Terceiro dia de expedição - destino: Porto Velho

Acordamos as 03:30, tomamos café e as 04:06 partimos de Rondonópolis (MT) com destino à capital de Rondonia, Porto Velho.

  
  

Bonne nuit!

Já começo me explicando. Em relação aos acontecimentos, este blog esta 2 dias atrasados.

Achei que chegando em Porto Velho teria mais tempo de escrever. Afinal de contas, não teria mais que me preocupar com as duras jornadas ao longo das rodovias do Norte. No entanto, aconteceu exatamente o contrário. O Maeda encontrou por aqui amigos que não via ha muito tempo. Estes amigos, os 'dois João' são pessoas extraordinárias que estão nos levando a absolutamente todos os lugares mais legais de Porto Velho. Passamos o dia pra la e pra ca, conversando, conhecendo a cidade, tirando fotos, vendo rios, cachoeiras, construçoes e tudo mais. Mas deixa pra lá que isto será assunto de próximos posts.

Descrição

Vamos lá. Dia 04/05, terceiro dia da expedição.
Acordamos as 03:30, tomamos café e as 04:06 partimos de Rondonópolis (MT) com destino à capital de Rondonia, Porto Velho.

Minha irmã nos falou sobre uma estrada recém construída, cujo asfalto era excelente, tinha uma vista linda e onde de quebra, o trânsito de caminhões estava proibido. Era também a estrada que podia nos levar à Chapada dos Guimarães. O único porém era um incremento de uns 100KM na rota. Naquele momento isso não nos pareceu nenhum problema. O benefício de pegar uma estrada sem as centenas de caminhões --o que é extremamente raro por aqui-- e de brinde levar a paisagem da Chapada, nos obrigou aceitar a sugestão na hora.

Pegamos a estrada sentido cidade de Dom Aquino e depois Campo Verde. O trajeto realmente era livre de caminhões e a vista espetacular. Dirigir ali, com o sol nascendo e sem transito de qualquer veículo, me fez sentir como se estivesse jogando Gran Turismo. A pista era sinuosa mas perfeita. Via o sol vermelho pelo retrovisor e em alguns trechos, a mata já formava um denso muro dos dois lados da estrada. Era um lugar onde o tempo era mais lento. Numa das paradas para fotos, conversamos com uns produtores de leite que estavam chegando em sua propriedade. Gente simples e como a maioria das pessoas por aqui, muito solícitas. Jogamos uns 10 minutos de conversa fora e continuamos o trajeto.

Estrada próxima à Dom Aquino - MT

Depois de Campo Verde, usamos a MT251 (hei QuatroRodas, já está toda pavimentada) e enfim fomos em direção à Chapada dos Guimarães. Em menos de 1,5 horas de viagem, tivemos alterações drásticas de paisagem. Primeiro de Serra para chapada e depois de volta à Serra. Embora a Chapada dos Guimarães seja realmente uma chapada, o que se vê lá de cima são inúmeras e impressionantes montanhas. Ela foi formada a partir de uma antiga falha tectônica, ocorrida há milhões de anos. Esta falha criou um enorme degrau que divide a planície pantaneira e o planalto central numa região que --pasmem-- já foi fundo de mar. Além de ser uma paisagem de cinema, de lá é possível ver ao fundo Cuiabá, capital do Mato Grosso. Ficamos cerca de 40 minutos parados, embriagados pela paisagem. Desci em lugares proibidos (ora, não tinha ninguém ali) e consegui ótimas fotos. Quando estávamos nos preparando para continuar a viagem, o tempo fechou e só nos ajudou a voltar mais rápido ao carro. :) Continuando a viagem, tentamos passar no Véu da Noiva mas infelizmente a estradinha de acesso estava interditada. Havia vários fiscais do IBAMA e muitas placas de proibição. Mais pra frente descobrimos conversando com um local, que houvera um grande deslizamento no Véu da Noiva e por este motivo o IBAMA interditou a área.

Chapada dos Guimarães - MT

Então tomamos novamente nosso rumo. Andamos mais cerca de 35 minutos e a alguns metros do trevo de Cuiabá paramos para abastecer. Maeda como sempre foi conversar com o frentista. Apontou para o trevo e perguntou: 'Pra onde vai aquela estrada?'. Não entendi a pergunta, pois já estava definido que deveríamos entrar em Cuibá para seguir viagem por Cáceres até chegar a fronteira com Rondonia. Quando vi os dois cochichando e olhei para a cara de incerteza do frentista, pus o fone de ouvido e liguei a musica mais alta que já ouvi. Tudo pra não passar nervoso. Maeda pegava o mapa, pedia para o frentista olhar, fazia anotações, calculava. Fingi que não via. Passados uns 3 minutos ele veio pro meu lado com uma conversa mole de que havia uma rota alternativa. Uma rota quase milagrosa, de estradas perfeitas, sem tráfego e que nos faria economizar mais de 150 KM. Não gosto de mudar de planos no meio do jogo, entao tentei faze-lo desistir da idéia de todo jeito possível. No fim, acabei me dando por vencido (já disse que o bicho é teimoso?).

