PN do Catimbau - PE

Com uma área de 62.300 hectares, o parque abrange os municípios de Buíque, Ibimirim e Tupanatinga, numa região que integra geologicamente os patamares mais antigos da Bacia Sedimentar do Jatobá, que está situada na porção centro-sul de Pernambuco.

  
  

Depois do ícone da arqueologia brasileira, o complexo que engloba Serra da Capivara e a Serra das Confusões no Piauí, o Vale do Catimbau no grande sertão de Pernambuco, segundo pesquisadores e arqueólogos, pode ser considerado o segundo maior sítio arqueológico do Brasil, tanto pela quantidade de pinturas e inscrições quanto pelo valor histórico.

Pedra do Cachorro, um dos símbolos do parque – pode ser vista da estrada

Pedra do Cachorro, um dos símbolos do parque – pode ser vista da estrada
Foto: Eduardo Issa

Todo este patrimônio pernambucano e brasileiro começou a ser protegido no dia 13 de dezembro de 2002, data em que foi criado o Parque Nacional do Catimbau. Com uma área de 62.300 hectares, o parque abrange os municípios de Buíque, Ibimirim e Tupanatinga, numa região que integra geologicamente os patamares mais antigos da Bacia Sedimentar do Jatobá, que está situada na porção centro-sul de Pernambuco.

Algumas rochas são verdadeiras janelas com vista para a caatinga

Algumas rochas são verdadeiras janelas com vista para a caatinga
Foto: Eduardo Issa

O vale do Catimbau, um pequeno povoado nas bordas do parque, está situado a 289 quilômetros de Recife, é o local indicado para começar a aventura no agreste. É na praça da vila onde se encontram os guias credenciados e habilitados a conduzir os visitantes pelas trilhas e mostrar as formações espetaculares encontradas nas rochas do vale. A origem do nome Catimbau tem várias versões, entre elas cachimbo velho e homem ridículo, prática de feitiçaria, mas a versão mais palpável seria “morro que perdeu a ponta”, considerando que os morros foram se erodindo com o tempo.

As formações rochosas mais impressionantes do parque são os Lapiais

As formações rochosas mais impressionantes do parque são os Lapiais
Foto: Eduardo Issa

A grande peculiaridade das formações areníticas do Catimbau, que diferem da própria Serra da Capivara e de outros sítios de composição arenítica, é a estrutura frágil das rochas que são facilmente esculpidas pela ação de chuvas e ventos. A proximidade com o litoral fortalece os ventos e gera características que fazem desta região uma galeria de esculturas a céu aberto, com formações que levam o visitante a viajar pelo imaginário e descobrir novas formas a cada ângulo do olhar.

A Trilha das Torres oferece o mais belo pôr-do-sol da região

A Trilha das Torres oferece o mais belo pôr-do-sol da região
Foto: Eduardo Issa

Em Alcobaça, distante 32 km do vale, os apaixonados por inscrições rupestres vão se deparar com um gigantesco paredão com milhares de figuras e objetos mostrando toda riqueza cultural dos povos que passaram por ali. É lá também onde encontramos a simpática Cida, guardiã incansável das pinturas, que mesmo sem receber nada em troca, cuida, protege e guia os visitantes, explicando tecnicamente as tradições e os tipos de inscrição encontrados nas rochas. As trilhas pelo parque são muitas, algumas delas são obrigatórias como a Trilha das Torres, da Pedra da Concha e a do Cânion. As 3 são caminhadas leves, de poucas horas e muita beleza cênica. As paisagens enchem os olhos e impressionam, já no início da estrada a caminho do parque é possível visualizar uma grande rocha que desponta no meio do vale e que a cada quilômetro vai se transformando na figura de um cachorro. A pedra do Cachorro, como ficou conhecida esta imensa rocha, é facilmente visualizada quando se caminha pela trilha que leva as torres, onde é possível contemplar um dos mais bonitos entardecer do sertão pernambucano, ali o sol parece se dissolver na linha do horizonte. Na base das rochas que levam até as torres estão os “lapiais”, nome dado pelos guias, mas que não se encontra no dicionário, é mesmo difícil definir esta formação tão única. A primeira vista parecem sulcos feitos em baixo relevo na rocha e que despencam do alto de uma parede colossal em tons multicoloridos, com certeza a imagem mais impressionante do parque. Pelos mais diferentes cantos do Brasil, não se tem notícia de uma formação parecida e tão deslumbrante como esta. Na Pedra da Concha, chamada pelos antigos moradores como Pedra Pintada, estão as primeiras inscrições encontradas na região. O único lugar do vale onde as tradições Agreste e Nordeste podem ser observadas num mesmo painel. O parque ainda reserva surpresas aos visitantes, cemitérios indígenas, fontes de água cristalina, cânions e ainda tem como vizinhos os índios da etnia Kapinawá.

