Belém: belezas e riquezas - Parte 1

Primeiro dia da Expedição Madeira em Belém. Descobrindo as riquezas naturais e culturais.

  
  

Acabou enfim nossa última noite a bordo do Catamarã Rondônia, estávamos em Belém. O navio que havia sido nossa morada pelos últimos 5 dias, agora enfrentaria mais uma vez, a forte correnteza contrária do Amazonas para voltar até Manaus, de onde partiu.

Acordamos as 05:30. Maeda foi tomar banho, então aproveitei o início da luz da manhã para dar a última volta no navio. Consegui uma das sensações mais estranhas de toda a viagem, um sentimento que sinceramente, ainda não sei como classificar. Com os motores desligados e com quase ninguém a bordo (a maioria das pessoas havia desembarcado na noite interior), o silêncio total imperava. Era possível ouvir o barulho de ferro se retorcendo e das águas batendo com certa violência no casco de nosso navio. A visão do segundo e terceiro andar era algo estranho. Aqueles quase infinitos corredores, repletos de gente, redes e malas, agora se transformavam em imensos salões onde o simples fato de pisar mais forte, era motivo suficiente para produzir um eco substancial. Me apoiei em uma beirada, com o Navio à minha direita e o Amazonas à minha esquerda. Acendi um cigarro e passei a contemplar o nada, lembrando e assimilando as pessoas e histórias que conhecemos nos últimos dias. Ouvi passos subindo a escada. Era Maeda me chamando para descermos até o porão, onde nosso carro repousava tranquilamente.

Catamarã Rondônia após chegada a Belém. O vazio de ninguém a bordo

Ja era por volta de 07:00 e precisávamos aproveitar a maré alta da manhã para retirar o carro do navio. Com a ajuda da tripulação e de mais duas longas tábuas de madeira maçiça, Maeda conseguiu o feito. Embicou a parte de trás do carro em direção às madeiras e aguardou o assovio de um tripulante. Depois foi só rezar e pisar no acelerador, vencendo os poucos metros que ainda separavam o catamarã do continente. Nos despedimos dos amigos e parte da da tripulação que ainda estavam por ali. Saímos para o porto e aguardamos até as 08am, quando estaríamos liberados pelos oficiais a deixar o porto e efetivamente entrar em Belém.

Maeda, com ajuda da tripulação, retira nosso carro do porão do Navio

Já em terra firme, meu corpo continuava a balançar de um lado para outro. Perguntei ao Maeda e o mesmo ocorria com ele. Eu acho que é como um movimento de compensação provocado pelo labirinto ou algo que o valha. Enquanto estávamos a bordo não percebíamos. O navio jogava de um lado pro outro e nosso corpo automaticamente compensava, de lá para cá. É uma sensação bizarra porque o movimento é bastante sutil e automático. Quando me dava por conta, percebia estar balançando. É quase como uma constante e levíssima tontura. :-)

Pois bem. Depois de vencermos as 860 milhas náuticas desde Manaus, finalmente estávamos em Belém, uma cidade que transpira cultura, história e gastronomia. Como ainda era cedo, aproveitei o sol da manhã (as usual) para algumas fotos. Já tínhamos um objetivo em mente e fomos direto para ele: o clássico dos clássicos em Belém, o mercado de "Ver-O-Peso". O mercado é simplesmente espetacular. Construído em 1625, fica as margens da baía do Guarajá. Tem esse nome tão peculiar por causa das "Casas de Ver-o-Peso", projetadas no Brasil em 1614, para conferir o peso exato das mercadorias e cobrar os respectivos impostos para a coroa portuguesa. O Ver-o-Peso é o maior mercado da América Latina, compreende uma área de 35 mil metros quadrados, com uma série de construções históricas, dentre elas o Mercado de Ferro, o Mercado da Carne, a Praça do Relógio, a Doca, a Feira do Açaí, a Ladeira do Castelo e o Solar da Beira.

