Borba, Palafitas e o encontro entre Amazonas e Madeira

Aqui no despedimos do Madeira e saudamos a entrada no rio Amazonas

  
  

Acordei às 03:50 am, com o Seu José conversando com o Maeda. Acho que ele tinha acabado de largar o serviço e ainda estava sem sono. Assim, nada mais justo do que nos acordar até que nós ficássemos sem sono e ele pudesse então, dormir (na verdade, Maeda havia pedido a toda a tripulação que lhe acordasse quando passássemos por alguma cidade ou vilarejo).

Naquele exato momento passávamos por Borba, cidade à margem direita do Madeira (do ponto de vista de quem o desce). Conforme nos foi explicado, Borba foi a primeira vila criada em território Amazonense, originada a partir da Aldeia do Trocano. Fundada por volta de 1728, pelo Frei João Sampaio da Companhia de Jesus. Sem dúvida, um dos mais célebres catequistas do rio Madeira. Originalmente habitavam esta região, os perigosos índios Mura. Para conseguir o povoamento de Borba, o então governador Melo de Povoas, concedia aos brancos que se casassem com as índias, alguns favores, como por exemplo, o fornecimento gratuito de instrumentos agrícolas. Segundo seu Zé, Borba possui uma impressionante e gigantesca estátua de Santo Antonio. Como ainda não havia luz do Sol, não pudemos ver muito da cidade. Apenas apreciar as luzes que refletiam no Madeira.

Este era o terceiro amanhecer à bordo do Paulão. A manhã começou com muita névoa mas logo o Sol tomou conta do céu. Peguei um café e subi até a cabine de comando para conversar com Baixinho, Monte Alegre e Maeda. O rádio estava ligado e ouvimos notícias do serviço de meteorologia, sobre Manaus. A chuva insessante não dava trégua. No entanto, pelo que pudemos observar, as cidades sofrem mais que os ribeirinhos. As cheias na região Amazônica são comuns e acontecem todos os anos. A população que vive às margens do rio já sabe o que esperar e este é o motivo de absolutamente todas as casas serem construídas no sistema de palafita. Realmente neste ano em específico, houve um aumento no nível de chuva, causando um alagamento maior que o esperado. De qualquer forma, a maioria das casas que beiram o Madeira e Amazonas, suportam a inundação. Segundo os locais, o que acontece com frequência é que, se a casa de um determinado ribeirinho for tomada pelas águas, ele se muda temporariamente para um local mais alto da mesma região, podendo inclusive ser a moradia de algum amigo ou parente. Fica lá um tempo e aguarda o nível do rio baixar (o que leva algumas semanas), retornando então à sua casa.

Às 01:30pm chegamos ao fim do Madeira, rio que havia sido nossa morada pelas últimas 72 horas. Foi especialmente difícil para o Maeda dizer adeus. O Madeira era o rio de seus sonhos e foi o principal motivador desta expedição. Deixa-lo para traz e adentrar o imponente Amazonas trazia sentimentos duplos. De um lado a satisfação de ter mais uma etapa concluída e a curiosidade do que nos esperaria dali pra frente, no maior rio do mundo. De outro, a despedida de um rio com inúmeras histórias e que em breve terá sua hidrografia alterada pelas construções das usinas de Jirau e Santo Antonio. O Madeira nunca mais será aquilo que vimos.

Houve um pequeno espetáculo: as barrentas águas do Madeira não se misturam ao verde escuro do rio Amazonas. O Madeira ficava para traz como uma forte mancha vermelha que era tomada repentinamente pelo Amazonas. Foi o primeiro encontro das águas que presenciamos. Neste momento 3 botos cinza, botos do Madeira, apareceram, brincaram e nos acompanharam por um período, como se estivessem se despedindo.

Até este momento íamos a favor das águas. Descíamos o Madeira e a correnteza ajudava a empurrar o barco e a balsa. Isto nos ajudava a manter a *veloz* velocidade de 18,5 km/hora. Entrando no Amazonas, a situação era o inverso. Subiríamos o rio até Manaus e portanto, lutaríamos contra a correnteza. A velocidade da embarcação caiu drasticamente para menos da metade. 8, 9 km/hora. Já estávamos relativamente próximos à Manaus mas neste velocidade, só deveríamos atracar la, umas 18 horas depois.

A estratégia de navegação também mudou. Antes íamos pelo canal no meio do rio, a fim de usar o máximo possível da correnteza para nos empurrar. Agora o barco passava bem rente às margens do Amazonas, de forma que sofresse menos resistência das águas contrárias. Nas próximas horas tivemos visões impressionantes, muito próximos à mais densa e selvagem floresta do mundo. Ficamos umas 3 horas ao lado da embarcação apenas contemplando o espetáculo da natureza. Os barulhos de macacos, araras e até onças impressionava. Ao mesmo tempo, separando de meus ouvidos o barulho de nosso motor à Diesel, conseguia ouvir o som do silêncio vindo da mata. Algo até certo ponto, perturbador.

  
  

Publicado por em

Graciney melo

Graciney melo

06/01/2011 11:42:52
borba e muita bonita eu adoro borba precisa fica melhor na saudeok!