No Dedo de Deus, mais perto do Céu !

Desde que comecei planejar a visita ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos, incluí no roteiro a possibilidade de escalar aquele pico que sempre me impressionou durante a minha passagem pela região.

  
  

Desde que comecei planejar a visita ao Parque Nacional da Serra dos Órgãos, incluí no roteiro a possibilidade de escalar aquele pico que sempre me impressionou durante a minha passagem pela região. De carro, aquela formação parecia que me observava à medida que eu cruzava a estrada aos pés daquele conjunto de montanhas. O Dedo de Deus com seus 1.692 metros de altitude não é a mais alta formação da Serra dos Órgãos, mas é a mais conhecida e a escalada até o topo é uma conquista para poucos. Amadores e aventureiros com certeza ficam pelo caminho, pois alguns trechos exigem muita técnica e habilidade para serem transpostos.

Os alpinistas Carlos Boca e Adriano, me conduziram com experiência e segurança até o topo.

Os alpinistas Carlos Boca e Adriano, me conduziram com experiência e segurança até o topo.
Foto: Eduardo Issa

O meu contato com o alpinismo teve início na Pedra do Baú, em Campos do Jordão, onde Marcelo Medeiros, um amigo alpinista, passou um pouco da sua experiência e me guiou com segurança ao topo do Baú. Mesmo sabendo das dificuldades da subida ao Dedo de Deus e tendo na minha bagagem algumas escaladas menos técnicas entre elas o Pico de Agulhas Negras e Morro do Altar (Itatiaia), Pico da Neblina (Amazonas) e Monte Roraima (Roraima), corri atrás do desafio. Entrei em contato com o CEP, Centro Excursionista de Petrópolis, tentando programar uma subida ao pico com o auxílio de alpinistas experientes. Considerando que eu só estaria no mês de junho na área do parque, teria que ser neste período. Conversando com o Ivan, um dos membros do CEP, ele me adiantou que o mês de junho já estava com uma programação fechada e não seria possível uma escalada nesta época.

Vistos de longe os alpinistas somem nas fendas da grande rocha (seta vermelha).

Vistos de longe os alpinistas somem nas fendas da grande rocha (seta vermelha).
Foto: Eduardo Issa

Fiquei decepcionado, mas não desisti da subida, fui registrando outros pontos do parque, aproveitando o tempo bom destes meses de inverno. Na sexta feira do último final de semana que estaria no parque, fiquei sabendo que dois alpinistas que trabalhavam na brigada de incêndio da unidade subiriam na base do Dedo de Deus para a retirada de uma faixa. Entrei em contato com o Carlos Boca, um dos escaladores, e perguntei se poderíamos ir até o topo. Carlos conversou com Adriano, que o acompanharia na escalada e fechamos a empreitada. Subiríamos até o topo do Dedo e na descida iríamos retirar a faixa. Boca já subiu mais de 50 vezes o Dedo e Adriano, menos experiente, encararia o desafio pela primeira vez como eu. Mestre e aprendiz, seriam os guias que me levariam ao cume. Dormi com aquela imagem da silhueta do Dedo de Deus na minha cabeça e deixei tudo preparado para a saída as 6:00 da manhã.

As dificeis chaminés são duas paredes onde o alpinista tem que subir utlizando técnicas de escalada.

As dificeis chaminés são duas paredes onde o alpinista tem que subir utlizando técnicas de escalada.
Foto: Eduardo Issa

No dia seguinte, com o sol despontando ainda meio tímido, um frio intenso, pegamos a estrada e descemos alguns quilômetros pela serra e paramos o carro 500 metros antes do início da trilha. Com os meus equipamentos pesados, como sempre, seguimos por aquela trilha íngreme e cansativa que levaria até o `Polegar`, uma outra montanha ao lado do Dedo. Pela trilha muitos cabos de aço foram colocados para auxiliar na subida dos imensos paredões. Uma curiosidade é que estes cabos colocados na rocha vieram do Bondinho do Pão de Açúcar, no Rio de Janeiro.

Depois de todo esforço, o registro obrigatório no cume.

Depois de todo esforço, o registro obrigatório no cume.
Foto: Eduardo Issa

Após serem substituídos por motivo de segurança, eles foram trazidos para Teresópolis e colocados nas paredes que antecedem a escalada final. Como os cabos são utilizados apenas como apoio, não há nenhum risco de ruptura, pois no Rio eles transportavam uma carga altíssima, bem diferente daqui. A partir do Polegar a escalada é feita com equipamentos de alpinismo, que garante a segurança em passagens onde ficamos expostos e é preciso muita atenção. Numa destas passagens, Boca relata que um alpinista de Teresópolis sofreu uma queda de mais de 10 metros de altura, resultando em ferimentos graves, tendo afundamento de crânio e várias fraturas, ficando por dez horas aguardando o resgate.

No final do dia, a bela imagem da Baía de Guanabara vista do Dedo de Deus.

No final do dia, a bela imagem da Baía de Guanabara vista do Dedo de Deus.
Foto: Eduardo Issa

Boca participou do resgate e junto com mais 3 voluntários, levou o alpinista para o alto onde foi retirado de helicóptero e levado para o hospital. Estes relatos serviram para que eu ficasse mais atento e compenetrado nas minhas ações, pois apesar dos equipamentos, escaladas sempre devem ser encaradas com responsabilidade e respeito à montanha. A subida mais vertical teve início e aos poucos íamos vencendo mais alguns metros, passando por entre paredes, utilizando várias técnicas de alpinismo. Na passagem `black-out`, dentro de uma fenda da rocha, há pouca luz e tivemos que subir quase no escuro total.

Estas fendas entre duas rochas são chamadas pelos alpinistas de `chaminé`, e para subir é necessário apoiar um pé de cada lado e com as mãos invertidas eleva-se o corpo a vai repetindo o movimento até o final da fenda. Este foi o trecho mais complicado para mim, mas com a ajuda dos alpinistas consegui superar mais este obstáculo. Depois destas passagens chegamos finalmente na pequena escada colocada no último trecho e que levaria ao topo da montanha. Subi os últimos degraus e com o batimento cardíaco acelerado e veio à mente a sensação de conquista, este sentimento tão valioso que é constantemente almejado por aventureiros de todo planeta.

Junto com os outros dois alpinistas comemoramos a chegada e permanecemos ali, todos em silêncio contemplando aquele cenário fabuloso onde a Baía de Guanabara mostra todos os recortes da incomparável topografia carioca. Depois de assinar o livro de registro dos conquistadores, iniciamos a
descida utilizando mais uma técnica de escalada, o rapel. O rapel foi criado para facilitar a descida de alpinistas dos picos conquistados, onde se desliza por uma corda com equipamento próprio, mas o rapel vem sendo usado também em várias outras modalidades de esporte radical. A luz foi caindo e aos poucos o céu escuro mostrava que já era noite e tínhamos que apressar a descida. Em duas horas, vendo o brilho do Rio e Janeiro despontando no horizonte, chegamos até o carro, todos extremamente cansados, mas felizes por estarmos de volta salvos e orgulhosos por mais esta conquista.

Seguindo para o PN de Brasília, no Distrito Federal.

  
  

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