A trilha do Cânion é uma caminhada leve mas o visual é estonteante

A trilha do Cânion é uma caminhada leve mas o visual é estonteante
Foto: Eduardo Issa

A vegetação desta área apresenta aspectos distintos por ser uma área de transição entre o Agreste e a Caatinga. Esta divisão é facilmente observada do Morro dos Breus, onde um grande aglomerado de rocha vai se desmanchando até atingir o solo. A partir daí é a grande caatinga que toma conta da paisagem. Ainda no Morro dos Breus, com quase 1.000 metros de altitude, os fortes ventos esculpiram nas rochas duendes, edifícios, silhuetas e objetos, a trilha circunda estas formações e coloca os visitantes em contato direto com desgaste causado pela ação de intempéries.

Voltando dos Breus a caminho do povoado do Catimbau, uma figura pitoresca e carismática fez do quintal da sua casa um espaço artístico para expor suas obras. Zé Bezerra, 54 anos, “cabra da roça” e pequeno agricultor com rosto vincado pelo tempo, a partir de 2002 virou artesão e passou a transformar árvores caídas, pedaços de troncos e raízes em pura arte. Suas obras retratam as mais diversas figuras, desde cabeças de gente, carros de boi, animais, enfim tudo que faz parte do universo sertanejo. Para Zé Bezerra, a forma e o destino de suas obras são decididos na hora, quando põe nas mãos aquele pedaço de madeira, vem na sua mente o que deve ser feito. O resultado é fabuloso, as peças parecem querer dizer alguma coisa aos visitantes. O artesão tira o sustento da família, a mulher e 5 filhos, vendendo as peças aos turistas e plantando uma coisa aqui outra ali. O filho mais velho já aprendeu o ofício com o pai e possui estilo próprio, faz pequenas cabeças com riqueza de detalhes. Zé Bezerra além do seu dom artístico ainda dá um show em seu instrumento, uma espécie de berimbau que ele mesmo confeccionou, imperdível.

O Parque Nacional ainda está só no papel, muito pouco foi feito na sua área. Para Francisco Araújo, chefe da unidade, a falta de recursos impossibilita um trabalho mais intenso. Mesmo assim, Francisco tem coordenado os brigadistas da unidade na abertura de novas trilhas, limpeza de estradas e em breve o parque contará com um sistema de sinalização com placas e sinais de padrão internacional, que facilitará o acesso às atrações. Um grande montante financeiro, resultado de uma compensação ambiental da CHESF (Companhia Hidroelétrica do São Francisco) deveria estar sendo utilizada no parque, mas o recurso não vem para a unidade. A vinda deste dinheiro possibilitaria a construção de uma estrutura para abrigar a sede do parque e também a construção de guaritas para o controle de entrada e saída dos visitantes.

Há muito que conhecer no Catimbau, para o experiente guia Genivaldo, para percorrer todas as trilhas do parque é preciso andar por 3 meses. É claro que o visitante não tem todo este tempo disponível, mas para o guia, em 3 dias é possível percorrer boa parte das principais atrações. Isto faz com que visitantes e aventureiros sempre voltem ao vale, em busca de paisagens que ainda não conhecem ou talvez descobrir locais ainda inexplorados.

Seguindo para o PN Nascentes do Rio Parnaíba – Piauí.

Arcoverde

  
  

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