Dicas: faça sua própria expedição

Agumas dicas, fora do lugar-comum, para quem quer fazer uma viagem como a Expedição Madeira.

  
  

Bom dia.

Tenho recebido um sem fim de emails com dúvidas de como proceder, qual trajeto percorrer e sobretudo o que levar, em uma viagem nos moldes da Expedição Madeira. Assim, preparei o post abaixo com dicas fora do 'lugar comum', com intuito de fazer sua aventura mais segura e de lhes dar uma solução paliativa para imprevistos que possam aparecer no decorrer da viagem.

O Brasil é um país de dimensões continentais. Bem aqui no nosso quintal temos florestas, desertos, cerrado, vastas planícies, planaltos a perder de vista, mar, montanhas. Muita gente quer viajar pra fora antes mesmo de conhecer nossas riquezas. Meu conselho é: fiquem aqui, peguem um carro, botem o pé na estrada, divirtam-se e mergulhem nas dezenas de culturas de um mesmo país. Para isso, algumas dicas podem ajudar.

1 - Planejamento
Por mais boba que seja sua viagem e há menos que você seja um milionário excentrico ou um hippie sem emprego por convicção, é necessário planejar. Saber as datas de partida e retorno, onde quer chegar, quais os pontos de parada, qual a distância a ser percorrida por dia, o que quer ver. Para a Expedição Madeira, eu criei uma rota-base que continha as principais cidades pelas quais passaríamos para completar o trajeto. Calculei a quilometragem total da viagem (parte seca e parte úmida separadamente), e dividi mais ou menos pela quantidade de dias que tínhamos para a aventura. Esta simples atitude lhe fornece grande ajuda para saber se está atrasado e portanto, deve logo partir dando continuidade a viagem ou se pode ficar mais um pouco. Outro ponto importante é o planejamento financeiro. Você precisa saber exatamente quanto tem para gastar e fazer um controle diário sobre os recursos financeiros. Eu mantive atualizado por todo este tempo a planilha de gastos da Expedição. Cada litro de combustível, cada centavo gasto em hotel, pedágio, comida e presentes iam para lá. Com esta visibilidade, você pode por exemplo, ficar em uma pensão ao invés de hotel ou ainda almoçar em lugares mais simples caso seja necessário alguma economia.

2 - Malas e Backup
É importante ter em mente que imprevistos podem acontecer. Imagindo hipoteticamente algumas situações, você consegue pensar em um plano contingencial e assim, se vier a acontecer, estará preparado para solucionar o problema e prosseguir com a viagem. Ao invés de levar malas especializadas (ex: mala só de toalhas, outra só de sapatos, outra só de roupas) tente levar malas backup, contendo um pouco de tudo que pode precisar. Desta forma, se perder uma mala ou mesmo for furtado, sempre haverá outra com condições totais de lhe atender. Poderá trocar de roupa, se secar, colocar outro sapato tranquilamente. Outra dica valiosa é colocar um saco plástico dentro da mala, de forma que suas roupas fiquem dentro do saco. Isso as manterá impermeabilizadas no caso de chuva ou se caírem n'agua. E também as manterá limpa em casos extremos de estradas de chão onde a terra vermelha vira um fino talco e entra (absurdamente!) por tudo quanto é lugar.

Graças à capacidade premonitória de minha adorável esposa e de sua mãe, não aprendemos esta lição da maneira mais difícil. Em Palmas (Tocantins), duas de nossas malas foram furtadas bem em frente ao palácio do governo. Como elas estavam no padrão de backup, não tivemos maiores problemas do que perder um punhado de roupas (muito) sujas.

3 - Dinheiro
É sempre bom ter dinheiro vivo em mãos. Muitos lugares não aceitam cheques nem cartões. O ideal é pegar uma quantia razoável, algo entre 200,00 e 500,00 e dividi-los em lugares estratégicos. Ex: porta luvas, bolso, mala, com outra pessoa. Assim, se for roubado ou mesmo perde-lo, não ficará sem nada. Uma das coisas que mais nos consumiu recursos financeiros nesta viagem foi o combustível (obviamente). Um tanque de alcool em média saía por 140,00. Sempre pagávamos em dinheiro e conforme ia acabando, parávamos em alguma cidadezinha e sacávamos mais um pouco.

