ai sim o sorriso veio ao meu rosto.

Manoel e Neco chegam ao campo 2 de volta do cume

Manoel e Neco chegam ao campo 2 de volta do cume
Foto: Fernando Cruz

Em poucos dias parto para a Ásia onde vou guiar um grupo de Yoga e um de Budismo na Índia e depois disso um grupo de trekking no meu amado Nepal. Volto a minha rotina (rotina???) de trabalho como guia na Ásia, minha profissão nos últimos 10 anos. Estou realizado em relação a travessia. Sonhei com algo ambicioso, algo que achei que não conseguiria fazer. Planejei justamente algo que achava que estava além das minhas capacidades físicas e mentais. Treinei e me preparei exaustivamente para isso. Dediquei um ano da minha vida a este sonho, a este desafio. Cumpri o que tinha me proposto e isso me dá uma satisfação que mal consigo expressar. Aprendi muito neste processo. Mais uma vez confirmei que nossos limites são superáveis e que por mais difíceis ou aparentemente inatingíveis que sejam os sonhos eles podem ser alcançados. Basta determinação, dedicação e coragem. Mas mais que tudo é preciso sonhar e ousar.

Agradeço a todos aqueles que me acompanharam nesta jornada. Agradeço a todas as palavras de incentivo que recebi de amigos e de desconhecidos. Agradeço os inúmeros carinhosos e-mails que recebi através deste site. Agradeço imensamente a todos que acreditaram neste projeto e me apoiaram financeiramente, com material e equipamento e com seu trabalho profissional.
Agradeço ao meu patrocinador Fleury Centro de Medicina Diagnóstica através do Dr. Ewaldo Russo e de seu departamento de marketing. Agradeço a Asics que me forneceu o melhor material esportivo que existe no mercado, ao Power Bar que me forneceu suplementos alimentares de última geração que me permitiram manter horas a fio de atividade física exaustiva, ao restaurante Qualifruit que me alimentou de forma saudável e deliciosa nos meses de treino, à academia Olímpia que me acolheu para os meus treinos de musculação e deep running e a Ecoviagem que desenvolveu este maravilhoso site.
Agradeço aos profissionais que pelo me acompanharam durante este ano e que sem os quais eu não teria completado a travessia ou sequer tentado, ao Dr. Sergio Tebexerene, cardiologista e médico do esporte; ao Dr. Antonio Masseo, ortopedista; ao Dr Liau Chao, acupunturista; à Dra Tânia Rodrigues e Dra Andréa Zaccaro da Rg Nutri, minhas nutricionistas; ao Prof Marcos Rojo, meu professor de Yoga; ao Prof Bezerra, meu instrutor de caiaque; à Prof. Roberta Rosas, instrutora de deep running e a equipe do Marcos Paulo Reis que com tanta dedicação e carinho direcionou e acompanhou meus treinos de forma profissional e entusiasmada. Também agradeço ao CEMAFE onde realizei vários dos testes de condicionamento físico.
Por fim, agradeço a minha esposa Celina pelo entusiasmo com que recebeu mais esta minha loucura e pela abnegação com que suportou este ano tão difícil, mas que ela sabia, seria tão gratificante para mim e que por isso também o foi para ela.

Em breve colocarei no ar mais fotos da escalada..

  
  

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