PN do Juruena - MT

A peça que faltava bem no coração do Brasil foi finalmente conectada.

  
  

A peça que faltava bem no coração do Brasil foi finalmente conectada. A criação do parque Nacional do Juruena, em 5 de junho de 2006, faz parte da meta do projeto ARPA - Áreas Protegidas da Amazônia - de atingir 50 milhões de hectares protegidos.

No período de seca, o espetáculo das praias formadas no rio Juruena

A região que se caracteriza pela transição entre os biomas cerrado e floresta amazônica está ameaçada pela ocupação irregular de terras e o avanço da fronteira agropecuária. Além disso, possui localização estratégica no Corredor de Conservação da Biodiversidade da Amazônia Meridional – um gigantesco mosaico de áreas protegidas que se estende desde as margens do rio Madeira, no norte de Rondônia e sul do Amazonas, até a bacia do Xingu no Mato Grosso e Pará, e tem funcionado como uma barreira ao avanço do desmatamento em direção à Amazônia central. Outra função desse corredor é a manutenção da biodiversidade, por meio do trânsito de espécies entres essas regiões, como está estabelecido pelo Sistema Nacional de unidades de conservação.

As belas cores do entardecer às margens do rio Juruena

O Juruena com seus 1.950.000 ha é considerado o quarto maior parque do Brasil, ficando atrás apenas dos gigantes Tumucumaque (Amapá) com área de 3.882120 ha, Jaú com 2.377.889 ha e Pico da Neblina com 2.260.344 ha (ambos no Amazonas).

No passado, entre os anos de 1825 a 1829, o Barão de Langsdorff, cônsul da Rússia, se aventurou por estas bandas na sua viagem fluvial do rio Tietê ao rio Amazonas. Nos manuscritos registrados pelo segundo desenhista da expedição, o francês Hércules Florence já constava o relato: ”rios caudalosos e perigosos por causa de saltos, corredeiras rodeadas de líquidos sorvedouros, de ondas tão altas como as do oceano, por todos os lados inacessível, submersa na sua porção superior e em parte oculta pelo nevoeiro, parece surgir da espuma de vasta cratera em liquefação”.

A beleza das quedas caudalosas do Salto Augusto, uma grande barreira as embarcações

A descrição feita pelo francês Florence se refere ao Salto Augusto, uma majestosa cachoeira composta por 3 grandes quedas com até 19 metros e outras menores. O salto é a cachoeira mais imponente e é intransponível para embarcações que descem o rio Juruena. O nome deste salto foi uma homenagem do Capitão Miguel João de Castro ao Capitão-General João Augusto Oeynhausem de Gravemburg, comandante militar que lhe dera a função de explorar o inóspito território norte do Estado do Mato Grosso, no começo do século XIX.

Essas dezenas de corredeiras em seu curso exigem conhecimento e habilidade para pilotar voadeiras. Sr. Alexandre, 30 anos pilotando pelo rio, relata que já testemunhou muitos acidentes nas corredeiras e que além de prejuízos materiais, várias vidas foram ceifadas nas pedras que ficam submersas a poucos centímetros do fio d’água.

Expedições do passado, realizadas neste trecho do rio obrigaram os aventureiros a levar barcos e motores nas costas pela margem, para seguir o curso do rio. Atualmente a empreitada continua, em recente expedição de reconhecimento e pesquisa realizada pela direção do parque e apoiada pelo WWF, várias voadeiras foram carregadas pelas trilhas para transpor algumas quedas perigosas.

Um dos desafios do parque é viabilizar o uso manejado da floresta para garantir a melhoria da qualidade de vida das comunidades tradicionais da região e muitos projetos de desenvolvimento sustentáveis também estão previstos para essas áreas. A grande maioria deve enfatizar a extração de produtos até então descartados pelo atual modelo de exploração da Amazônia, como: a castanha do Pará, os óleos naturais (copaíba e andiroba), borracha e cipós.

Por via terrestre, o acesso ao parque é péssimo, atoleiros e árvores caídas podem interromper a viagem

Apesar de estar no início, o turismo na região do rio Juruena ainda se resume a algumas pousadas de pescadores. O acesso a área do parque ainda é complicado e a melhor forma ainda é via fluvial. O fluxo de turistas tende a ajudar na conscientização e gerar mais empregos à população ribeirinha.

A minha investida na área do parque foi repleta de imprevistos, salpicadas de situações de perigo. A explicação disso é que por escolher o acesso terrestre, tive que cruzar o principal garimpo da região, que tem parte da área explorada dentro dos limites do parque. A estrada quase intransitável de 180 km foi percorrida em 17 horas, com direito a carro quebrado, 3 ou 4 atolamentos e histórias sinistras dos garimpeiros que me deram carona. Ainda tive que dormir numa casa abandonada bastante deteriorada no centro do Garimpo, sem energia, sem água, com escorpiões e aranhas caranguejeiras circulando pelo chão.

