PN dos Campos Gerais - PR

Um grande campo de pradarias verdes pontilhado de capões de mato abriga que ainda formações rochosas surpreendentes. Esta é uma pequena descrição do mais novo parque nacional criado no Estado do Paraná.

  
  
A imensidão dos Campos Gerais recortada pelos afloramentos rochosos

Um grande campo de pradarias verdes pontilhado de capões de mato abriga que ainda formações rochosas surpreendentes. Esta é uma pequena descrição do mais novo parque nacional criado no Estado do Paraná.

Localizado na região oeste, abrangendo os municípios de Ponta Grossa, Castro e Carambeí, o Parque Nacional dos Campos Gerais, com 21.500 ha, foi criado em março de 2006 com o objetivo de proteger nascentes, campos, remanescentes de araucárias e ainda barrar o avanço das áreas agricultáveis que crescem por todos os lados.

O Buraco do Padre é exemplo único de drenagem subterrânea vinculada a uma furna

A paisagem é caracterizada não só pela presença de araucárias, mas também por ter 30% de toda a sua área coberta por campos naturais, um ecossistema bastante ameaçado. Atualmente, restaram apenas 0,2% da cobertura original desse tipo de formação no país.
Além dos afloramentos rochosos há também diversos sítios com pinturas rupestres e manifestações indígenas. A flora apresenta plantas endêmicas como à palmeira anã, alguns tipos de cactus e ciperáceas.

O encanto da região, no entanto, não se limita apenas aos horizontes intermináveis, pois andando pelos campos nos deparamos com estranhas elevações de rochedos que abrigam furnas misteriosas, adolinas e quedas d’águas espetaculares.

O ameacado Lobo-Guara ainda é visto correndo livre pelos campos nativos

Uma das mais belas e intrigantes cachoeiras da região e que deverá ser um dos maiores atrativos do parque ficou conhecida como Buraco do Padre.

Cientificamente o Buraco do Padre é exemplo único de drenagem subterrânea vinculada a uma furna (poço de afundimento) e a fendas que são fraturas e falhas abertas pela erosão, que permitem o acesso por via natural, pelas fendas, até o interior da furna.

A cocheira da Mariquinha, após a queda forma uma deliciosa prainha com areias brancas

Segundo historiadores, a origem do nome se deve a passagem dos jesuítas pela região quando padres realizavam cultos dentro e fora da grande furna, com a finalidade de converter
Índios para o Cristianismo, entre eles índios das etnias Umaitá e Umbu.

Distante 26 km de Ponta Grossa, o buraco é uma espécie de anfiteatro subterrâneo com uns 30 metros de diâmetro, onde uma queda d’água com cerca de 45 metros formada pelo rio Quebra-Perna despenca do alto. Nas paredes, plantas rupestres proliferam esverdeando o cenário. Atualmente aventureiros percorrem a trilha de 1 km e podem se refrescar no pequeno poço formado pela água que cai e se encantar com uma paisagem magnífica e única.

As grandes palntações de soja avançam com voracidade e já fazem divisa com os limites do parque

Apesar do grande fluxo de visitantes, o local encontra-se razoavelmente bem conservado, mesmo com a inexistência de controle e de plano de manejo. A trilha já apresenta algumas erosões, depredação nas paredes rochosas e também lançamento de detritos, situação que só será resolvida com a implantação de fato do parque aliado a um bom trabalho de educação ambiental.

A região do parque é também um laboratório a céu aberto e vem sendo muito utilizado por professores e pesquisadores de Geologia, Geomorfologia, Agronomia e Biologia. Para o professor Carlos Hugo Rocha, da UEPG (Universidade Estadual de Ponta Grossa), um dos grandes apoiadores à criação da unidade, a região destinada à implantação do parque é uma área extremamente rica, porque abrange diferentes ecossistemas, entre eles floresta de araucárias, campos nativos, área de transição e banhado, portanto uma grande e diversificada biodiversidade.

