PN Grande Sertão Veredas - MG

No Norte de Minas Gerais, nas bordas do município de Chapada Gaúcha, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas transborda vida e retrata o dia-a-dia de bravos sertanejos que por anos viveram aproveitando o que a paisagem escondia.

  
  

A descrição de sertão para a grande maioria das pessoas está sempre ligada à secura, pobreza e escassez de vida, um significado equivocado quando se conhece um pouco mais a fundo algumas regiões sertanejas do Brasil. No Norte de Minas Gerais, nas bordas do município de Chapada Gaúcha, o Parque Nacional Grande Sertão Veredas transborda vida e retrata o dia-a-dia de bravos sertanejos que por anos viveram aproveitando o que a paisagem escondia. Nesta região é possível perceber que no sertão há uma infinidade de vida e muita água serpenteando o solo castigado pelo sol. O parque foi criado em 1989 e atualmente, após ter sua área ampliada passou a proteger uma região com 230.000 hectares, sendo o maior parque de Cerrado do Brasil, resguardando este refúgio contra as plantações de soja que vêm destruindo e desmatando grande parte do cerrado brasileiro.

As Veredas de Buritis, fonte de vida, água, e sustento para moradores da região

As Veredas de Buritis, fonte de vida, água, e sustento para moradores da região
Foto: Eduardo Issa

O nome do parque é uma justa homenagem a João Guimarães Rosa, um dos maiores escritores da literatura brasileira, que se embrenhou no verdadeiro sertão, acumulando subsídios e extraindo dos sertanejos a essência que se tornou à alma de seus livros. O escritor que nasceu na pequena cidade de Cordisburgo, perto de Belo Horizonte, era médico e poliglota, viajou pelos quatro cantos do mundo e por volta de 1951 decidiu participar de uma caravana de bois. O escritor passou 45 dias perambulando em lombo de mula, com seu chapéu de palha e convivendo com os sertanejos, onde ouviu centenas de histórias e foi anotando tudo em seu pequeno caderno. Destes relatos recheados de emoção e sabedoria surgiu a mais importante obra do escritor, o clássico `Grande Sertão: Veredas`. Andando pelos caminhos deste sertão dourado é fácil perceber que a maior riqueza deste ambiente é a cultura do povo, onde pessoas simples conseguiram ao longo do tempo se adaptar e desvendar os segredos de como sobreviver neste cenário aparentemente tão árido e hostil.

A Cachoeira do Mato Grande, escondida na vegetação é a mais procurada pelos visitantes

A Cachoeira do Mato Grande, escondida na vegetação é a mais procurada pelos visitantes
Foto: Eduardo Issa

Sebastião Rodrigues, antigo morador da região e que atualmente trabalha como vigilante do parque, conta que água nunca faltou, as veredas de buritis sempre guardavam uma grande quantidade de água, mesmo na seca e que eles abriam canais que redirecionavam aquela água acumulada nas veredas para as pequenas plantações. No interior do parque as praias formadas ao longo do rio Carinhanha são repletas de buritis e os visitantes podem nadar e contemplar a paisagem nas suas margens. A área do parque ainda tem nos seus limites algumas corredeiras e cachoeiras, onde é possível se refrescar com um bom banho. A cachoeira do Mato Grande é uma delas e uma seqüência de quedas que vão se transformando em pequenos poços se tornou um dos principais atrativos do parque. Para Anderson Santana, guia experiente da região e poeta nas horas vagas, conhece como poucos a área do parque, Anderson relata que a cachoeira ficou famosa pelo episódio envolvendo um jagunço chamado Antônio Dó, uma espécie de justiceiro do sertão, que matou o fazendeiro dono das terras em volta da cachoeira.

Estradas cortam a imensidão da paisagem do maior parque de Cerrado do Brasil

Estradas cortam a imensidão da paisagem do maior parque de Cerrado do Brasil
Foto: Eduardo Issa

De longe a paisagem confunde e parece difícil imaginar que bem no meio do sertão uma linda cachoeira se esconde por entre as árvores e rochedos. É neste oásis onde grande parte dos bichos vem matar a sede, entre eles a onça parda, o lobo guará e os veados. As grandes veredas de buritis são os locais preferidos das araras, que passam horas se alimentando do fruto desta palmeira tão abundante nesta região. O buriti é uma espécie de palmeira, muito utilizada pelos moradores, dele se extrai o fruto para a confecção de doces e vinhos, a palha das folhas serve como cobertura de telhados e também na produção de artesanato como redes, esteiras e bijuterias.

Pequenas praias se formam nas curvas do rio Carinhanha

Pequenas praias se formam nas curvas do rio Carinhanha
Foto: Eduardo Issa

A vegetação do cerrado realmente impressiona pela variedade de plantas que os moradores, mais do que ninguém, sabem para que fim elas podem ser usadas. Remédio para dor de estômago, antiinflamatório, cicatrizante, o sertanejo reconhece com destreza na vegetação a cura de seus males. Uma das plantas mais conhecidas por aqui é a `favela` ou `favadanta`, que além de servir de alimento para as antas, da sua casca é extraído a rutina em forma de um pó que é exportado para a Alemanha e se transforma num excelente remédio para a circulação. O pequi também é muito usado na alimentação, pratos regionais, farinha, geléias são produzidos e comercializados por moradores e tudo com o apoio da FUNATURA, uma organização não-governamental que é a principal parceira do parque.

O bravo Sertanejo, o maior patrimônio cultural do Grande Sertão

O bravo Sertanejo, o maior patrimônio cultural do Grande Sertão
Foto: Eduardo Issa

O parque que apesar das dimensões, padece com a falta de recursos, de veículos e de pessoas. Para o chefe da unidade, o incansável Kolbe, o parque necessita de muitas coisas, mas a falta de gente compromete a unidade. Kolbe não mede esforços para combater focos de incêndio dentro da unidade e trabalha de segunda a segunda controlando a brigada de incêndio para que os focos de fogo não virem uma queimada de grandes proporções. A visitação ainda não está regulamentada, os acessos são difíceis e praticamente só carros com tração nas 4 rodas conseguem transitar com segurança. Entrar nestas estradas sem um guia é arriscado e perigoso, portando, é sempre bom estar acompanhado de alguém que conheça a região. Pelos caminhos que levam a cachoeira do Mato Grande há uma pequena placa de madeira, estilo oeste americano, com os dizeres `ponto de informação`. É lá onde você vai encontrar o `Nizão`, sujeito simpático e extrovertido que oferece entre uma cachaça e outra um bom papo e muitos causos engraçados. Nizão faz do seu bar um ponto de encontro, onde sertanejos e viajantes param para prosear. Na verdade, contadores de causos não faltam por aqui, o sertanejo, apesar do jeito simples e pacato, depois de alguns minutos de conversa espalha alegria por onde passa.

Para quem pretende visitar o parque, é preciso comunicar com antecedência a direção e contratar um guia local. A estrutura para receber visitante é precária, quase não existe, tente programar sua visita no período da festa do `Encontro dos Povos do Grande Sertão`, uma ótima oportunidade para vivenciar e conhecer de perto as danças, tradições e comidas dos sertanejos, uma chance única de perceber toda riqueza cultural dos povos que vivem nas entrelinhas do grande sertão descrito pelo mestre Guimarães Rosa.

Seguindo para o PN Cavernas do Peruaçu.

Januária Arinos

  
  

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