Embarcando no Paulão

Nos preparando para descer o rio Madeira a bordo do empurrador

  
  

Boa Tarde fiéis seguidores

Estou me esforçando para fazer este post do meio do Amazonas. A conexão está lenta e cai muito. Ha muita instabilidade por aqui. Vamos la, continuando de onde parei.

08/05 – Embarcando no "Paulão".

Saímos do hotel em direção ao "porto do Hulk" exatamente às 02pm, conforme combinado anteriormente. A idéia original era já embarcar o carro e zarpar no fim da tarde. No entanto, quando chegamos havia ainda três caminhões bi-trem aguardando para serem descarregados. A primeira vista não entendi. Na minha cabeça era impossível entrar mais alguma coisa naquela já lotada, balsa. Ledo engano. Foram carregados mais de 700 toneladas entre frutas, verduras, legumes, grãos e até um caminhão inteiro com produtos de $ 1,99.

Porto Velho é uma rota estratégica para envio de alimentos produzidos na região sudeste e centro-oeste para o Norte. Ali são carregadas centenas de balsas por mês, levando nossa produção interna para consumo local e também para exportação (através do Porto de Belém). Diferentemente de estados como Mato Grosso e São Paulo, o solo da região amazônica não é fértil para o plantio. Daí se estabelece a necessidade de receberem alimentos produzidos em outras regiões do Brasil. Talvez este seja o principal motivo pelo qual ainda não tenhamos dizimado totalmente a floresta. O perigo de desmatamento para a Amazônia não tem relação com a agricultura, como por exemplo, no caso de Mato Grosso. Aqui, o que deve ser fiscalizado é o corte ilegal de árvores por madeireiras e o avanço da pecuária sobre áreas de mata.

Bom, voltando à expedição. Para passar o tempo, Maeda foi até o carro, puxou sua vara multi-uso e pôs um garoto local à procurar isca. Valia qualquer coisa: minhoca, milho, canjica, besouro. O garoto voltou com um punhado de ração para cachorro (essa foi fácil, fazia parte do carregamento da balsa). Meio a contra-gosto, colocou a ração no anzol. Afinal de contas, não podia decepcionar seu novo neto. O tempo passou. E passou. E passou. Nada. Um caminhoneiro que aguardava seu caminhão ser descarregado e também estava pescando ouviu o Maeda falando sobre a vontade de pescar um Candiru (peixe amazônico, comedor de gente). Sumiu por alguns instantes e então voltou com um pedaço de carne em uma das mãos. “Se quiser pescar Candirú, tem que usar carne como isca. Quanto mais sangue melhor”. Dito e feito. Foi por a carne no anzol e em alguns minutos lá estava aquele peixinho desconjunturado, feio como o cão, mais escorregadio que limo e sobretudo, nojento como uma gosma de carne em forma de peixe. Maeda se deu por satisfeito. Mostrou à todos e me chamou para tirar fotos.

Candiru, pescado à beira do rio Madeira

O ultimo caminhão foi enfim descarregado à noite, umas 08:30pm. Depois, foi a vez do Maeda manobrar nosso carro para dentro da balsa. O espaço que sobrou era mínimo e foi uma tarefa bastante arriscada passar sobre o rio Madeira usando apenas duas pranchas de madeira para acessar a balsa. Feito. Balsa completa, tudo pronto para zarpar, fomos para o empurrador, o mesmo que seria nossa moradia pelos próximos quase 4 dias. Hulk nos levou até o barco e nos mostrou de forma geral, as partes que compunham o "Paulao". Um pequeno barco de 3 andares com cozinha, banheiro, pequeníssimos camarotes para a tripulação descansar –na prática, as pessoas dormem em redes que podem ser penduradas em qualquer lugar da embarcação--, e cabine de controle no piso superior. Levei apenas uma mochila com algumas roupas e o maeda trouxe 2 colchonetes.

Como não tínhamos sido apresentados oficialmente à tripulação, ficamos confusos sobre quem era quem. Quando entramos, havia algumas garotas a bordo, provavelmente "namoradas" dos marinheiros que estavam se despedindo para a longa viagem (leva-se 4 dias de Porto Velho à Manaus e outros 6 percorrendo o caminho inverso). Achei um lugar ao relento, atrás da cabine de comando e sentei ali mesmo. O céu, cheio de estrelas era um espetáculo à parte. De tão cansado, acabei dormindo ali mesmo, sentado. Acordei por volta das 11:30 pm com o barulho da voadeira (pequeno bote com motor que acompanha os navios) saindo para levar as meninas de volta ao porto. Pronto. Era isso. Enfim levantaríamos âncora. A tripulação que até o momento estava meio escondida, começou a aparecer e tomar seus postos. Estava olhando tudo lá de cima quando o "Nego Leo" (vocês o conhecerão mais para frente) subiu a escada do convés, me olhou e disse: “Pronto Alemão! Agora já vamos”. Fiquei aliviado, pois estava bastante preocupado com a data de chegada em Manaus e por conseqüência, a data em que conseguiríamos um barco até Belém.

Saímos de Porto velho exatamente à 01 da manhã do sábado, 09/05. Agora, passadas algumas horas, já dava para ter um começo de idéia de como era composta a tripulação:

Baixinho: Nosso capitão. Um homem à primeira vista desconfiado, bastante econômico em suas palavras e que pensa muito antes de responder algo.

Simone: Uma cozinheira de mão cheia que nos fazia seguir à risca os horários da tripulação. Segundo o Maeda, quem realmente mandava na embarcação.

Leo: Marido / Namorado da Simone. Marinheiro de verdade, o único (acho eu) habilitado pela Marinha do Brasil. Seu principal afazer era cuidar do potente motor Scania de mais de 300 Cavalos que empurrava as 700 toneladas da balsa.

Leo (apelidado como "Nego Leo" pelo Maeda). Um carioca de 21 anos que estava em sua segunda viagem nesta embarcação. "Vim para limpar a balsa depois que descarregarem", me contou. Apesar da pouca idade, já havia viajado por quase todo território nacional, assim como alguns países da América do Sul. Mais tarde vim à saber que ele também era DJ. Quando viu meu notebook, logo pediu emprestado, instalou um software de discotecagem e me mostrou o que realmente sabia fazer. Ele está em busca do sonho de se tornar um renomado DJ.

Seu Zé: um senhor pacato, de fala mansa e conhecedor extremo da região, tanto em termos culturais quanto geográficos. Nos contou muitas histórias de folclore: curupira, yara, boto. Algumas delas, vivenciadas pelo próprio, jurou ser verdade. Ele fazia um pouco de tudo, cuidava do motor junto com Leo, era responsável pelo combustível e as vezes, assumia o timão.

Monte Alegre: como seu próprio apelido anuncia, é natural da cidade de Monte Alegre, no Pará. Exímio navegador, revezava o timão com o capitão Baixinho.

Arthur: nosso segurança particular. Um pitbull bastante dócil com a tripulação mas um poço de fúria com outras pessoas. Eu levei uns bons dois dias para me acostumar à idéia de ter esse cachorro "looking for my ass" 100% do tempo. Ainda mais porque ele não foi com a minha cara.

Arthur - Gerente de Segurança

Este foi apenas a primeira parte da noite. Daqui a pouco lhes conto como foram os dias seguintes a bordo do Paulao, descendo o rio Madeira.

  
  

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