4 - Carro & Combustível
Há lugares onde se anda centenas de quilômetros sem encontrar um posto. Nestes pontos, você está sujeito a um pneu estourado, um motor aquecido ou ao que é mais comum, pane seca. Durante o trajeto da Expedição Madeira encontramos alguns veículos com este problema. Para este caso, a dica é bem simples: mantenha sempre mais de meio tanque. Quando perceber que o combustível está abaixo da metade, pare no próximo posto e complete. Se seu veículo é flex, em alguns lugares recomendo abastecer com gasolina. A autonomia é muito maior que a do alcool e pode lhe render preciosos quilômetros a mais em caso de não encontrar um posto. Outro aspecto que se deve levar em consideração é a situação atual do carro. As estradas podem ser duras e por mais que se planeje, não dá pra saber exatamente o que vem pela frente. Por duas vezes, a situação das estradas informada pelo Guia estavam incorretas. Na primeira dizia que era estrada pavimentada quando na verdade era um torrão de terra esburacada. Na segunda, dizia que a estrada estava em péssima conservação e quando chegamos, era mais tapete que a Castelo Branco. Portanto, a manutenção deve estar em dia para qualquer tipo de terreno, filtros e óleo novos, freios revisados, estepe em boas condições de uso (se possível mais de um), motor e cambio ok.

5 - Mapas e noções de localização
É imprescindível sua utilização. Para a Expedição Madeira levamos dois: um detalhando todas as rodovias do Brasil, rotas alternativas, condições, postos de polícia, etc. Outro que também mostrava as estradas mas detalhava a hidrografia do país. Por ali acompanhamos toda a parte úmida da viagem. Cada paraná (rio pequeno), cada curva, cada pequeno afluente do Madeira ou Amazonas estavam esmiuçados ali. Com a ajuda do GPS pegávamos as coordenadas e encontrávamos no mapa nossa exata localização. Com isso pudemos fazer uma média histórica e saber por exemplo, quanto tempo de rio Amazonas tínhamos até Manaus, navegando a 16 KM / hora. Outra ajuda sem tamanho do uso de mapas é garantir que se está indo para a direção correta. Por vezes não há muitas sinalizações nas estradas (principalmente as estaduais e municipais), o que pode gerar uma certa ansiedade em saber se está ou não no caminho certo. Olhando no mapa e consultando a localização do sol neste momento, é possível ter indícios se está ou não indo no rumo certo.

6 - Clima e condiçoes
Se você vai navegar em rios, é melhor se manter atento às épocas de cheia e de seca. Fomos para região Amazônica em maio, no fim das cheias. Com o rio transbordando, a navegação é mais tranquila e rápida (no caso de descer o rio). Mais tranquila porque as pedras e bancos de areia do Madeira e Amazonas são tomados pela água, diminuindo bastante o risco de bater nestes perigos naturais. Apenas oara ilustrar: em época de seca ha capitães que não navegam pelo Madeira. Esperam até o próximo ano, quando as chuvas voltam, tornando a navegação mais segura. Mais rápida porque ao descer os rios, contamos com a força das correntezas empurrando as embarcaçoes. Uma viagem de Porto Velho a Manaus em época de cheia, leva de 3 a 4 dias. Em época de rio baixo, de 5 a 7 dias. Daí podemos ter uma idéia da importância das chuvas na região.

7 - Cobertores e afins
Mais uma vez a astúcia de minha adorável esposa e sua mãe se faz presente. Nunca imaginaria que numa região tão quente pudesse fazer tanto frio a noite. Quando vi o cobertor (que ela estrategicamente colocou escondido na caçamba da camionete) logo brinquei com o Maeda. "Estamos numa das regiões mais quentes do Brasil e mandaram pra gente cobertores. Só pode ser piada", disse. Piada que logo se tornou pesadelo. Bem na primeira noite a bordo do empurrador Paulão e navegando pelo Madeira, percebi que a natureza pode ser cruel. Um sol e calor de rachar a cuca durante o dia. Vento frio e carregado de umidade a noite. A temperatura variava de 36 a 16 graus em menos de 24 horas. Me encolhi, puxei o cobertor e agradeci mentalmente minha amada. 8)

8 - Remédios
Este item é sem dúvida, um dos mais importantes a ser levado em conta numa viagem como esta. Bobagens de nosso cotidiano como gripes, febre, um pequeno machucado, podem acabar com toda a aventura. Para isso, fiz um post específico, abrangendo situações que podem colocar nossa saúde em risco. Por favor, leiam-o em http://expedicaomadeira.wordpress.com/2009/04/08/sobrevivendo-as-intemperies/

Existem mais alguns pontos que gostaria de tratar aqui mas infelizmente meu tempo está escasso. Será assunto de algum próximo post.

Pessoal, obrigado novamente e podem continuar mandando os emails para exmadeira@gmail.com.

Respondo a todos com o maior prazer.

  
  

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