Dias 15 e 16 – Estudo sobre a comunicação humana

Maeda faz aniversário no Amazonas, tento me comunicar com franceses.

  
  

Oi!

Acordei cedo para enfim entender o que é estar no meio do rio Amazonas.

Quando era criança, me maravilhava com um especial sobre a Amazônia feito pelo Jacques Cousteau e transmitido pela Globo. Lembro que ficava acordado até altas horas da noite (ao menos parecia tarde naquela época 07 pm, 08 pm??) só esperando pelas aventuras de Dr. Cousteau. Isso deve ter criado em mim anos de expectativa velada que sequer sabia que existia. Dei uma boa olhada ao redor e era mesmo aquilo. Rio infinito, névoa matinal se misturando aos raios de sol e muita, muita mata.

Passamos pela cidade de Itacoatiara. O navio não pôde atracar no cais devido à cheia do Amazonas. A solução do comandante foi diminuir a velocidade, fazendo com que outros barcos pudesseem encostar, trocando cargas e pessoas em ambos os sentidos.

O resto do dia foi água e mato. Voltei para cabine, liguei o ar-condicionado --sim, graças ao bom Deus poderia ficar por um tempo em uma temperatura menor que a do inverno Amazonense, cerca de 37 graus. Dormi a tarde inteira. Acordei umas 07:30 pm. Tomei um banho gelado e me dirigi até o deck superior. Ja falei isso aqui mas vale a pena reforçar. O céu noturno do Amazonas é um espetáculo a parte, por muito comparável apenas ao céu de outra região extrema do planeta: deserto do saara.

Neste exato momento, passávamos por Parintins. A última cidade do Amazonas em direção ao Pará. Fiquei lá umas 2 horas e pasmem, voltei a dormir. As semanas anteriores de viagem haviam me cansado muito. Em um navio onde não há muito o que se fazer, o ideal é aproveitar para descansar. O dia seguinte era dia de festa. :-)

Acordei com o silêncio dos motores e muita conversa do lado de fora. Estava ainda amanhecendo e nosso navio havia atracado com bastante dificuldade no porto de Óbidos, primeira cidade do Pará no rio Amazonas. Ficamos ali por 1 hora. O transporte fluvial é o que se faz mais presente e obviamente é também o mais importante da região norte. Absolutamente tudo é transportado nestes grandes rios (Madeira, Tapajós, Negro, Solimões, Amazonas). Do trigo à tratores, de gado à petróleo, de pessoas à caminhões. Está tudo la, sendo empurrado por balsas rio afora.

Óbidos tomada pelas águas, primeira cidade do Pará descendo o rio do Amazonas

Fui atrás do Maeda para cumprimentá-lo pelo seu aniversário. Enfim ele realizava um sonho. Completava exatos 60 anos navegando no Amazonas. Maior felicidade para o bicho era impossível. Andei o navio e o encontrei sentado no bar com seu agora bom amigo Sr. Eliseu. Aproveitou e nos contou uma história que ficou gravada em sua memória.

"Na época de minha infância não era comum comemorar aniversários", disse.

Continuou: "No entanto, consigo me lembrar de um dia em especial. Estava fazendo 9 ou 10 anos, era domingo e chovia muito. Para comemorar, minha mãe havia feito uma bela macarronada. Daquele almoço-aniversário participava também um senhor que tinha uma prótese na perna e era conhecido como Brito-Perna-de-Pau. Ele olhou fundo em meus olhos e me deu os parabéns. Não sabia exatamente o que devia responder, assim me mantive calado. Então ele novamente olha para mim e diz fazer aniversário em dia de chuva dá muita sorte, por toda a vida do aniversariante. Me aliviei e aquela bobagem me deixou feliz por muito tempo." O detalhe crucial desta história, é que neste dia choveu muito durante todo o trajeto de nosso navio. Maeda se mostrou extremamente feliz.

Navegamos mais um tantão durante a tarde chuvosa. Não havia muito o que fazer. Conheci um casal de franceses que viajavam ha quase 6 meses e estavam passando por toda a américa do sul. Ficamos jogando conversa fora (eles não falavam inglês então tive de me virar com um portunhol mal falado). De qualquer forma, nestas situações o ser humano tem uma grande capacidade de se adaptar. Depois de 1 hora com alguns grunhidos a sinapse é feita e a comunicação entre as partes é estabelecida de alguma forma. Muita gente tem medo de viajar para determinado lugar só por não falar a lingua local. Eu digo: se esforcem, sejam simpáticos, gesticulem. Ora bolas! Os mais antigos vestígios de hominídeos encontrados pelos arqueólogos datam de mais de 500 mil anos, sendo que o paleolítico começou há dois milhões de anos. A linguagem do homem paleolítico se baseava no início em gestos, sinais e desenhos e mais tarde também na voz. Estamos na Terra já há bastante tempo e se chegamos até aqui, nao precisamos ter medo de nos comunicar.

Voltando: o tempo passou mas a paisagem não. Estamos no Pará, navegando pelo rio Amazonas. Rio que a cada quiômetro percorrido fica um pouco mais largo. Água e mata para todos os lados.

Rio Amazonas: água para frente e para trás. Selva nas margens

A noite volto para lhes contar de nossa visita à Santarém e o que as fortes chuvas deste ano fizeram com a cidade.

  
  

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