Um DJ a bordo. Dia das mães no Madeira

A luz estava ótima e o sol brilhou por todo o dia. Rendeu excelentes fotos e ótimas histórias pra contar

  
  

Olá!

A primeira luz da manhã bateu em meu rosto e obrigou-me a acordar ainda de madrugada, às 05:30. Algo que a esta altura, já estava virando um costume. Abri os olhos, peguei minha inseparável câmera, levantei-me, escovei os dentes e então fui até a proa, ao lado do comandante. Já sabia o que esperar. O nascer e por do sol neste lugar são mágicos. Apontei a câmera à esmo para o mais distante horizonte e a disparei algumas vezes. Olhei para o lado e Baixinho sorriu. “E aí Paulista, dizem que quem desce o Madeira uma vez, sempre volta”, disse. Concordei com a cabeça e perguntei se queria um café. Começava enfim a adaptar-me à tripulação e a tudo o que a vida a bordo de um empurrador implica.

Nascer do Sol no Amazonas

Desci para o segundo andar do barco e Maeda dormia na rede, ao lado de seu Zé. O acordei para descermos e tomarmos café. Lá embaixo Leo e Simone já estavam acordados. O café ainda não estava pronto então achei melhor tomar um banho. Eu realmente estava parecendo um hippie sujo: tinha barro nas minhas pernas, não trocava de roupa nem tomava banho há dois dias. Não era realmente, uma visão agradável. Agora que já sabia os procedimentos à bordo, podia ir tranqüilamente. Na embarcação, logo em frente a cozinha, existe um pequeno banheiro, contando apenas com um vaso sanitário e um chuveiro. Toda a água que era consumida ali,fosse para lavar os pratos, dar descarga, resfriar o motor ou ainda tomar banho, era oriunda do próprio rio no qual estivéssemos navegando (no caso, rio Madeira, rio Amazonas ou rio Negro). Entrei no banheiro, fechei a porta com um pedaço de corda amarado à um prego e abri o chuveiro. Desde a época do exército não tomava um banho tão revigorante. Como não poderia deixar de ser, Maeda atribui este fato aos poderes mágicos do rio Madeira.

Troquei de roupa e fui tomar o café da manhã. Toda a tripulação (com exceção do comandante) já estava ali. Peguei umas 4 bolachas e uma xícara com café até a boca. Era 10 de maio, dias das mães. Já há algum tempo Maeda vinha filosofando sobre a importância da mulher (já comentei isso aqui?) na evolução da humanidade e que sem elas já teríamos sido extintos há um bom tempo. O argumento principal é em relação à fragilidade do filhote de ser humano. Ao contrário de outros animais, um ser humano poderá se virar sozinho --com muita sorte--, a partir de uns 7, 8 anos. Antes disso, se for deixado sozinho, provavelmente morrerá. Então, ele cumprimentou Simone, que também já é mãe e passou boa parte do resto do dia enfatizando como elas lutaram para vencer preconceitos, como cuidam de seus filhos e maridos, como são bonitas, elegantes e toda sorte possível de rasgação de seda. Parabéns mães.

Neste momento já estávamos bastante enturmados com o resto do pessoal. Assim, começamos a ter livre acesso a todas as áreas do empurrador e também da balsa. Eu subi para o segundo andar pra ouvir um pouco de música, enquanto Maeda foi para a popa da balsa tentar um início de amizade com Arthur, nosso segurança pitbull. Pedi para que eçe deixasse pra la, que realmente não precisava da amizade do dito-cujo, que o bicho era brabo, raivoso e não houvera recebido nenhum tipo de treinamento. Palavras em vão, é teimoso demais para ouvir qualquer um. Disse que sabia falar com todos os animais (Dr. Doolittle?) e que seria mais seguro para nós, que ele ficasse amigo de Arthur. Então disse: “Vai lá, mas se voltar sangrando não vai usar meu iodo.”(na verdade, se ele fosse mordido eu o deixaria usar... hummm... ao menos eu acho...). De onde estava conseguia ouvir todas as tentativas de comunicação entre os dois. De um lado Maeda assoviava, falava fino, falava grosso, o chamava pelo nome, fazia sons estranhos com o corpo. Do outro, Arthur apenas ladrava raivosamente, daqueles latidos que fazem o cão entrar em frenezi, se babando por inteiro. Pouco tempo depois Maeda volta. Não teve sucesso com Arthur, mas descobriu outros dois forasteiros além de nós. Eram duas patas que seu Zé estava levando para seu sítio, próximo à Manaus. Como tonto que somos, tínhamos mais em comum com as patas do que com o resto da tripulação. Desta forma, naturalmente elas foram apelidadas por nós mesmos de pata-Marcos e pata-Maeda.

O almoço foi servido pontualmente às 10:30. Simone, como toda boa profissional do ramo, nos fazia cumprir os horários à risca: café da manha às 05:30, almoço às 11:30, lanche da tarde às 15:00 e jantar às 17:30. Além das refeições, ela também era responsável pela limpeza da embarcação, por todos os mantimentos e era quem dava a palavra final sobre o que Eduardo deveria trazer das cidades ou comunidades na qual passávamos. Na prática, funciona assim: se por exemplo, o gás acaba, Simone identifica a situação, pega o dinheiro e pede ao operador da Voadeira (Eduardo) ir buscar um botijão na cidade mais próxima. Como o empurrador é uma embarcação lenta, de média histórica de 16,8 km/hora, sair de Voadeira foi uma situação bastante comum. Ela é desacoplada da nave-mae próximo a alguma cidade, vai até o porto mais próximo, compra o que deve ser comprado e volta à nave, sem que haja necessidade de parada ou manobra do empurrador e por conseqüência, da balsa.

