PN da Serra do Cipó - MG

O parque ocupa uma área de 33.800 ha, recheados de belas cachoeiras, lagoas e cânions, além disto, é considerado por estudiosos como um dos lugares com o maior número de plantas por metro quadrado do planeta.

  
  

Vestígios do passado persistem na paisagem rochosa deste parque onde as flores inspiram e fascinam viajantes. A cordilheira do Espinhaço é majestosa, está presente em boa parte de Minas e corta a paisagem do parque. Suas formações refletem o grande movimento de placas que ocorreu na região onde rochas pontiagudas permaneceram inclinadas todas na mesma direção, como se estivessem reverenciando os deuses responsáveis por estas transformações. Visando proteger esta grande cadeia montanhosa que funciona como uma espinha dorsal do centro do Estado e abriga centenas de nascentes, foi criado em novembro de 1984 o Parque Nacional da Serra do Cipó.

A Serra do Cipó emoldura Lagoas e campos rupestres do parque

A Serra do Cipó emoldura Lagoas e campos rupestres do parque
Foto: Eduardo Issa

O parque ocupa uma área de 33.800 ha, recheados de belas cachoeiras, lagoas e cânions, além disto, é considerado por estudiosos como um dos lugares com o maior número de plantas por metro quadrado do planeta. Já são mais de 1500 espécies catalogadas, entre elas a admirada sempre-viva, presente em boa parte dos campos rupestres e que por pouco não foi extinta devido à retirada indiscriminada por moradores antigos.

Na Cachoeira da Farofa a água despenca do alto e se esfarela nas rochas do poço

Na Cachoeira da Farofa a água despenca do alto e se esfarela nas rochas do poço
Foto: Eduardo Issa

A história da ocupação desta região é bem antiga, há vários sítios arqueológicos, pinturas rupestres encontradas em grutas, muitos indícios de que comunidades primitivas viveram nesta área em tempos remotos. Muitos anos à frente deste período, a Serra da Vacaria, nome dado pelos Bandeirantes e que depois passou a se chamar Serra do Cipó, se transformou numa importante rota por onde passavam todo ouro e diamante encontrado em várias localidades mineiras. Atualmente, a `Estrada Real`, trecho compreendido entre Diamantina (Minas Gerais) e Paraty (Rio de Janeiro), tornou-se um grande foco turístico e vem atraindo milhares de aventureiros que vem para a região em busca da história e também de ecoturismo.

As tranquilas capivaras descansam às margens do Rio Cipó

As tranquilas capivaras descansam às margens do Rio Cipó
Foto: Eduardo Issa

Voltando a paisagem do parque, toda aridez da serra parece contestar a vivacidade das flores, mas botânicos afirmam que algumas espécies como as canelas-de-ema, crescem entre os aglomerados rochosos aproveitando a água que cai do orvalho da noite. Estas plantas utilizam a matéria orgânica acumulada no caule e sobrevivem com pequenas porções de água armazenadas entre as folhas secas caídas. A definição de cerrado, com árvores tortuosas espalhadas, folhas resistentes, nesta região perde espaço para os campos rupestres, com uma vegetação rasteira composta por gramíneas e plantas de porte arbustivo.

O Travessão é o divisor de águas de duas grandes bacias hidrográficas de Minas, a do Rio São Francisco e a do Rio Doce

O Travessão é o divisor de águas de duas grandes bacias hidrográficas de Minas, a do Rio São Francisco e a do Rio Doce
Foto: Eduardo Issa

A estrutura desta extensa faixa montanhosa são quartzitos, rochas formadas a partir da areia do fundo do mar, lembrando que aqui como em várias outras regiões, já foi um grande oceano. A disposição dessas rochas nas encostas das montanhas fez da Serra do Cipó uma paisagem peculiar e inesquecível. O parque conta com uma boa estrutura para receber visitantes e diferente de vários outros parques onde a presença de animais domésticos é expressamente proibida, no Cipó é possível alugar um cavalo e conhecer a Cachoeira da Farofa, a queda mais visitada da unidade. O nome farofa, ao contrário do que muitos pensam, se refere à água que cai do alto e se esfarela nas rochas que cercam um belo poço.

