A Luz das montanhas

Trekking tem sido o esporte que eu escolhi para me aprofundar na natureza e nas belas paisagens brasileiras. Tudo para obter as mais belas fotografias que eu pudesse fazer. Eu já disse que a fotografia me levou à natureza e me fez largar a vida sedentá

  
  

Trekking tem sido o esporte que eu escolhi para me aprofundar na natureza e nas belas paisagens brasileiras. Tudo para obter as mais belas fotografias que eu pudesse fazer.

Eu já disse que a fotografia me levou à natureza e me fez largar a vida sedentária, mas se hoje eu já tenho uma considerável experiência, o começo foi bem difícil. Quantas vezes me peguei me perguntando que eu estou fazendo aqui no meio dessa ribanceira e que não dá mais para parar ? Eu já passara dos trinta quando dei uma guinada na minha vida e fui em busca de conhecer melhor e fotografar meu país, carregando minhas câmeras e toda a parafernália adjacente. Eu já vi pessoas desistirem no começo de uma trilha, ou diante de uma montanha, mas aposto que se insistissem consigo mesmos e tivessem a coragem de tentar, não só conseguiriam, como iriam se sentir muito bem e vitoriosos.

Viajar em grupo não é a melhor maneira de se fotografar, mas é uma excelente maneira de fazer amigos e se conhecer inicialmente um lugar. Nos meus primeiros trekking fui me adaptando e conhecendo o meio ambiente e as pessoas que tem algo em comum comigo.

Foi assim que eu conheci a Sandra e a Iveth de quem me tornei muito amigo pela afinidade com que admiramos as montanhas.

Fiquei muito orgulhoso quando me convidaram para ajuda-las na expedição Kali Gandaki e montei um pequeno workshop para que compreendessem um pouco melhor o que é como estar atento às rápidas mudanças climáticas e conseqüentemente a mudança de luz na montanha. O fotógrafo está sempre de olho na luz, um olho na luz e outro na paisagem e a tudo o que acontece em volta. Até na hora da refeição, estamos atentos a tudo o que ocorre.

Acho que isto diferencia o fotógrafo de quem apenas fotografa, a atitude de estar sempre com a máquina pronta, atento ao ato de fotografar e esta dedicação à câmera é que dá ao fotógrafo as vezes uma foto que ninguém mais viu.

Mesmo nos dias chuvosos, pode haver um momento em que as nuvens se abrem e o sol derrama um brilho especial no vale lá em baixo. É muito rápido, pode durar segundos, ou poucos minutos, mas quem está atento tem de aproveitar. Fotografar, o sol nascendo as 5:30 hs da madrugada certa vez, foi um dos mais belos espetáculos que presenciei e compensou todo o esforço da véspera.

Na montanha a luz é mais dramática no fim de tarde, os tons são mais dourados e muitas pessoas dedicam sua atenção ao por do sol, mas vão embora quando o astro se põe. Eu continuo atento mesmo quando já está muito escuro, por que o céu se enche de cores e reflexos, as nuvens adquirem tons e uma silhueta de alguém compõe um belo quadro.

Eu carrego sempre um tripé, ele é essencial nas situações de pouca luz. Eu tenho dois, um Slick de Alumínio, que é muito leve e eu carrego numa expedição onde eu não tenho muito espaço para meu material e preciso economizar peso. Mas eu tenho um Gitzo de Fibra de carbono que é o sonho de qualquer fotógrafo. Este eu carrego na maioria das vezes pois ele é bem estável e sobe bem alto.

Muitas vezes eu uso também um flash apenas para iluminar um detalhe, pois para mim a luz principal é sempre a existente no momento.

Na primeira viagem que eu fiz com Sandra e a Iveth eu cheguei a fazer umas fotos noturnas do acampamento na serra do Cipó. Estava uma lua cheia e deixei a câmera no tripé expondo por alguns minutos, enquanto eu jogava a luz do flash nas barracas. O céu ficou ligeiramente azulado e riscado pelas estrelas.

Na nossa viagem de treinamento para a expedição, ao pico dos Marins, infelizmente choveu, mas mesmo assim a natureza nos brindou com momentos de luz de rara beleza e um frio de rachar com chuva a noite inteira. Mas as fotos que eu consegui fazer salvaram a viagem, e pude demonstrar às meninas o que eu queria dizer com o máximo aproveitamento da luz e estar sempre atento a natureza.

Todos sabemos que a natureza é soberana e cada dia é um dia diferente, cada viagem é uma nova viagem. O que encontramos numa viagem não necessariamente iremos encontrar em outra, a luz nunca se repete. Eu gosto de viajar livre sem compromisso, e o que eu encontrar pela frente será o que eu vou trabalhar e fotografar, da melhor forma possível. Foi assim que eu fiz grande parte das boas fotos que eu tenho.

Eu tenho pouco a ensinar, por que fotografia se aprende assim, caminhando junto, observando, perguntando, tentando e principalmente fazendo.

Sempre que eu que viajo procuro perceber as pessoas mais simples. Você já reparou que quanto mais inóspito e distante o lugar, mais felizes parecem as pessoas? Essas pessoas tem uma dignidade, uma simplicidade e uma felicidade no rosto que bem poucos seres urbanos e "civilizados" podem perceber, eles tem mais felicidade do que podemos imaginar e tirá-las de seu mundo pode significar sua morte.

Há uma vida acontecendo por aí, bem ali na curva, atrás da montanha onde o sol se põe e o rio segue seu curso rumo ao mar.

Eu procurei, na minha simplicidade, passar tudo que eu podia para estas meninas aplicarem em sua viagem maravilhosa.

Acho que agora elas estão preparadas e contando com o reforço da Fernanda, tenho certeza de que trarão boas imagens do Nepal e de suas pessoas simples e cheias de vida.

Boa viagem, aguardo ansioso a volta.

Victor Andrade
Fotógrafo

  
  

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