Nosso habitat a bordo do

Depois do almoço voltei para meu cantinho com o intuito de escrever algo. Abri o notebook e nego Leo logo apareceu ao meu lado. Deu uma boa olhada no que estava fazendo e então começou a contar sua história. Era sua segunda viagem naquela embarcação e com tal tripulação. Ele é um carioca, do alto de seus 21 anos e que já rodou por quase todo o Brasil, assim como, alguns países da América do Sul. Pelo que me falou, a abordagem era sempre a mesma: ia até os portos e procurava por balsas que estivessem sendo carregadas para viagem, independente de onde fosse seu destino. Então, passava um tempo ali, olhando todo o movimento. Quando descobria quem era o responsável pela embarcação, oferecia seus serviços de limpeza da balsa após o descarregamento, quando chegasse ao seu destino final. Desta forma ele viajou. E muito. Conhece de Santa Catarina até o Ceará, passou por absolutamente todos os estados da região Norte. O mais impressionante é que ele guarda os detalhes de cada cidadezinha por onde passou, seja ela famosa ou apenas um pontinho a mais no mapa. Já foi para o Chile, Argentina, Peru, Venezuela, Guiana Francesa. Entretanto, o que mais me intrigou foi o que me contou em seguida. Disse que gostava mesmo era de ser DJ. Achei estranho. Um DJ pseudo-marinheiro que leva uma vida de hippie dos mares e rios. Olhou pra mim e mandou um ‘peraí’. Desceu e rapidamente retornou com alguns DVDs na mão. Eram realmente softwares de Dj, de criação e mixagem de trilhas. Nada triviais de serem utilizados. Perguntou se poderia instalar no notebook. Com a curiosidade que estava, obviamente permiti. Pegou o computador da minha e pôs o primeiro disco. Passou pelo processo de instalação (em alemão!) tranqüilamente. Não sabia bulhufas o que estava escrito mas disse que ‘havia decorado onde clicar’. Instalação feita, abriu o programa (também em alemão) e começou a me mostrar como criar uma faixa. Nota do autor: quem já trabalhou com softwares de estúdio, sabe que em sua maioria, não são user-friendly. Este também não era. 3 horas se passaram com Nego Leo clicando e arrastando coisas para tudo quanto era lugar. Aumentava e diminuía spectros, incluía instrumentos, acertava o bpm das baterias. Tudo com a maior naturalidade. Enfim, me chamou de volta para mostrar o que tinha criado. Uma trilha interessante, com guitarras e tudo mais. Me impressionei e aprovei. Tinha contado esta história para o Maeda mas ele também não havia botado muita fé. Quando ouviu a composição de Nego Leo, arregalou tanto seus olhos que deixou para trás gerações de japoneses. Se impressionou e parabenizou Leo.

Este episódio ajudou o dia a passar mais rápido. Olhei no relógio, eram 05pm. O sol começava a baixar e a luz se tornara perfeita para fotos. Desci até a casa das máquinas (o mais perto possível que ficávamos da água) e capturei muitas boas imagens. Os botos do Madeira --um boto cinza que não existe em outra região do planeta--, se mostravam como se soubessem que estava ali. Subiam na superfície e eu apontava a câmera esperando a próxima. Nada. Ficava lá 15, 20 minutos com a lente apontada e nada. Desligava a câmera. Eles apareciam. Todos subiam juntos, fazendo barulhos, um verdadeiro espetáculo da vida selvagem. Me empolgava e apontava a câmera novamente. Nada. Sumiam. Malditos botos cinza. Gostavam mesmo era de privacidade. Não lhes agradava a idéia de ter um paparazzo à espreita, apenas esperando sua próxima respiração. No fim, consegui apenas uma foto, de um único boto e muito mal tirada. Mas tudo bem. O que meus olhos viram, está comigo.

Nego Leo, nosso marinheiro DJ

Neste dia não jantei. Salvo engano de minha parte, o jantar era tipo um mocotó, com as patas do boi boiando por lá. Simone chamava o prato de Panelada. Maeda adorou e repetiu por 3 vezes. Comi um pacotinho de club social, uma barra de cereais, tomei café e fumei, o que pra minha infelicidade estava se tornando cada vez mais comum. As vezes as horas demoram a passar e não há muito o que se fazer num espaço reduzido. Nas embarcações, as pessoas fumam demais. Cigarro e café são bons companheiros.

Subimos, eu e Maeda, e ficamos conversando com Baixinho e Monte Alegre. As duas pessoas que mais conheciam do canal, de navegação, do rio e do barco. A noite no amazonas é linda. Mesmo que não haja lua, as estrelas clareiam o céu, o leito e as margens da floresta. É uma coisa realmente única e como algum twitter me disse, o único céu noturno que talvez seja comparável ao do Amazonas (tamanha quantidade de estrelas) é o do Saara.

Fomos dormir tarde. Por volta das 08:30pm.

Este post foi feito ao som de Mettalica – “... And Justice for all”

  
  

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