A vida como tripulante no rio Madeira

Primeiro dia efetivo navegando nas águas do Madeira

  
  

Hail!

Eu dormi no chão do rebocador, com a cabeça na minha (até então) inseparável mochila. Maeda armou sua rede aproveitando que um dos tripulantes (Seu Zé) havia entrado em serviço logo na nossa partida. Foi tudo muito improvisado, pois como disse anteriormente, ainda não conhecíamos nenhum dos tripulantes.

Após esta primeira noite mal dormida, acostumando com o alto barulho do motor do barco e ainda depois de ter passado um frio absurdo --é impressionante a variação de temperatura da região amazônica. Os dias são quentes e de sol ardido. As noites tem muito sereno e são extremamente geladas--, acordamos juntos, às 05:30am. Levantei calmamente e fui dar uma volta no barco, aproveitando o início da luz do dia para entender melhor o funcionamento de toda aquela geringonça. Desci na "área de refeição", bem na base do rebocador e todos ainda dormiam em suas redes. Achei melhor não acordá-los. Subi novamente até a cabine de comando onde sempre havia uma cadeira vaga ao lado capitão. Sentei, dei uma bela olhada ao redor e aproveitei para tirar umas fotos do nascer do Sol. Tentei puxar papo com o baixinho mas naquela altura, ouvi um grunhido. Achei melhor deixar pra depois e continuei a me manter calado.

Pouco tempo depois Maeda apareceu e como de costume, me solicitou as informações de nossa localização. (nota do autor: por um período achei que ele havia enlouquecido. Me pedia as coordenadas geográficas a cada 20, 10 minutos. Graças, foi só fogo de palha. Hoje ele pede apenas umas 4 vezes por dia). Passei. Havíamos saído de Porto Velho já há umas 4, 5 horas. O GPS mostrou:
Latitude: 8 26" 21""
Longitude: 63 37" 42""
Velocidade: 18,5 KM/h

Ele anotou tudo na sua Moleskine e depois começou com a conversinha mole pra cima do Baixinho. Falava, falava, falava e falava. De vez em quando mandava uma pergunta retórica e obtia a resposta: "sim" ou "não". Até o momento, era tudo o que conseguia arrancar daquele senhor de palavras tão breves.

Maeda se serve do Café-da-Manhã a bordo do

Às 07:15 ouvimos um apito estridente vindo lá de baixo. Demorei para entender o que era. Quando ia descer, Simone, nossa cozinheira e manda-chuva da embarcação, colocou a cabeça pra cima da escada do convés e disse: "E aí? vocês não vão tomar café da manhã não??". Entendemos enfim o convite e descemos. Café simples e gostoso. Café com água do rio Madeira, bolacha de água e sal, manteiga, leite, banana e castanha do pará. Não era preciso mais nada. Estava realmente ótimo. Ali fiz minha primeira tentativa de conversa com os tripulantes. Falava mais por gestos que por boca, tamanho era o barulho do motor. Alias, a mesa onde comíamos, era exatamente em cima do porão onde ficava o potente Scania movido à Diesel. Comemos e então voltamos pro nosso cantinho, logo no andar superior.

O potente motor Scania Turbo Diesel que empurrava o

Na minha cabeça havia se passado umas 10 horas. Olhei no relógio e ele marcava 11:20am. Num barco relativamente lento, empurrando uma balsa de 800 toneladas, o tempo parece passar de uma maneira totalmente alheia à qual estamos acostumados. Fui dar um rolê, ou seja, andar alguns metros prá lá e prá cá. Procurei o Maeda e fui achá-lo junto com o Monte Alegre, que naquele momento estava de comandante da embarcação, cobrindo o descanço do Baixinho. Maeda havia conseguido. Perguntava e obtia respostas embasadas, falava mais um pouco, queria saber dos costumes, perguntava pra que usavam isso, como era o nome daquilo, pra que servia aquilo outro. Enfim, fazia seu papel de antropólogo cultural. Monte Alegre, gentilmente respondia tudo, dando mais corda ao relógio infinito. Foi numa destas investidas que soubemos por exemplo, que as 11:30 passávamos pelo último povoado de Rondônia, chamado Calamã, ainda distrito de Porto Velho. E para se chegar ali, apenas pelo rio. Não há qualquer outro meio, terrestre ou aéreo, para acesso àquela localidade.

Logo depois de participar como ouvinte desta conversa, o almoço foi servido. Almocei e rapidamente retornei para meu cantinho. Fiquei lá tirando umas fotos das margens e como estava bem cansado, dormi um pouco. Às 02:22pm, Maeda chutou meu pé e pediu --adivinhem o quê--, sim! Localização geográfica. Havíamos acabado de passar a fronteira entre Rondônia e Amazonas e ele queria detalhes do GPS. Foi realmente um marco. Passei as localizações e lá fui eu, tirar fotos. De tudo, por todos os ângulos, de todos (as pessoas não me diziam nada mas com certeza não me achavam normal).

Quando se entra no Amazonas, acontece algo. É sério. A paisagem realmente muda de repente. A mata se fecha, se torna mais densa. O barulho da floresta se intensifica. A natureza mostra sua força por ali. Deixa claro que não está apta a aceitar invasores. Até então, achava que este era o ápice da selva. No entanto, o futuro me mostraria que estava errado, mas isso é assunto para o próximo post.

Casa de ribeirinho. Estado do Amazonas mas ainda no rio Madeira

Jantamos pontualmente às 05pm. Segundo anotações do Maeda, a comida tinha exatamente os mesmos ingredientes do almoço e estava muito gostosa. Geralmente comíamos macarrão, farinha d"agua, arroz, feijão e uma variante: ou carne de panela ou peixe ou buchada. Tudo bem temperado e gostoso. Meu único porém foi em relação à farinha. Eu gosto de farinha (principalmente farofa). Mais do que isso, queria me adaptar aos costumes locais. Pus arroz e feijao no meu prato e soquei farinha por cima. Hei, vocês já comeram farinha d"agua? Na primeira mastigada quase quebro todos os meus dentes. Sorri sem graça e perguntei se era assim mesmo, meio durinha (parecia um paralelepipedo na minha boca). "Sim, é assim mesmo. Gostosa né?" respondeu gentilmente Simone. Fiz um sinal de positivo com a cabeça e pus minhas obturações, ainda de amalgama, para funcionarem. Comi tudo. Pela primeira e única vez. Essa farinha é comum em toda a região norte e as pessoas a adoram. No entanto, acho que é necessário acostumar os dentes desde pequeno. Não consegui.

Conversamos mais um pouco, tomamos um café e fumei um cigarro. Maeda perguntou pela última vez no dia, as coordenadas.

Escurece rápido no Amazonas. As 06pm o sol já havia baixado. Neste primeiro dia efetivo de viagem, estávamos muito cansados, nos adaptando às novas situações. Dormimos por volta das 07:30pm.

Este post foi feito ao som de Pink Floyd - The Final Cut.

  
  

Publicado por em

Celio suhza

Celio suhza

27/09/2010 16:52:00
incrível eu mesmo gostaria de participar de uma expedição aventureira como essa.