Espécies endêmicas de cactus podem ser encontradas sobre as formações rochosas

Para Hugo, a área é ainda de extrema importância para os recursos hídricos da região, pois abriga várias nascentes e grande parte das principais bacias hidrográficas está no seu interior. Estas bacias influenciam diretamente na qualidade da água consumida no município de Ponta Grossa, por isso a importância da sua preservação.

Em relação aos atrativos do parque, há muito que se ver e aprender sobre a região, especialmente sobre geologia. Nas diversas formações rochosas aparecem os conglomerados da base da Formação Furnas, a Formação Iapó e o Granito Cunhaporanga, numa bela exposição do contato entre rochas da Bacia do Paraná e seu embasamento.

A cachoeira do rio São Jorge passa por um lajeado e segue esculpindo a rocha

A cachoeira de São Jorge também é imperdível, o proprietário atual mantém uma precária estrutura para visitantes e não há preocupação ambiental, e o local, embora ainda preservado, encontra-se sob risco de degradação. O proprietário da área não é a favor do parque e durante a minha passagem por lá foi complicado chegar à cachoeira, fui guiado pelo Átila, um aventureiro e amante da natureza que me levou até o lado oposto da cachoeira, só assim foi possível fazer o registro de imagens.

O rio São Jorge corre inicialmente sobre lajeados da formação furnas, depois despenca numa queda livre de aproximadamente 20 metros, ao longo da qual aparecem os conglomerados da base da Formação Furnas. Após a queda, o rio vai esculpindo um grande cânion formando um vale onde aparecem capões e matas com araucária, compondo a diversificada vegetação. Em abrigos nas lapas de arenito existem pinturas rupestres de povos indígenas pré-históricos.

Esculturas caprichosamente esculpidas pelo vento e pelas chuvas, dentro do parque de Vila Velha

Há muitas outras cachoeiras dentro da área do parque, cada uma com sua peculiaridade e sua beleza. O que elas têm em comum é o uso sem planejamento, falta de uma estrutura básica para receber visitantes como lixeiras e trilhas orientadas.

A cachoeira da Mariquinha é bastante freqüentada por famílias que acampam e acabam deixando garrafas, plásticos e outros resíduos. O responsável recolhe uma pequena taxa e mantém o lugar limpo, recolhendo o lixo. Ao lado direito da trilha que segue até a cachoeira, belas formações mostram as camadas geológicas de rocha onde é possível estimar o tempo das mudanças da região. Na área do salto é possível banhar-se numa pequena e paradisíaca prainha com areias brancas e sentir a água gelada que desce das paredes. Apesar da água gelada, vale dar um mergulho refrescante no poço

Parque Estadual de Vila Velha, um exemplo de organização depois da revitalização

Caminhando pelos campos nativos temos a confirmação da necessidade de preservar estes ambientes, pois o parque já é uma ilha envolta por plantações de soja, milho e outros cereais . O vai-e-vem das máquinas agrícolas bem nas bordas das matas preservadas nos faz imaginar o que restaria desta vegetação sem a criação desta unidade de proteção integral.

Se você pretende visitar a área do parque não deixe de conhecer também o Parque Estadual de Vila Velha, distante 22 quilômetros de Ponta Grossa. Vila Velha tem formações únicas, verdadeiras raridades, é impressionante observar o que a ação do vento e da chuva esculpiu ao longo dos tempos. Nos últimos anos o parque passou por uma reestruturação e agora merece elogios pela organização, limpeza e profissionalismo dos funcionários.

O Parque de Vila Velha, com suas formações areníticas, as furnas e a Lagoa Dourada, deixou de ser alvo do turismo predatório para definitivamente consolidar-se como centro de turismo ambiental e que ao lado do Parque Nacional dos Campos Gerais formam um dos mais importantes sítios geológicos e geomorfológicos do país.

Seguindo para o Parque Nacional do Juruena – Mato Grosso

  
  

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