PN Chapada dos Veadeiros - GO

Os principais objetivos da unidade são proteger os importantes mananciais hídricos, a infinidade de microorganismos e toda a fauna e flora pertencentes ao bioma Cerrado.

  
  

A imensa placa de cristal de quartzo que está sob o chão da chapada foi a grande responsável pela procura de dois tipos distintos de visitantes no passado. A maioria destes desbravadores era de garimpeiros e veio atrás dos cristais e de riqueza material. Já os outros aventureiros, os esotéricos, buscavam outro tipo de riqueza, a espiritual e todo misticismo que envolve esta região de Goiás, encravada no Brasil central. O auge do garimpo ocorreu nas décadas de 40 e 60 e muitos aventureiros vieram para o lugar e transformaram a paisagem.

Os Saltos de 80 e 120 vistos de longe são verdadeiras pinturas da natureza

Os Saltos de 80 e 120 vistos de longe são verdadeiras pinturas da natureza
Foto: Eduardo Issa

Antes dos garimpeiros, os índios goiazes já viviam na região, mas foram dizimados pelos primeiros desbravadores que vieram em busca de ouro. Atualmente, o pacato vilarejo de São Jorge, distrito pertencente ao município de Alto Paraíso, trocou o garimpo pelo turismo de aventura e de esoterismo. A população local já começa colher os frutos deste turismo saudável e consciente, onde antigos garimpeiros foram capacitados e se transformaram em eficientes guias. Em algumas áreas é fácil observar os efeitos desta extração de cristais onde restos de quartzo de má qualidade foram deixados ao longo das trilhas como no Morro do Garimpão. Um grande passo para a preservação desta região foi à criação de uma área de proteção integral. Em janeiro de 1961, mesmo ano da fundação de Brasília, foi criado o Parque Nacional do Tocantins e ocupava uma área bem maior que a atual, teve seus limites alterados por várias vezes, por pressão de fazendeiros e políticos influentes. Depois destas reduções determinadas por decretos o parque acabou sendo renomeado como Chapada dos Veadeiros, protegendo uma área de 236.570 hectares, que correspondem a míseros 10 % da área inicial pertencentes aos municípios de Alto Paraíso de Goiás, Cavalcante, São João da Aliança, Teresina de Goiás e Nova Ramos.

Bordeando a estrada do parque está o deslumbrante Jardim de Maitrea

Bordeando a estrada do parque está o deslumbrante Jardim de Maitrea
Foto: Eduardo Issa

Os principais objetivos da unidade são proteger os importantes mananciais hídricos, a infinidade de microorganismos e toda a fauna e flora pertencentes ao bioma Cerrado, além de apoiar pesquisadores e trabalhos relacionados à educação ambiental.

Os veados que eram vistos em quantidade estão cada vez mais raros na região

Os veados que eram vistos em quantidade estão cada vez mais raros na região
Foto: Eduardo Issa

O simpático povoado de São Jorge, antigo centro de exploração de cristais, hoje é o ponto de partida para os principais atrativos do parque e também para outras jóias que não estão nos seus limites. Na entrada do parque, que está distante apenas 2 quilômetros do centro de São Jorge, o visitante já vai notar a ótima estrutura e a boa organização do centro de visitantes, onde é possível encontrar guias e programar suas caminhadas. A trilha que leva as cachoeiras de 80 e 120 metros pode ser feita em algumas horas, são duas quedas formadas pelas águas do rio Preto e que despencam formando piscinas naturais de águas escuras devido a grande concentração de minérios.

