Coisas boas e coisas ruins

Como freqüentemente acontece na vida coisas boas vem acompanhadas de outras não tão boas. Desta vez não foi diferente. Quando saímos de Buenos Aires tínhamos a expectativa de fazer os 1060 km até Mendoza em 7 dias e mesmo isso era um objetivo ambicioso, p

  
  

Como freqüentemente acontece na vida coisas boas vem acompanhadas de outras não tão boas. Desta vez não foi diferente.
Quando saímos de Buenos Aires tínhamos a expectativa de fazer os 1060 km até Mendoza em 7 dias e mesmo isso era um objetivo ambicioso, pois significava fazer 150 km por dia atravessando uma região que, apesar de ser plana, tem ventos fortes normalmente na direção sul, ou seja, ventos de lado, bastante desconfortáveis para pedalar. Também tinha o aspecto psicológico de atravessar uma região sem atrativos com uma paisagem monótona onde pedalar deixa de ser um prazer e se torna um árduo trabalho.
Logo que sai de Buenos Aires notei que estava mais forte e com melhor preparo do que anteriormente. Durante o percurso de São Paulo a Porto Alegre fiz 140 km por dia e ai tinha a companhia do Kubi e do Assis e também podia revezar os períodos que ficava na frente, onde o desgaste é maior.
Agora, no primeiro dia de pedal, fiz 170 km e segui melhorando a cada dia chegando a fazer 205 km em um dia, distância que nunca tinha feito antes! Com isso em 6 dias fiz o trajeto com uma média de 177 km por dia! Nesses dias tive de tudo, desde 36 graus de temperatura com 15% de umidade onde constantemente me sentia seco por mais que bebesse, até dias com vento constante onde me senti desconfortavelmente com frio o dia todo. Os ventos variavam de intensidade, mas estiveram presentes todos os dias, algumas vezes ajudando e me permitindo pedalar a 42 km/hora e outras onde apesar de todo o esforço não conseguia fazer mais de 22 km/hora.
Em um dos dias peguei 40 km de estrada em reconstrução que não estava de forma alguma em condições de serem feitos em uma bicicleta como a minha, de estrada, e não mountain bike. Para não quebrar a proposta de fazer por meios próprios de São Paulo a Viña Del Mar resolvi continuar pedalando sabendo que poderia ter problemas com a bike. E não deu outra, quebrou o meu clip, aquele suporte preso no guidon que ajuda na aerodinâmica e também oferece uma posição alternativa para pedalar. Como isso aconteceu no terceiro dia tive outros longos três dias sem o clip e sofrendo bastante com dores nas mãos que adormeciam após algum tempo. Mas considerando a distância que percorri, 2800 km de bicicleta não posso reclamar, pois esse foi o único problema mecânico que tive. Nem ao menos um pneu furado tive nesses muitos quilômetros! Por uma vez achei que estava furado, mas estava apenas um pouco murcho e mais nada. Estou tão acostumado a um pneu furado a cada 100 ou 200 km como acontecia nos treinos em São Paulo que não podia acreditar que não tinha nada.
Com muita emoção e felicidade vi as primeiras montanhas dos Andes apareceram no horizonte. Foi nos Andes que eu, pela primeira vez, fiz caminhadas, que vi neve e que descobri a magia das montanhas.
Mas chegando em Mendoza tive uma noticia não muito boa. O El Niño está novamente aprontando com o tempo e a temporada do Aconcagua que normalmente começa dia 15 de novembro desta vez não iniciará antes do dia 01 de dezembro! Durante o mês de outubro nevou muito por aqui o que é completamente anormal e mesmo agora continua nevando. Na manhã seguinte a nossa chegada em Mendoza podíamos ver neve fresca nas montanhas. Com isso mais uma mudança de planos. Vou fazer a parte da travessia dos Andes de bicicleta, de Mendoza a Viña Del Mar agora, antes do Aconcagua e depois disso terei ainda uns 10 dias de descanso forçado antes de poder começar a escalada. As informações que chegam do Aconcagua são de que o campo base está com 3 metros de neve!
Com essa mudança de planos a Celina que voltaria hoje decidiu ficar mais alguns dias e me fazer companhia e me acompanhar até Viña Del Mar. Como eu disse antes coisas ruins também sempre são acompanhadas de coisas boas...
Então, a partir de amanhã começo a travessia dos Andes, uma subida de mais de 2.000 metros em 180 km, mais ou menos três vezes a subida de Santos a São Paulo! Para compensar o esforço, uma paisagem linda, ainda mais agora com tanta neve nas montanhas!.

Consertando um pneu que eu achava que estava furado. Ossos do ofício...

Consertando um pneu que eu achava que estava furado. Ossos do ofício...
Foto: Celina Cezar

O odometro mostrando um dia de 200km, depois teria um mais longo!

O odometro mostrando um dia de 200km, depois teria um mais longo!
Foto: Celina Cezar

As primeiras montanhas depois de 2000 km de planos

As primeiras montanhas depois de 2000 km de planos
Foto: Celina Cezar

Chegando na linda Mendoza!

Chegando na linda Mendoza!
Foto: Celina Cezar

  
  

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