PN das Sempre-Vivas - MG

Grandes aglomerados rochosos e um complexo mosaico de tipologias vegetais.

  
  

Imagine no passado um lugar onde milhares de garimpeiros se instalaram em busca de grandes diamantes, sonhando com a riqueza repentina trazida na ponta da picareta. O brilho dos diamantes ainda reluz nesta região, mas agora na exuberante natureza que vem sendo desvendada aos poucos nos arredores da cidade de Diamantina, no norte de Minas Gerais. O município ainda reflete estes tempos de muita riqueza, época em que milhares de viajantes se instalaram na região na busca incessante das valiosas pedras. Como várias outras cidades de Minas, Diamantina preserva seu maior tesouro: as igrejas ornamentadas com obras de pintores e escultores da época que resgatam o clima histórico deste período. Diamantina é hoje o início de um roteiro que foi criado para alavancar o turismo de várias regiões de Minas, e agora é chamado de Estrada Real. A estrada se refere, porém, ao caminho que o ouro fazia até a cidade de Paraty, no Rio de Janeiro, onde era embarcado para Portugal. Muitas cidades passaram por reformas, casas e igrejas foram restauradas e alguns pontos turísticos foram reestruturados. Todas estas ações, juntamente com um grande marketing estão atraindo e chamando a atenção de brasileiros e estrangeiros que buscam viajar e conhecer um pouco mais da história do Brasil.

A Serra do Galho marca a chegada no parque e pertence a Cordilheira do Espinhaço

A Serra do Galho marca a chegada no parque e pertence a Cordilheira do Espinhaço
Foto: Eduardo Issa

Ao lado de toda esta história, a região também tem nos seus limites um quase desconhecido parque nacional, que abriga grandes aglomerados rochosos e um complexo mosaico de tipologias vegetais. O parque Nacional das Sempre-Vivas foi criado em dezembro de 2002, protegendo uma área de 124.555 hectares, inserida em 4 municípios: Diamantina, Buenópolis, Bocaiúva e Olhos D`água. As áreas apresentam fisionomias diferentes, contendo registros de mata densa de fundo de vale, campos rupestres de altitude e uma grande concentração de nascentes, entre elas a do Rio Jequetinhonha. Atualmente o parque ainda está em fase de implantação e permanece fechado à visitação pública, qualquer incursão nesta área dever ser autorizada pela chefia da unidade em Diamantina.

A colheita das sempre-vivas faz parte da cultura dos moradores do entorno

A colheita das sempre-vivas faz parte da cultura dos moradores do entorno
Foto: Eduardo Issa

O acesso mais fácil à unidade se dá pelo distrito de São João da Chapada e depois pelo povoado dos Macacos, onde cerca de 50 pessoas, a maioria idosos, vive tranqüilamente da aposentadoria e de pequenos negócios. Os mais jovens abandonaram o lugar e partiram em busca de estudo e dos atrativos da cidade grande. Depois de algumas horas em estradas precárias, mas com um visual impressionante, já é possível observar os contornos da Serra do Galho, dentro da extensa Cordilheira do Espinhaço. Nesta região, a antiga casa da Fazenda Kolping, serve como ponto de apoio para a recém criada brigada de incêndio do parque. Para todos os lados, as montanhas rochosas fazem parte da paisagem, dividindo espaço com campos floridos e árvores contorcidas.

O pôr-do-sol se integra aos elementos da natureza e proporciona espetáculo

O pôr-do-sol se integra aos elementos da natureza e proporciona espetáculo
Foto: Eduardo Issa

Partindo da sede da Kolping por trilhas em carro tracionado, por 2 horas cruzando campos rupestres se chega na Mata do Gavião, uma floresta de árvores frondosas e mata densa, uma paisagem bem diferente das outras regiões da unidade. Seguindo para os outros municípios como Buenópolis, passando pelo povoado de Curimataí, amostras de que o futuro por aqui ainda não chegou. Alugar uma casa `na beira do rego` significa apenas uma residência com um pequeno córrego de água potável passando na frente. No alto do povoado a Cachoeira de Curimataí além de belíssima é a responsável pela água potável que forma o `rego` e abastece as casas dos moradores.