As águas claras do Rio Mascate esculpiu o Cânion das Bandeirinhas

As águas claras do Rio Mascate esculpiu o Cânion das Bandeirinhas
Foto: Eduardo Issa

Para quem gosta de longas caminhadas o bom mesmo é visitar a Cachoeira da Farofa e o Cânion das Bandeirinhas, o percurso todo é de 16 km (ida e volta), mas se prepare para o mergulho na Farofa, a temperatura da água é congelante. No Cânion das Bandeirinhas, um desfiladeiro de 80 metros recortado pelo Rio Mascate, é envolvido por milhares de pedras que despencaram do alto e agora fazem parte deste cenário memorável.

Alguns atrativos do parque são mais complicados de se chegar, entre eles o Travessão, uma caminhada de cerca de 3 horas com boas subidas, é bom ir acompanhado de um guia. O Travessão é um grande vale localizado no alto da Serra do Espinhaço, de proporções imponentes e o vale funciona como divisor de duas grandes bacias hidrográficas de Minas, a do Rio Doce e a do Rio São Francisco. O Vale do Travessão também era o único local onde os viajantes podiam atravessar de uma serra para outra levando toda tralha que envolvia as grandes empreitadas dos Bandeirantes.

Na volta do Travessão, conheça a estátua construída em homenagem ao Juquinha, um antigo e carismático morador da serra, que costumava colher flores nos campos e presentear visitantes. Se você quiser conhecer uma figura ainda mais surpreendente, siga até a cidade de Morro do Pilar, depois pela estrada para Itambé e no meio do caminho, no lado esquerdo uma lapa esconde um personagem. Uma espécie de ermitão que abdicou de tudo e foi viver sozinho numa lapa (gruta). Seu Domingos é uma pessoa lúcida e falante, conta vários causos ao mesmo tempo, por viver isolado, sente falta de uma boa conversa, portanto o difícil é sair dali sem interromper uma estória de Seu Domingos.

Um passeio imperdível para os mais aventureiros é pegar uma canoa canadense e navegar pelo Rio Cipó. As águas calmas do rio e toda vegetação da margem são emolduradas pela grande Serra do Espinhaço. Depois de poucos quilômetros rio acima é possível observar capivaras descansando e se alimentando nas margens do rio. O mais interessante é que elas são tranqüilas e já acostumaram com a presença humana no rio, portanto remando devagar e sem muito barulho é possível chegar a poucos metros dos bichos sem afugentá-los.
Alguns problemas rondam o interior do parque, entre eles a regularização fundiária da área, um problema que afeta grande parte dos parques brasileiros e além disto à proximidade de um grande centro urbano como Belo Horizonte aumenta a pressão de moradores.

Em relação ao plano de manejo da unidade, os próprios funcionários do parque estão à frente da execução do plano, ao contrário de outros parques que contratam empresas especializadas no serviço. Para João Madeira, analista ambiental que está coordenando os trabalhos, muitos dos planos de manejo elaborados da forma como eram antes dos concursos do Ibama foram caros e não atenderam às necessidades das unidades. Madeira ainda ressalta que `realizar o trabalho internamente é uma tentativa de aproveitar uma mão de obra de que antes não se dispunha e que agora existe e tem como obrigação planejar as ações de conservação e manejo das unidades de conservação sob a gestão do IBAMA`. Na minha opinião, esta é uma iniciativa questionável, pois o trabalho interno dos funcionários do parque não pode ser colocado de lado para a execução do plano de manejo.

Apesar do empenho e dedicação de Henry Collet, atual chefe da unidade, o mesmo vem sofrendo pressões por ter sido indicado para o cargo. Há muitas coisas a serem feitas no parque, entre elas a adequação de uma estrutura compatível com a sua importância no Estado. Na minha passagem pela Serra do Cipó o telefone do parque estava cortado por falta de pagamento, não havia conexão com Internet e mais alguns problemas de ordem básica, situação que compromete o bom funcionamento de um parque nacional.

Problemas à parte, o que se vê na Serra do Cipó é um conjunto de belíssimas paisagens, campos que florescem o ano todo e a cada estação muda de cor. As florações das muitas espécies vão se revezando ao longo do ano, colorindo as trilhas que levam as lindas cachoeiras, vales e cânions. Dar um giro de carro pelos arredores também vale a pena, conhecer um pouco mais da história da região e algumas cachoeiras que estão fora dos limites da unidade, mas também são belíssimas.

Seguindo para o PN das Sempre-Vivas - Minas Gerais

Conceição do Mato Dentro Jaboticatubas Distrito de Cardeal Mota

  
  

Publicado por em