O novo plano era ir em direção à Barra do Bugres e então Tangará da Serra. Ok, continuamos. Andamos, andamos e andamos. Chegamos em Barra do Bugres e paramos para almoçar. Quer dizer, parou pra almoçar. O lugar não tinha condiçoes. De verdade, num nível de 0 a 10 de frescura, sendo 0 Conan e 10 uma libélula cor-de-rosa, acho que estou no 5. Maeda está no -2. Meu problema não era com o lugar, bastante simples. Meu problema era com todo o redor. Comida estranha com cara de velha, condiçoes de higiene precárias. Aquilo era o maior parque de diversões já feito para Coliformes Fecais. Maeda me chamou de fresco e mandou ver no rango que a *distinta* senhora preparou. Ri muito quando ele levou quase 2 dias para conseguir tirar 100% do sebo de um peixe hiper grudento que ficou na mão dele. Depois ele falava pra todos e ainda reclamava: 'Nossa! Nunca vi isso. Comi no almoço de ontem e minha mão ainda tem aquele peixe... Eca...'
Ri mais um pouco e me senti vingado. :)

Almoço em Barra do Bugres

Pois bem. Ele almoçou e partimos em direção à Tangará da Serra. Ufa. Já estavamos relativamente próximos do destino. Pelo tempo de viagem já sabia que não daria pra chegar em Porto Velho mas mantinha esperanças de alcançar ao menos Ji-Paraná. Eu estava dirigindo e meu pé é realmente pesado. A idéia era passar Tangará da Serra e ir até uma cidade de nome Sapezal, já no fim do MT. Rá! Mas nada pode ser tão simples assim. Ao menos não para nós.

Como estavamos usando apenas alcool como combustivel, tínhamos que abastecer com certa frequência. Em Tangará da Serra achamos por bem completar o tanque. Conversamos novamente com o frentista (desta vez eu participei da conversa) e este nos deu uma informação bem legal. Literalmente:
'Olha seu moço, a estrada daqui pra Sapezal está interditada para reformas. Voces vao precisar pegar uma estrada de terra paralela. Ela até tá boa, acho que dá pra passar sim. Os caminhões estão levando umas 6 horas para fazer o percurso. Como vocês estão de pickup, devem fazer bem mais rapido que isso'

Pensei comigo: mais rapido? Tipo umas 4 horas???

Antes de terminar meu pensamento, ele concluiu: 'Só tem um problema. Os indios estão cobrando pedágio pra passar lá. E quem nao paga, é recebido à flechadas la na frente'.

Como devem imaginar, fiquei bastante contente.
Minha primeira reação foi: vamos voltar. Pensei, pensei e pensei. Já tinhamos andado mais de 400 KM. Voltar tudo ia ser desesperador. Conversamos sobre o assunto e como sempre, o Maeda me convenceu a continuar. Andamos mais alguns quilômetros e a estrada estava exatamente onde o frentista falou. Vimos dezenas de caminhos duplos, entrando numa pequena estradinha de terra. Os seguimos. Logo nos primeiro metros saquei qual seria a dos 80 KM de estrada de chão. O inferno na Terra. Era uma buraqueira tanta, que mal conseguia ultrapassar os caminhões que iam a cerca de 20 KM/hora.

A estrada era bastante perigosa. A terra, extremamente fina, era como um talco vermelho. As malas que estavam na caçamba, mesmo com a capa, ficaram entupidas de terra. Pior. Entrou terra dentro da mala. Sabe Deus como. Ultrapassar um caminhão era uma tarefa herculea. Nao dava pra enxergar nada 5 metros pra frente, tamanha nuvem de poeria que se levantava. Este trecho foi ao mesmo tempo emocionante, perigosos e cansativo. Quando chegou a hora de pagar o pedágio, foi na boa. Um indio muito educado que inclusive tirou foto com o Maeda. Ele se aproximou e disse: 'Vinte reais'. Nós: 'Ué, mas nos disseram que era dez reais. Aumentou?'. Ele argumentou que como a estrada estava em obras de melhoramentos (???) acharam justo aumentar para vinte reais o valor. Bom, ali não tem contra-argumento. É pagar ou voltar. Pagamos. Pagamos e índio nos devolveu um recibo (??). Sim, com CNPJ e tudo mais. No pedágio havia um funcionário da FUNAI acompanhando tudo, entao, acredito ser algo legal. De qualquer forma, foi bom. A area de reserva indigena estava bastante preservada e pudemos apreciar muitos animais silvestres, gavioes, rios cristalinos, corredeiras.

Rio no trecho de terra da BR 364. Reserva Indigena dos Parecis.

Continuando: depois de 2 horas enfrentando os 80KM de talco vermelho dos infernos (BR 364), chegamos do outro lado, à Sapezal. Parei para tirar algumas de uma plantação de girassol e bater um pouco da poeira acumulada no carro. Andamos mais umas 3, 4 horas (se nao me engano) e enfim ultrapassamos a fronteira entre Mato Grosso e Rondonia. Chegamos em Vilhena (RO) quase 21:00.

Foi um dia muito cansativo mas ao mesmo tempo, muito proveitoso. Mesmo parando bastante, rodamos mais de 1000 quilometros. Vimos inúmeras paisagens, passamos por situações engraçadas, tiramos muitas fotos, vencemos diversos obstáculos.

Agora vou dormir porque amanhã cedo (07/07) temos entrevista para o Diário da Amazônia.

Este post foi feito ao som de Jerry Lee Lewis - Live at the Star Club, Hamburg

PS: me desculpem o Português. Eu nem revisei o texto.

  
  

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