A minha cama foi uma mesa na parte de cima da casa e nas paredes de madeira a peculiar decoração já confirmava que eu estava mesmo bem no meio da selva amazônica, duas peles de onça pintada penduradas. No dia seguinte todos no garimpo já sabiam que havia um jornalista forasteiro com câmeras no pescoço. Fiquei bem tenso e só fiquei tranqüilo quando no final do dia o Sr. João veio me buscar na margem do rio Juruena.

Uma noite inesquecível no interior do Garimpo!

A partir daí dei início ao trabalho de registro de imagens, apesar de toda dificuldade de acesso aos locais. Segui de voadeira pelo rio Juruena e após registrar o majestoso Salto Augusto e lembrar das palavras do desenhista francês, atravessei o salto por uma trilha e pegamos outra voadeira na parte baixa da queda, seguindo até a Caverna do Morcego, uma experiência inesquecível.

Já visitei centenas de cavernas pelo Brasil mas esta foi a primeira vez que entro numa com mais de 10.000 morcegos forrando o teto e milhares de baratas correndo pelo chão. Quando eu entrava a revoada dos morcegos exalava uma nuvem tóxica que tornava impossível respirar no interior da caverna e por estar sem máscara acabei passando mal e retornei para a pousada para me recuperar. Depois de algumas horas e uma boa refeição, voltei a campo para registrar outras imagens.

Nas cidades ao redor do parque como Alta Floresta e Nova Bandeirante, o artesanato de alto nível é comercializado para grandes lojas de decoração das capitais brasileiras, e toda matéria-prima utilizada é composta de sementes, cipós, folhas, que são coletadas nas florestas da região sem destruir a vegetação, um belo exemplo de uso sustentável dos recursos naturais.

O artesanato de qualidade da cidade de Alta Floresta, uma ótima saída para o uso sustentável da floresta

Outra boa notícia é o benefício dado aos municípios que tiveram parte de seu território tomado pela criação dessas terras protegidas, pois com a lei do ICMS ecológico cidade de Apiacás, por exemplo, poderá arrecadar até R$ 90.000 por mês com o novo imposto.

O controle da região é outro ponto decisivo, considerando que sem recursos para a elaboração do plano de manejo é impossível a gerência das unidades. Pelas dimensões do parque é fácil perceber o grande desafio no que tange fiscalização. Será necessário um grande investimento dos governos federal e estadual para a contratação de pessoal e liberação de recursos para as operações de normalmente são de alto custo.

A apreensão de equipamentos de garimpo dentro da área do Parque Nacional do Juruena

Durante a minha passagem pelo parque pude acompanhar uma dessas operações que envolvia Polícia Federal, Ibama, Instituto Chico Mendes e Força Nacional. Vários garimpos irregulares foram fechados, madeireiras foram multadas por retirada ilegal de madeira e desmatamentos e queimadas foram descobertos e os proprietários multados. Para se ter uma idéia dos números dessas operações, eram 15 veículos, mais de 60 pessoas a campo, 2 helicópteros e mais os funcionários que ficavam nos escritórios cuidando das documentações necessárias para o sucesso da operação.

Operações de fiscalização no Norte de Mato Grosso cada vez mais frequentes

Para Laurent Micol, coordenador adjunto do Instituto Centro de Vida (ICV - Cuiabá MT), a região norte de Mato Grosso é uma das maiores frentes de desmatamento da Amazônia. Municípios como Apiacás, onde o Parque ocupa 980 mil hectares, as taxas de desmatamento nos últimos anos variaram entre 15 e 35 mil hectares. Funcionários do ICV que atuam em parceria com o parque nacional, relatam que a área da unidade corria grandes riscos de grilagem de terra e desmatamento em curto prazo e a criação da unidade serviu como um escudo de proteção a esta grilagem.

Sobrevoando grande parte da área do parque, entre os municípios de Apiacás e Apuí, eu pude respirar aliviado após constatar que a região onde o parque foi criado ainda permanece quase que intacta.

Voando sobre a região do parque, um alívio, grandes áreas ainda intactas

Esperamos que todos esses esforços de criação de unidades de conservação no Norte do país não sejam apenas mais um amontoado de documentos oficiais, mas que eles cumpram o verdadeiro papel de proteger e preservar o nosso maior patrimônio natural, a AMAZÔNIA.

Seguindo para o Parque Nacional dos Campos Amazônicos – AM / RO e PA

  
  

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