Holywood estava mentindo

Pois é, eu sai correndo pelas estradas, deixei a minha barba e cabelos crescerem e corri e corri. Mas não apareceu ninguém para me seguir. Forest Gump é pura ficção! Por isso desisti de correr e voltei a pedalar. Quer dizer, a história não foi bem assim.

  
  

Pois é, eu sai correndo pelas estradas, deixei a minha barba e cabelos crescerem e corri e corri. Mas não apareceu ninguém para me seguir. Forest Gump é pura ficção! Por isso desisti de correr e voltei a pedalar.
Quer dizer, a história não foi bem assim. Depois de correr 20 km de Santa Vitória ao Chui após o longo descanso, acordei novamente com muita dor e resolvi dar mais um tempo para a minha perna e fazer do Chui a Montevidéu de bicicleta que não incomoda. Em Montevidéu, se estiver melhor tento correr novamente.
Como eu tinha aprendido com a lição anterior, a corrida, desta vez recomecei a pedalar com um dia não muito longo. Fazia exatamente um mês que eu tinha chegado a Porto Alegre de bici e estava “ enferrujado” para pedalar. Com a entrada no Uruguai algumas coisas mudaram. É incrível, mas uns poucos quilômetros fazem uma enorme diferença cultural e de costumes. No Brasil por onde passávamos éramos celebridades. Todos olhavam para o carro e queriam saber o que estávamos fazendo. Aqui no Uruguai parece que por dia passam 10 Mitsubishis L200 vermelhas com um caiaque de 6 metros em cima. Ninguém dá a mínima bola ou pelo menos se dão, são muito discretos. Os preços também mudaram bastante e para pior. Mesmo com o peso desvalorizado os preços aqui estão ao redor de 50% mais caros do que no Brasil. Um refrigerante pequeno em um restaurante custa em média 3 a 4 reais!
A paisagem no primeiro dia foi parecida com o sul do Rio Grande do Sul, plano e com muitas fazendas de gado e lindos cavalos. Mas ficou a sensação de um país mais bem cuidado e com mais investimento em turismo do que o nosso. Cada vilarejo tem uma placa dizendo as atividades do local.
A estrada era o paraíso para ciclistas. Plana, ótimo asfalto e um carro a cada 5 minutos e com isso silêncio. Uma das coisas que mais me incomodou no trecho de São Paulo a Porto Alegre foi o constante barulho dos infinitos caminhões.
Com isso e com a ajuda de um providencial vento a favor acabei fazendo 130 km neste dia.
O segundo dia de bicicleta foi bem interessante com uma paisagem bonita e variada. O dia começou com uma neblina espessa e muito úmida, mas o velho ditado neblina que baixa, sol que racha foi verdadeiro apesar dos 12 graus que fazia logo cedo.
Ao contrário do que eu me lembrava de minha outra viagem de bici por aqui, a estrada foi cheia de subidas e descidas leves. As grandes fazendas de gado deram lugar a bonitos bosques de pinheiros e eucaliptos com uma deliciosa fragrância. Novamente as pequenas margaridas amarelas forravam os lados da estrada e os quilômetros passaram fáceis e divertidos.
Após 60 km viramos pegamos uma estrada secundária para a praia e agora sim estava no tipo de lugar que gosto de pedalar. Nenhum carro, pequenas fazendas e bosques. Por alguns quilômetros pude sentir mais uma vez a delicia de viajar de bicicleta e não estar fazendo um desafio onde o que conta é fazer o máximo de quilômetros possíveis.
E de repente eu não estava mais no Uruguai nem na América do Sul e sim em algum bairro rico de alguma praia da Austrália ou Estados Unidos. Casas enormes sem muros no meio de gramados bem cuidados de frente para o mar. Era uma seqüência de pequenos balneários próximos a Punta Del Este, a praia chic do Uruguai. O único sinal da terrível crise pela qual o país está passando era o número de placas de vende-se. Mesmo assim, como bom país de terceiro mundo, dá para ver que existe uma parcela da população com muito dinheiro. Em Punta Del Este a mesma coisa com um número enorme de lanchas e veleiros no píer.
Depois de um enorme almoço segui para os 40 quilômetros da tarde. Mas esses 40 quilômetros foram tão fáceis que resolvi ir mais um pouco e acabei fazendo 80 km. É que também eu tinha uma boa motivação para fazer este dia mais longo. Amanhã a Celina chega em Montevidéu para passar 10 dias comigo e eu queria deixar o dia bem curto para não estar muito cansado. Já faz um mês desde que nos vimos pela última vez em Porto Alegre.
Resolvi dormir em uma pequena praia chamada La Floresta da qual não sabia nada, somente que ficava há menos de 60 km de Montevidéu. A intuição deu ótimos resultados, pois achamos um lugar com cabanas para alugar bem gostoso. Ele iria inaugurar no dia seguinte e tudo ainda estava sendo arrumado, mas as duas donas eram super simpáticas e logo me senti a vontade. Nesta minha vida com tantos hotéis é bom as vezes encontrar um lugar diferente com um ar mais caseiro.
Enquanto os quartos eram arrumados fomos de carro até a praia. Ao contrário das praias daqui do sul que são longas e feias, esta era bastante bonita, uma baía com algumas pedras e um mar bem batido com o vento. O Wesley propôs que nós déssemos uma remada, já que ele nunca tinha remado um caiaque. Ótimo programa de fim de tarde para quem já tinha pedalado 180 km. Mas não quis frustrá-lo e lá fomos nós. Um mar cheio de ondas e bastante vento com alguém que nunca tinha entrado em um caiaque. Apesar do nervosismo inicial tudo deu certo e demos uma boa remada pela baía. Depois ele me disse que quase desistiu no início por medo...
O terceiro dia foi muito tranqüilo, o mais fácil até agora na travessia. Apenas 55 km de La Floresta até a rodoviária onde o Wesley embarcou de volta a Santa Vitória. Como toda a entrada de cidade grande foi um pouco tumultuado com o transito, mas nada que se comparasse a Curitiba ou Porto Alegre.
Primeiras impressões do Uruguai: um país tranqüilo com uma população de apenas 3 milhões de habitantes onde, apesar da crise, se vê pouca pobreza e nada de violência. Muita gente, inclusive mulheres, pedindo carona nas estradas, sinal de que a violência por aqui realmente é pequena. As pessoas são simpáticas porem muito mais reservadas do que os brasileiros. Estou gostando.
Vou dar mais um dia de descanso para a minha perna e na segunda feira volto a correr e se tudo der certo corro até Buenos Aires. Torçam por mim!

Primeiro dia de bicicleta no Uruguai rumo a Punta del Este

Primeiro dia de bicicleta no Uruguai rumo a Punta del Este
Foto: Wesley

Pedalando nas estradas tranquilas do Uruguai. Um carro a cada 5 minutos

Pedalando nas estradas tranquilas do Uruguai. Um carro a cada 5 minutos
Foto: Wesley

Comendo una parrillada e aproveitando a parada para escrever o boletim

Comendo una parrillada e aproveitando a parada para escrever o boletim
Foto: Wesley

Chegada em Montevideu

Chegada em Montevideu
Foto: Wesley

Despedida do Wesley na rodoviaria de Montevideu de onde regressa ao Brasil

Despedida do Wesley na rodoviaria de Montevideu de onde regressa ao Brasil
Foto: Manoel Morgado

  
  

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