Jeremoabo e Canudos / BA - Santuário das últimas Araras-azuis-de-lear

A primeira citação da arara-azul-de-lear data de 1858, quando Charles Lucien Bonaparte, sobrinho de Napoleão, a partir de um exemplar do Museu de História Natural de Paris e de uma ilustração feita pelo poeta e ilustrador britânico Edward Lear, que a

  
  

Vôo de Esperança

Os enormes paredões do Raso da Catarina servem de abrigo e paranidificação das araras

Os enormes paredões do Raso da Catarina servem de abrigo e paranidificação das araras
Foto: Eduardo Issa

Uma ótima notícia ecoa dos grandes paredões do Raso da Catarina e alça um vôo de esperança pelo Estado da Bahia : `A população de Araras-azuis-de-lear cresceu significativamente nos últimos anos`. A notícia vem dos técnicos do CEMAVE (Centro Nacional de Pesquisas para Conservação das Aves Silvestres) órgão ligado ao IBAMA, que acabam de realizar um censo nas regiões de Serra Branca, em Jeremoabo, e Toca Velha, em Canudos. Os dois municípios estão no Nordeste da Bahia, locais onde as araras escolheram como dormitório e área de reprodução e se tornou o último reduto da espécie.

O azul intenso na plumagem e o amarelo ao lado do bico identificam esta espécie

O azul intenso na plumagem e o amarelo ao lado do bico identificam esta espécie
Foto: Eduardo Issa

O trabalho foi realizado por 20 pessoas, entre técnicos e voluntários, que durante quatro dias acompanharam a chegada e saída destas aves em 9 locais diferentes e simultaneamente. O trabalho é intenso e é necessário muita atenção na contagem dos indivíduos, onde qualquer descuido algum casal pode ser contado em duplicidade gerando diferenças na contagem final. As araras acordam cedo, a partir das 5 da manhã elas saem dos ninhos voando e vocalizando, normalmente em duplas, em direção a áreas de alimentação e descanso. Os técnicos acordam por volta de três e meia da manhã e seguem na escuridão para os locais de observação, sempre camuflados entre árvores e folhagens. É normal observadores ficarem desconfortavelmente trepados em árvores por horas, com seus binóculos, acompanhando o vôo matinal das aves. Trilhas no meio da mata fechada levam a alguns pontos de observação, caminhar de madrugada entre urtigas e unhas de gato, plantas típicas da caatinga, castigam os pesquisadores, que retornam quase sempre com arranhões pelo corpo. No período da tarde, os técnicos voltam aos locais e a partir das 17 horas, neste horário as silhuetas das aves voltam a marcar o céu, são os bandos retornando para repousar nas cavidades dos imensos paredões. A contagem é feita durante os 4 dias de operação, e as duplas de pesquisadores se revezam nos locais, isto diminui a margem de erro. Para Eurivaldo Alves, o `Caboclo`, que trabalha na área de Canudos, numa propriedade da ONG Biodiversitas, os números dos censos anteriores não correspondiam com a realidade, pois a forma de contagem e as pessoas que realizavam o trabalho não tinham muita experiência. Para Caboclo, um dos pioneiros neste tipo de levantamento e profundo conhecedor das araras na região, o número atual de 500 indivíduos é coerente e foi levantado por pessoas experientes dando credibilidade a contagem. Caboclo conta ainda que um dos momentos mais marcantes do seu trabalho com as araras foi acompanhar o nascimento de dois filhotes, desde a saída dos ovos até o primeiro vôo, após 50 dias do nascimento. `Fiquei emocionado quando vi o filhote sair do ninho e se jogar por entre os paredões em seu primeiro vôo`, disse Caboclo, orgulhoso de ter presenciado aquele momento. As araras quando estão em seus ninhos se tornam extremamente ariscas e desconfiadas, a qualquer barulho estranho ou a presença de alguém, elas saem do ninho e só voltam quando não há mais nenhum sinal de perigo ou ameaça. Fiquei monitorando um destes ninhos na região de Canudos, depois da saída do casal com a minha presença, me escondi debaixo de uma árvore, entre galhos, totalmente coberto e só depois de quase 2 horas, o casal foi se aproximando, com todo cuidado, sem me ver é claro, retornando aos poucos para o ninho. Consegui registrar o namoro na porta do ninho, o macho cortejando a fêmea e depois os dois partiram para dentro da fenda, em busca de privacidade e sossego.