O lugar é uma explosão de cores, sabores, cheiros, sons e gente de todo tipo, de todo lugar. Entramos pela feira do Açai e eu empolgadíssimo tirando foto de tudo. Percebi um senhor bem idoso, vendendo castanhas, ainda dentro do ouriço em estado bruto. Eram muitas e estavam dentro de um grande balaio. A foto seria bonita. Me aproximei, sorri e apontei a camera para os frutos. Meu Deus do Céu. O senhor ficou realmente muito bravo, disse que era proibido tirar fotos das castanhas dele, que era pra eu sumir dali e sutilmente ameçou ir para as vias de fato (tadinho, ele mal conseguia ficar em pé). Entendi a mensagem e me mandei dali. Era só um velhinho ranzinza com o saco cheio de turistas que tiram fotos de ouriços. A parte ruim é que perdi uma foto que realmente seria ótima em PB. Ainda mais se ele e sua face craquelada aparecessem. Continuamos andando por toda a feira do Açai, conversando com as pessoas e tirando fotos.

Feira do Açai, mercado de Ver-O-Peso

A fome bateu e fomos tomar o mais típico café da manhã paraense, ali mesmo no ver-o-peso. Sentamos numa barraquinha e pedimos peixe frito, Açai e farinha d'agua. O peixe, uma tainha inteira deliciosa. Morto de fome, peguei um prato, coloquei o peixe e enchi de Açai ao lado. Levei um pedaço de peixe à boca e depois uma boa colherada de Açai. Ave mãe! Definitivamente o Açai não era o que esperava. Açai pra mim era como estes que se compram em São Paulo, doces, que já vem misturados com guaraná e granola. O Açai de verdade é muito, mas muito mesmo, diferente. A consistência até que é parecida mas o sabor é bastante amargo e carregado de ... sei lá ... terra??! Acabei com o peixe e deixei o Açai. Maeda olhou pra mim com uma cara de 'larga de frescura e pára de me fazer passar vergonha rapaz!', mas não teve jeito. Não deu para mim e ele acabou tomando a tigela inteira de açai. E adorou.

Fruta Amazonica - Ver-o-Peso

Depois passamos por uma grande barraca de frutas regionais onde conhecemos Dona Carmelita. Esta adorável senhora nos aguentou por quase 2 horas. Degustamos infinitas variedades de frutas Amazônicas, algumas que sequer sabia que a natureza era capaz de produzir: Tucumã, Sapoti, Abricó, Procoló, Buriti, Cupuaçu, Pupunha, Graviola, Taperebá e por aí vaí. Maeda conversou, conversou e conversou. Perguntou sobre as frutas, o solo da região, palmeiras, cultura em geral. No fim compramos algumas frutas da região para trazer a Sao Paulo e gastamos impressionantes R$ 15,00. As sacolas já estavam pessadíssimas e não dava para carregar mais nada. Tudo muito barato e gostoso.

Sapoti, Cacau e por aí vai. Mercado de Ver-O-Peso

Bom, este foi metade do primeiro dia no Ver-o-Peso.
Daqui a pouco venho lhes contar mais sobre Belém.

  
  

Publicado por em

Carmelo

Carmelo

05/06/2011 20:37:13
Caras, é a viajem do meu sonho, a idéia do livro é excelente.
abraços
Carmelo

Fatima

Fatima

09/11/2009 22:03:18
oi prazer !!! queria mais fotos do navio , vc tem ?? tipo camarote , lanchonete , etc.... agradecida

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Olá. Infelizmente nao tenho outras do navio.
Brendinha ferreira da silva

Brendinha ferreira da silva

14/10/2009 16:38:13
não entendi nada disso de açai!
beijssss
euzinha

Danielle

Danielle

16/09/2009 01:40:49
gostaria de saber os preços das delicias do acai obrigada....

Janete

Janete

08/08/2009 03:10:56
só agora tô vendo a matéria, não conheço Belém, mas é Brasil, né? não poderia jamais ser feia! Tenho curiosidade de conhecer mercado-ver-o-peso, gosto história e também pq lembro do livro de Jorge Amado, Um certo capitão Rodrigo...Morte e a Morte de Quincas Berro D'Àgua ... continuem viajando, meninos!