A beleza das sempre-vivas decoram a vegetação das chapadas

A beleza das sempre-vivas decoram a vegetação das chapadas
Foto: Eduardo Issa

As caminhadas até os cânions são mais longas, mas a recompensa é garantida, o afunilamento do rio Preto recortou as rochas e transformou a paisagem. O cânion 1 só pode ser visitado nos meses secos, no período das chuvas o alto nível das águas torna a travessia arriscada e perigosa. O cânion 2 pode ser visitado o ano inteiro e é considerado por muitos como o mais bonito, pois paredões de mais de 20 metros reduz o fluxo do rio, aumentando a velocidade das águas que caem num grande poço, onde os visitantes podem dar um bom mergulho para se refrescar, no final da trilha, depois de uma descida íngreme num paredão escarpado estão as belas quedas das Cariocas que complementam o passeio e também dão direito ao mergulho. Ao longo das trilhas contemplar a vegetação é fascinante, sempre-vivas, bromélias, canelas-de-ema e dezenas de aves são apenas amostras do rico cerrado brasileiro. Apesar de toda obviedade, a palavra `veadeiros` é na verdade o nome dado aos cachorros que os caçadores utilizavam para caçar veados nesta região, `os cachorros veadeiros`. Esta intensa matança em décadas passadas fez com que o símbolo do parque sumisse da paisagem ficando cada vez mais raro avistá-los.

No Vale da Lua a água e o tempo esculpiram uma paisagem que é mesmo de outro planeta

No Vale da Lua a água e o tempo esculpiram uma paisagem que é mesmo de outro planeta
Foto: Eduardo Issa

Saindo dos limites do parque é imperdível uma caminhada pelo Vale da Lua, onde as águas do rio São Miguel esculpiram crateras na rocha em tons acinzentados que remetem a um impressionante cenário lunar. O atrativo está dentro de uma área particular e o proprietário cobra uma pequena taxa de visita, mas em compensação mantém o lugar limpo e as trilhas conservadas. Muitos outros atrativos também fora do parque e distantes valem a visita, um deles é o município de Cavalcante que além das maravilhosas cachoeiras ainda abriga o povoado dos Kalungas. Eles chegaram como escravos juntos com os garimpeiros e faziam parte da mão-de-obra que trabalhava na retirada dos minérios preciosos das entranhas das rochas e também na fundição do ouro.

Muitos negros abandonaram as minas e se abrigaram nas serras fundando comunidades de quilombos. D. Joana Cesário, com os seus 107 anos de vida, descendente do povo Kalunga ainda mostra muita lucidez contando estes fatos que presenciou e que fazem parte da história deste povo sofrido que luta por uma vida melhor. O Salto Santa Rosa que está perto do povoado impressiona pela cor das águas, um verde esmeralda que vêm se desmanchando por entre as rochas até chegar num pequeno poço.

Voltando a São Jorge, há uma dezena de passeios que valem a pena, entre eles o Salto Raizama, as piscinas de água quente e a pouco visitada Cachoeira do Segredo, um salto belíssimo escondido numa pequena mata de galeria e que para chegar é necessário caminhar cerca de 3 horas, mas que justifica cada passo. No caminho há um poço agradável para se refrescar e descansar um pouco. A cachoeira do Segredo é um atrativo novo da chapada que só agora vem sendo divulgado, portanto é imprescindível ir com um guia. Nas bordas do parque umas das caminhadas mais interessantes, a trilha da janela, depois de algumas horas e muitas pedras você se depara com os dois saltos de frente numa vista espetacular, é mesmo como se estivesse vendo tudo aquilo de uma janela e como dizem alguns visitantes melhor ainda se fosse a janela de suas casas. Depois desta vista, mas só na época das chuvas, a cachoeira do abismo vai te deixar em êxtase com o mergulho e com a vista que se tem de dentro d`água. Para finalizar, uma subida ao mirante de São Jorge onde as pessoas assistem o pôr-do-sol numa visão grandiosa de toda chapada. Depois de conhecer as 3 Chapadas mais famosas do país, a dos Guimarães, a Diamantina e a dos Veadeiros, vem a pergunta de qual seria a mais bela, a resposta está somente na mente daqueles que conhecem todas elas, mas podemos dizer que trilhas com paisagens preciosas, cachoeiras deslumbrantes e uma ótima energia você vai encontrar em todas elas.

E o mais importante é que todo este patrimônio natural ficou protegido após estas paragens se transformarem em parques nacionais.

Seguindo para o PN da Serra dos Órgãos - RJ

  
  

Publicado por em