Dia 14 - Abalroamento no Amazonas

Após a longa espera para levantar âncora, ocorre um abalroamento cinematográfico no meio do Amazonas

  
  

Guten Morgen!

[Nota do autor: este blog segue uma linha cronológica de acontecimentos, exatamente como um diário de bordo ou como se fosse uma novela. Algumas vezes, para entender uma determinada situação no presente, se faz necessária a leitura dos posts anteriores]

Era noite, por volta das 10 horas. Nosso navio havia acabado de levantar âncora e navegava na direção de Belém. O que era alvoroço e até certo ponto adrenalina, começava aos poucos a se tornar silêncio. As pessoas tinham acabado de se despedir de amigos e familiares no porto de Manaus e a longa espera para zarpar tinha cansado a todos. Neste momento se preparavam para dormir, rumando para suas redes num movimento quase coordenado. A área do bar começou a esvaziar. Fiquei no deck superior para apreciar o Amazonas noturno e este movimento que só partidas podem produzir, sejam elas numa estação de trem, em aeroportos ou rodoviárias.

Não havia lua evidente e o âmbar escuro do rio Negro se revelava um total breu a noite. A sensação era de navegar no espaço, tinha que acreditar que realmente havia um rio logo abaixo do casco. Olhando para trás ainda conseguia ver Manaus ao fundo, já quase virando um borrão de distantes luzes amarelas; já navegávamos no Amazonas. As margens eram como pequenas sombras que não me deixavam ter idéia da distância média entre uma e outra. Olhando para frente, uma imensidão de escuridão, quebrada de tempos em tempos pela técnica de holofote utilizada para navegação em rios.

Fiquei ali por uns 30, 40 minutos, apreciando o nada e ouvindo --até certo ponto--, o silêncio. Olhei para estibordo e um pequeno barquinho aparecia no horizonte. Iríamos passar ao seu lado. Navegamos mais 10, 15 minutos e o barquinho sempre lá, ainda há certa distância mas cada vez mais próximo de nosso navio. Agora parecia que ele mudava de rumo, como se fosse cortar o rio de uma margem à outra. De repente, o silêncio total e absoluto foi estabelecido. O motor foi desligado. Por uma fração de segundos, lembrei da estória que haviam me contato sobre estarmos navegando com 1 só motor, pois o segundo estava quebrado. Pensei, é claro, no cronograma. "Quanto tempo levaria para arrumar este motor??" Meu pensamento foi interrompido por um pequeno tranco e novamente com o barulho do motor. Só que desta vez o ronco era outro. Estava em potência total e nos empurrava em direção oposta a qual estávamos navegando. Agora a força era para esquerda e para trás. Para trás?? Não fazia sentido. Olhei novamente para estibordo e vi aquele barquinho. Realizei que na verdade 'o barquinho' era o empurrador de uma monstruosa balsa, com dezenas de metros e toneladas de aço que neste momento, cruzava nosso caminho.

Acompanhava esta embarcação a um tempo razoavel e não havia qualquer indicação luminosa de que estivesse empurrando uma balsa. Na noite escura que fazia, tudo o que conseguia ver era o próprio empurrador. No exato momento em que nosso comandante percebeu a balsa e reverteu os motores a toda força, o barco usou o holofote para nos avisar que havia a balsa. Tarde demais. Ainda havia um espaço considerável entre nosso navio e a balsa mas em se tratando de dois monstros navegando embalados pelas correntes do Amazonas, a coisa não é assim tão simples. A reação das embarcações a um comando é mais lento do que se imagina. Olhava tudo de cima. Vi o navio tentando virando para um lado, o empurrador mandando a balsa para outro. Era uma cena nonsense. Havia ainda bom espaço entre nós, os esforços para se livrar da batida era de ambos os comandantes mas no fundo, sabia que íamos bater. Estávamos cada vez mais próximos e a tentativa de mudar o curso foi em vão. Uns 40, 50 segundos se passaram e então veio o choque.

Lá de cima, parecia que seria uma batidinha, um arranhão. Nao estávamos rapido. No entanto, quando se fala em toneladas de ferro e aço, o impacto tende a ser proporcional. O navio bateu de frente com a balsa que cruzava nosso caminho. Os cabos de aço que ligavam o empurrador à balsa faiscaram e estouraram. Neste momento achei que o barco (empurrador) iria virar. Balançou forte, de um lado para outro. Os marinheiros se seguravam como podiam. Do nosso lado, tive a sensação de um terremoto. Um grande tremor no navio. As redes balançaram muito e logo vieram os primeiros curiosos assustadissimos olhar o que acontecia. O primeiro forte impacto de nosso navio, empurrou a balsa e a fez desviar de curso de forma que ela nos bateu uma segunda vez, agora ao lado da embarcação. Todos assustados, motores desligados. Os tripulantes de ambas embarcações jogaram cordas e atracaram em conjunto.

Estrago provocado no Catamarã pelo abalroamento com uma balsa, no meio do Amazonas

Em pouco tempo a Marinha chegou. Vieram barcos, iate, bote com dezenas de militares. Subiram a bordo e avaliaram o que havia ocorrido, os danos provocados, fizeram perícia, analisaram as estruturas. Ficamos ali com a Marinha do Brasil, umas 2, 3 horas. Felizmente e com muita sorte (segundo a Marinha) o abalroamento não trouxe maiores consequências. Nao houve qualquer tipo de vítima. Aparentemente as duas embarcações se chocaram no melhor ponto possível: alguns metros para lá ou para cá, poderia ter ocorrido uma tragédia de grandes proporções. Nosso catamarã tinha capacidade para levar mais de 700 pessoas.

Depois de tudo devidamente periciado, fomos liberados para seguir viagem por volta das 02AM.

Emoção demais para um dia, me juntei ao Maeda e fui dormir. No dia seguinte acordei bem cedo, umas 05:10. Queria a luz da manhã para algumas fotos. Esta é uma delas. Névoa, água e sol no meio do maior rio do planeta.

Rio Amazonas, 05:30AM. Névoa, água e sol

Este post foi feito ao som de Aerosmith - 2002 - O, Yeah! The Ultimate Aerosmith Hits

  
  

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Jose maria baia da. Rocha

Jose maria baia da. Rocha

15/10/2010 22:58:02
Uma balsa,ha alguns anos atras,atropelou o Principe do Amazonas e o colocou no fundo,ja soubemos de varios casos dessa naturesa,eu pergunto:porque continua acontecendo acidentes que poderiam serevitados,simplesmente com iluminaçao de balisamento.Ja presenciei uma balsa,indo para Santerem,vinda de Monte Alegre,sem o menor balisamento,por coincidencia eu estava no Principe do Amazonas,no mesmo sentido,como pode?Obrigado pela oportunidade