VIAJE COMIGO 31 | PERU - Nazca

Nossa viagem pelo Peru continua atravessando o deserto que cobre o sul do país.

  
  

A Cultura Nazca e suas misteriosas linhas
Nossa parada de hoje é em Nazca, uma cidade batizada com o nome da cultura que dominou esta região no primeiro milenio. O Povo Nazca nos deixou uma rica herança cultural, na forma de ricos tecidos, cerâmicas, piramides escalonadas e as impressionates linhas e desenhos espalhados pela árida planície.

A cultura Nazca floresceu no deserto aproximadamente em 100 a.C. e permaceu por mais 900 anos. Este antigo povo, versado na arquitetura e na astronomia deixou nas areias do deserto obras que resistem ao tempo e as intempéries. O clima seco, a ausência de chuvas e os ventos amenos preservaram sítios arqueológicos importantes como, por exemplo, Cahuachi, a capital do império Nasca, assim como as famosas linhas que cobrem quilômetros do deserto. Os Nazca logo descobriram que a água não corria por cima da terra e sim através de lençóis freáticos. Com muita técnica construíram aquedutos subterrâneos captando a água que descia das serras e as conduzindo para suas plantações e casas. Estes túneis foram construídos com pedras e cobertos por uma madeira muito dura chamada Huarango. Esta madeira é tão resistente que ainda hoje os aquedutos continuam a ser utilizados pela população e a madeira original continua firme, sem apodrecer. Para manter os canais abertos os Nascas construíram poços de manutenção em forma de espiral, facilitando assim o acesso aos túneis. Alguns têm até 12 metros de diâmetro e cerca de 5 metros de profundidade.
A herança mais famosa dos Nazca são sem dúvida as linhas e os desenhos feitos a cerca de 1.500 anos atrás e que se estendem por dezenas de quilômetros sobre uma planície seca e calcinada. As linhas e figuras geométricas são muito maiores do que os desenhos. Algumas linhas têm até 20 km de comprimento e ultrapassam a planície subindo e descendo montanhas. São perfeitamente retas e muitas delas se cruzam entre si. Alguns dizem que foram feitas por extraterrestre, mas a teoria mais aceita (e que também acredito) é de que algumas linhas (30% delas) apontavam para fontes de água, as figuras geométricas eram lugares de cerimônias religiosas e que os desenhos de animais e algumas linhas marcavam a posição do sol, da lua e das estrelas em diferentes épocas do ano, como os solstícios de verão e inverno. Com estas informações, os Nascas podiam prever as chuvas, ventos e consequentemente, saber a melhor época para plantar e colher. As figuras, geralmente bem menores (de 10 a 300 metros) estão espalhadas entre as linhas e parecem representar as constelações celestes. Elas são desenhadas uma única linha continua como se fosse um fio desenrolado sobre o chão. Há um só inicio e um só final. Muitos estudiosos crêem que os desenhos eram usados em rituais de adoração e sobre eles adoradores caminhavam em procissão homem após homem. Quando faziam isto, tornavam as linhas mais profundas e marcantes, agradando assim a seus deuses. Muito interessante!
A melhor maneira de se observar as linhas é certamente pelo ar. Por isto fomos bem cedo até o aeroporto da cidade e embarcamos em um monomotor para sobrevoar o Pampa de San José, a planície onde estão grande parte das linhas. São mais de 300 desenhos e figuras espalhadas por quase 500 km quadrados. Recentemente, foram descobertos ainda mais desenhos na planície da Palpa, à uma hora de vôo de Nasca o que aumenta ainda mais a área a ser estudada. Nosso sobrevôo se resumiu às linhas de Nasca e demorou cerca de meia hora. Pudemos observar de perto (a apenas 100 metros do chão) os principais desenhos e figuras de Nasca. O vôo não teve turbulência, mas as curvas fechadas que o pequeno avião faz para mostrar aos passageiros as linhas, não são para qualquer um. O nosso piloto, Capitão Ricardo, se mostrou muito habilidoso e capaz. Durante o vôo tivemos uma real noção da grandeza das linhas. Notamos que muitas delas foram apagadas pelo tempo e pelas raras pancadas de chuva. Assim mesmo, elas impressionam pela quantidade e precisão. Quanto aos desenhos, os mais interessantes foram às figuras do macaco, da aranha e do colibri. Muitas linhas e desenhos estão sobrepostos e as linhas mais longas sobem e descem montanhas, se estendendo por vários quilômetros. Sem dúvida o sobrevôo é a maneira de se observar as linhas. Para entendê-las melhor, ontem e hoje fomos conhecer as linhas de perto, desde o chão. Para construí-las, os Nascas retiraram a camada superior do solo removendo as pedras escuras que cobrem a superfície. As maiores linhas não têm mais do que 30 centímetros de profundidade. A camada inferior é mais clara do que a superfície escura e este contraste faz com que as linhas sejam visíveis a dezenas de quilômetros. Nesta altura, você deve estar se perguntando: Como elas sobreviveram 1.500 anos? A explicação é que a ausência de chuvas, o que evita a erosão e os ventos amenos mantêm a superfície da planície sempre limpa de areia.

As linhas de Nasca foram descobertas no começo do século XX, quando os primeiros vôos comerciais atravessaram a região, mas só foram realmente estudadas com a chegada da matemática alemã Maria Reiche na década de 50. Maria dedicou quase 50 anos de sua vida ao estudo, preservação e divulgação deste impressionante sítio arqueológico. No inicio, ela vinha sozinha, onde passava vários dias no deserto fazendo medições e limpando as linhas com uma vassoura. O povo da cidade não entendia o que ela estava fazendo e a apelidaram de “Gringa Loca” por estar sempre varrendo a areia. Seu empenho e persistência foram recompensados. No final da sua vida ela já era reconhecida mundialmente como a “Dama das linhas” e considerada uma verdadeira heroína pelo povo peruano e pela população local. Sua pequena casa no deserto se converteu em um museu e varias ruas, prédios e até o aeroporto de Nasca levam seu nome. Foi ela que desenvolveu a teoria de que as linhas são um grande mapa astronômico representando constelações e marcando os movimentos dos astros. Seus últimos anos foram passados no Hotel Nasca Lines que lhe cedeu um apartamento. Hoje, o hotel possui um pequeno planetário onde todas as noites são feitas projeções sobre as linhas e o trabalho de Maria Reiche.

Não podemos deixar Nazca sem mencionar a necrópole de Chauchilla, também conhecida como cemitério de múmias. Nesta planície extremamente árida os Nascas, e depois a cultura Ica-Chincha, depositaram seus mortos na forma de múmias, todos envoltos em ricos tecidos e cercados por seus bens, cerâmicas e jóias. Infelizmente os ladrões de tumbas (Huequeros em espanhol) chegaram antes dos arqueólogos e todas as tumbas foram profanadas. Com isto, a maioria dos tesouros se perdeu e o que sobrou foram ossadas e tecidos espalhados por todo o vale. Os arqueólogos reuniram o que puderam e colocaram novamente nas tumbas, mas muitos ossos, tecidos e pedaços de cerâmica continuam espalhados pela areia. Hoje Chauchilla é o único museu de múmias a céu aberto no mundo.

Peter Goldschmidt

  • Peter Goldschmidt é membro da Família Goldschmidt que desde 1999 viaja pelo mundo descobrindo e divulgando novos roteiros turísticos. É também diretor da agência de turismo Gold Trip. www.goldtrip.com.br – (11) 4411-8254
  
  

Publicado por em