O Rio Inhacica, no leste do parque, uma das mais belas paisagens da região

O Rio Inhacica, no leste do parque, uma das mais belas paisagens da região
Foto: Eduardo Issa

Na parte alta do parque, meio a tantas formações, uma espécie florística de aparente fragilidade brota nos campos rupestres. A pequena flor, uma das mais resistente do planeta, não é por acaso que ficou conhecida como sempre-viva, depois de colhida ela pode durar até 70 anos sem perder sua beleza. Estas características fizeram desta flor uma espécie muito procurada em algumas regiões do Brasil, especialmente nas proximidades da cidade de Diamantina e acabou dando nome ao parque nacional. Vale ressaltar que 70 % das sempre-vivas do mundo estão concentradas nesta cordilheira, um dos grandes apelos para a criação do parque. Muitas outras espécies de flores também estão nesta área e colorem a vegetação.

É fácil perceber a enorme variedade de flores nos campos rupestres

É fácil perceber a enorme variedade de flores nos campos rupestres
Foto: Eduardo Issa

Por aqui, as sempre-vivas estão ameaçadas simplesmente por serem lindas demais, pois por muitos anos, toneladas de flores vêm sendo colhidas para ornamentar casas, presentes e para confecção de arranjos. Andando pelas ruas de Diamantina, o casario antigo e bem conservado abriga lojas e vendedores de rua comercializando arranjos e flores. Para Eliana, extrativista de flores e moradora do pequeno povoado dos Macacos, no entorno do parque, a colheita de sempre-vivas, jazidas, estrelinhas, botões branco sempre fez parte da história da sua família, seus avós já colhiam as flores na região e vendiam no mercado de Diamantina e para atravessadores. É fácil perceber que este comércio faz parte da cultura local e funcionários do Ibama vêm estudando uma alternativa para tornar esta retirada viável e sustentável.

Para Cláudio Machado, chefe do parque, o primeiro passo já foi dado, na comunidade de Galheiros, um projeto experimental de cultivo de algumas espécies de flores já rendeu sua primeira colheita. Uma Associação foi criada e recebe apoio de órgãos municipais e estaduais, crescendo de forma ordenada e com orientação de especialistas. Cláudio acredita que este é o melhor caminho para que moradores dos arredores deixem gradativamente de colher as flores exclusivamente dentro da área do parque. Muitas famílias têm sua renda baseada na venda das sempre-vivas e é preciso encontrar uma alternativa sustentável para esta população.

A beleza do parque é bem mais que apenas flores, algumas paisagens são espetaculares, uma delas está na parte leste, onde o Rio Inhacica, tributário do Rio Jequetinhonha, serpenteia um conjunto de rochas que foram despencando do alto dos penhascos e agora fazem parte do rio. Todo cuidado é pouco, navegar por estas águas requer conhecimento e muita atenção, as rochas dentro d`água podem danificar a hélice do motor do barco. O trecho é relativamente pequeno, cerca de 3 quilômetros, mas a paisagem parece uma pintura da natureza. Rochas claras com partes submersas contrastam o azul intenso do rio, o verde da mata nas margens e ao fundo rochas mais escuras compõem este cenário intrigante.

Na verdade, esta região é sem dúvida a mais bela do parque, se você achou pouco há também uma cachoeira que escorre por uma espécie de mármore branco que foi sendo polido pela água por milhares de anos. As águas da cachoeira caem num poço de águas escuras e são ótimas para banho. No rio Inhaciquinha, um pequeno braço do Inhacica, outra bela cachoeira mesclada com a vegetação se desmancha numa praia de areias branquíssimas, outro paraíso intocável da unidade. Nestas andanças por parques nacionais pouco conhecidos e com expectativas mínimas, a passagem pelo Sempre-Vivas demonstrou que o nosso Brasil ainda tem muitos diamantes a serem lapidados. Podemos dizer que o Parque Nacional das Sempre-vivas é uma jóia rara e que não tem valor na mão de garimpeiros e atravessadores, mas sim no olhar, no encanto e no deslumbramento que estes lugares trazem para a alma de quem os conhece.

Seguindo para o PN da Serra da Canastra - MG

  
  

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