Chegando em Manaus

Após 4 noites e 3 dias fazendo parte da tripulaçao do

  
  

Goeie môre!

Este já era o quarto dia à bordo do Paulão e estávamos ha exatas 78,51 horas navegando sem parar pelo Madeira e Amazonas. Ao contrário do resto da tripulação que já era acostumada a passar semanas e até meses dentro do barco, eu e Maeda estávamos cansados e começávamos a ficar entediados.

Acordamos mais tarde, às 06:51am. Maeda pôs seus dois óculos --nota do autor: como ele não se adaptou à apenas um único óculos utilizando lentes bi-focais, costuma colocar um sobre o outro quando é preciso ver algo de perto. É uma visão estranha, um sujeito com dois óculos no rosto, esforçando seus olhos para usar um ou outro, dependendo da situação. No início as pessoas olhavam com estranheza mas logo se acostumaram--, abriu o mapa da Expedição procurando exatamente onde estávamos naquele momento e como se fosse a ordem do dia me ordenou a única coisa imaginável: lhe passar dados atualizados de localização geográfica.

Vimos que estávamos muito próximos a Manaus, o porto da cidade assim como as ruas, já eram visíveis a partir da embarcação. Subi e falei com Baixinho. Me disse que a distância até Manaus era de cerca de 10, 15 quilômetros. Entretanto, como navegávamos contra as águas do Amazonas, a velocidade do Paulão estava bastante prejudicada. O GPS calculou uma média de 8,5 KM/hora. Assim, levaríamos algo entre 1,5 horas e 2 horas para atracar no porto.

Baixinho, nosso comandante em momento contemplativo

Eu retomei minhas preocupações quanto ao cronograma da viagem. Tanto em Porto Velho quanto em Manaus, as informações de saídas de balsas contendo carregamento ou passageiros, não são precisas. Não é como uma empresa de onibus ou ainda operadora de avião. Há sim um horário previsto para partida, no entanto, geralmente não é cumprido. Atrasos de 12 horas e até 1 dia são tão comuns que as pessoas já se acostumaram e não costumam reclamar. O que ocorre, principalmente no caso de balsas é que o proprietário espera utilizar 100% (ou as vezes mais) da capacidade do barco. Por exemplo, se ele se prepara para levantar ancora às 06am e as 05:30 chega um caminhão bi-trem com um carregamento de batatas, dá-se um jeito de coloca-lo na balsa já lotada, mesmo que isto comprometa o horário de saída e também a segurança da navegação. A lei ali é maximizar os lucros.

Pois bem. Conversando com as pessoas descobri que os navios saindo de Manaus com destino à Belém, partem apenas às quartas e sextas. Se por algum motivo perdessemos a partida no dia seguinte, apenas dali 3 dias teríamos nova oportunidade. Um risco grande de não conseguirmos cumprir o cronograma e eu ter de pegar um avião no meio do caminho com destino à São Paulo. O que eu não sabia era que, Baixinho, o homem de poucas palavras, havia dado uma tacada de mestre naquela madrugada --já havia conversado com ele sobre como seria bom se conseguissemos transporte para quarta-feira. Chegaríamos na terça de manhã em Manaus e assim poderíamos ficar quase 2 dias para conhecer parte da cidade. Durante a madrugada fomos ultrapassados por um Catamarã que fazia o trajeto Belém-Manaus. Através do rádio, Baixinho fez contato com o comandante do Navio, explicou nossa situação, efetuou a reserva e combinou nossa visita ao navio no dia seguinte, a fim de embarcar o carro e acertar o preço da viagem até belém. Coincidentemente, o nome deste Catamarã era Rondônia e este era o maior navio do baixo Amazonas. Melhor impossível, Baixinho salvou o dia.

Às 07:40 am passamos pelo encontro das águas entre o rio Negro e Solimões. É um espetáculo à parte. De um lado a escura e límpida água do Negro. De outro, as águas barrentas e avermelhadas do Solimões. São como água e azeite, não se misturam. Neste momento já estávamos bem próximos à Manaus, passando pelos portos da cidade. Segundo nosso comandante, ainda faltava 1 hora até o atracamento da balsa.

Encontro das Águas. Rio Negro e Solimões

Enfim, as 09:15 am, nossa embarcação atracou. Depois de 4 noites e 3 dias de viagem, o fim do infernal barulho causado pelo potente motor Scania Diesel de 370 cavalos, cessou. Foi um alivio. Podíamos enfim conversar com todos sem que fosse necessário gritar ou gesticular ao extremo.

Eduardo se ofereceu a nos levar de voadeira até o navio. Por lá é muito comum o transporte por voadeiras. Dependendo de onde você for, é muito mais rápido ir por água que por terra. Ha um verdadeiro mundo de taxistas aquáticos. O Catamarã realmente nos impressionou pela sua imponência e tamanho. Um grande navio de ferro (o que até esta altura era novidade). Subimos a bordo e conversamos com Rodrigo, o gerente da nova embarcação. Maeda falou, falou, falou, contou histórias, disse que faria 60 anos e estava realizando um sonho e bla bla bla. Depois de 32 minutos de conversa conseguimos um desconto de R$ 380,00 nas nossas passagens e embarque do carro no porão do navio. Maeda queria mais 50,00 mas saímos satisfeitos.

Catamarã Rondônia

Negócio fechado, era hora de voltar ao Paulão, nos despedir da tripulação que a esta altura, ja era como uma familia para nós (familia em 4 dias??? Sim, é a convivência ininterrupta. Começo a entender o mecanismo de convivência do Big Brother), pegar o carro e rumar à descoberta da cidade de Manaus.

Valeu Baixinho, Simone, Seu Zé, Nego Leo, Leo, Monte Alegre e Arthur.

Este post foi feito ao som de Guns and Roses - Chinese Democracy

  
  

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