Marcos

Marcos

22/07/2009 14:16:54
Belém do Pará é, realmente,uma cidade maravilhosa. Seu povo é acolhedor, de uma riqueza infinita. Tenho boas lembranças dessa cidade. Além dos sabores deliciosos dos seus frutos, belos point turísticos, podemos acrescentar, também, suas lindas e morenas mulheres...

Loraine benedetti

Loraine benedetti

15/07/2009 20:39:50
Maravilhoso estou louca para conhecer
Adoro conhecer sabores diferentes de frutas .
conhecer todos os tipos de sementes que aqui no sul não
existe. Muito exótico. legal.

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Pois é Loraine. Conhecer o norte é uma experiência única. Uma vida mais simples e tranquila, pessoas de ótima índole, belezas naturais a perder de vista. Geralmente ficamos travados no eixo Sul - Nordeste, deixando Norte e Centro-oeste pra lá.
Paulo Toyota

Paulo Toyota

15/07/2009 14:38:09
Estou adorando a expedição, fico cada vez mais curioso sobre o proximo dia!

Otima idéia, vocês poderiam escrever um livro sobre a expedição, o tipo de livro vai a escolha dos autores.
Muito bom mesmo.

Abraços P.Toyota

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Paulo, muito obrigado por suas gentis palavras. Sobre o livro, já estamos trabalhando seriamente neste sentido e buscamos o apoio do Ministério da Cultura. Aguarde pelas cenas dos proximos capítulos. Alias, você tambem pode nos acompanhar através do Twitter: www.twitter.com/madeiraabaixo Abraçao
Geraldo gentil vieira

Geraldo gentil vieira

13/07/2009 17:10:29
olha ai quem chegou! a Hellem, que fomos de navio até Salvaterra e Soure no Marajó... e depois para o Algodoal que ilhas e rios parasidiacos, nevernunca vamos esquecer. e andamos de barcos bufalos e bicicleta que lá é plano como esta mesa e as frutas é o que mais tem e são mesmo gostosas. E o Marcos e o Maeda desceram o Amazonas e ela e eu vamos subi-lo de Belem-lem-lem até Manaus-aus-aus em...novembro, depois contaremos com fotos senão ninguem acredita.

Elcio castro

Elcio castro

13/07/2009 12:20:51
legal muito legal quando eu for oara estes lugares ,alem de dar risadas ,vou lembrar da foto do orisso da castanha . Um abraço

HELLEM SOUSA

HELLEM SOUSA

13/07/2009 09:14:14
MARAVILHOSO! O VER-O-PESO É TUDO ISSO MESMO, EXÓTICO E DIFERENTE DE TUDO QUE VOCE JA VIU POR AI. AINDA TEM OS CAMARÕES DE TODO TAMANHO, PEIXES DE AGUA DOCE E DE MAR, MARISCOS EM GERAL E ARTESANATO MARAJOARA.TODOS DEVEM UM DIA IR ATÉ BELÉM CONHECER ESSA FEIRA E EXPERIMENTAR AS FRUTAS DA AMAZONIA.

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Exatamente Hellem. Ver-o-peso é um ponto fora da curva, patrimônio histórico e lugar obrigatório para todos que passam por Belém. Vale muito a pena. :)
MJMalcher

MJMalcher

11/07/2009 20:57:08
Sou paraense, e adorei sua matéria. Que pena! você não ter gostado do nosso tão saboroso açai! Mas, quem sabe um dia aprende a gostar. Também o tio foi mau, em não deixar você tirar fotos do Ouriço da Castanha. Continuem fazendo essas belíssimas matérias. Até breve

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Athaides Maeda e Marcos Bonas

Olá! Obrigado pela mensagem. Quanto ao Açai, o problema é que estava acostumado com um Açai, tipo sorvete, vendido no Sul. Os caras colocam guaraná, um monte de açucar e o Açai propriamente. Comemos com granola. Aí, eu estava esperando um sabor e veio outro, totalmente ao contrario. :) Mas no fim, o Açai é sim muito gostoso. E o melhor: te dá um gas melhor que café. ;-)