Ao amanhecer, as araras partem vocalizando para outras regiões em busca de alimento

Ao amanhecer, as araras partem vocalizando para outras regiões em busca de alimento
Foto: Eduardo Issa

A primeira citação da arara-azul-de-lear data de 1858, quando Charles Lucien Bonaparte, sobrinho de Napoleão, a partir de um exemplar do Museu de História Natural de Paris e de uma ilustração feita pelo poeta e ilustrador britânico Edward Lear, que acabou tendo o seu nome na espécie. Por esta razão alguns estudiosos se referem à espécie como arara de `Liar` pronuncia do nome em inglês. Outra característica desta arara é de não dormir empoleirada como várias outras espécies, elas procuram abrigo nas fendas das
rochas.

Quando estão no ninho, as araras passam quase que o dia todo dentro do buraco

Quando estão no ninho, as araras passam quase que o dia todo dentro do buraco
Foto: Eduardo Issa

Os paredões das chapadas, com altitudes de 300 a 800 metros, são cheios de fendas e buracos que servem de abrigos e nidificação para as aves. Durante o período de reprodução, os casais se separam do bando e passam praticamente o dia inteiro nos ninhos. Depois do nascimento dos filhotes, dois em média, os casais dividem os cuidados com os filhotes e os machos são fiéis às fêmeas.A área de alimentação se concentra nos arredores do município de Euclides da Cunha, com isso forma-se um triângulo entre as 3 cidades, onde as araras voam cerca de 70 quilômetros diariamente. A alimentação das araras é baseada no licuri, um coquinho tirado de uma palmeira, o licurizeiro, abundante nesta área. As araras retiram o licuri, que tem uma casca dura e fazem um corte transversal preciso para comer a poupa interna. As araras também costumam visitar as plantações de milho dos pequenos agricultores da região.

O principal alimento da espécie é o coco do licuri, o licurizeiro é uma palmeira abundante nesta região

O principal alimento da espécie é o coco do licuri, o licurizeiro é uma palmeira abundante nesta região
Foto: Eduardo Issa

Os paredões de arenito destas regiões hospedam os ninhos e fazem parte de um cenário grandioso e deslumbrante, onde o tempo e o vento se encarregaram de esculpir as rochas, realçando as cores, abrindo cavidades e sobrepondo camadas que mudam de cor com a incidência da luz solar. Periquitos, falcões e o imponente urubu-rei também utilizam as paredes como moradia e ninho. A leveza do vôo do urubu-rei, com suas asas brancas e extremidades negras é uma das mais belas imagens deste santuário.

O Brasil é considerado um dos países mais ricos em aves da classe dos psitacídeos, que inclui araras, maritacas, papagaios e periquitos. Por outro lado, o Brasil também possui o maior percentual de aves desta família ameaçadas de extinção, e os motivos são os piores possíveis, perda de seu habitat natural e a ação de traficantes. Em 2005, um homem foi preso no aeroporto de Guarulhos, em São Paulo, com três casais, e segundo especialistas, a dificuldade em identificar fêmea ou macho, faz com que os traficantes capturem muitas aves e só depois separam os casais. O Ibama tem intensificado a fiscalização em cidades onde as aves costumam ser comercializadas e realiza operações dentro do Raso da Catarina, coibindo a ação dos traficantes, os `apanhadores de araras` como são conhecidos. Eles escalam os paredões e capturam os filhotes nos ninhos e posteriormente negociam com colecionadores ilegais, alimentando este mercado milionário e devastador no Brasil e exterior.

A ararinha-azul, espécie de menor tamanho mas muito confundida com a Lear já está extinta na natureza, são encontradas apenas com alguns criadores particulares como um Xeique do Oriente Médio, que tem no seu zoológico particular 4 indivíduos.

Para Elivan Santos, do CEMAVE-IBAMA, `Os números atuais do censo mostram um crescimento real do número de indivíduos e colocam os técnicos numa situação confortável em relação ao risco de extinção`, conclui o pesquisador.

Temos certeza que as ações conservacionistas e o trabalho de monitoramento dos voluntários e pesquisadores do CEMAVE e da Biodiversitas vêm sendo imprescindível para a proteção e aumento da população das araras-azuis-de-lear, só assim teremos a certeza de que esta espécie vai continuar voando livremente sobre os grandes paredões do nordeste da Bahia.

Agradecimentos aos pesquisadores
Elivan, Andrei, Joaquim e Andreza - CEMAVE
Caboclo e Tânia - Biodiversitas

Seguindo para o PN Nascentes do Rio Parnaíba - Piauí

  
  

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