As montanhas nevadas de Huaraz

Ontem saímos das ruínas de Caral (ao nível do mar) às 15 hrs debaixo de uma temperatura de 35 graus.

  
  

Ontem saímos das ruínas de Caral (ao nível do mar) às 15 hrs debaixo de uma temperatura de 35 graus. Três horas depois estávamos a 4.100 metros de altura, tremendo de frio diante dos 5 graus que faziam no alto dos Andes. O sol já estava se pondo quando cruzamos o Paso Conococha. Os últimos raios de sol ainda iluminavam o cume do nevado Caullarahu, fazendo brilhar sua crista branca. Vestimos nossos casacos da Timberland e mais aquecidos percorremos as duas horas restantes até Huaraz, onde chegamos a noite. Nos hospedamos no hotel Andino, pertencente a um suiço. Me perguntei por que um suíço construíria um hotel aqui. Minha resposta chegou ao amanhecer. Ao abrir a janela, deslumbrei na minha frente uma imensa cordilheira com vários picos nevados. Arrepiei na hora, primeiro pela visão, depois pelo frio.

Sandra Brincando com uma Lhama

Huaraz está localizada no Callejon de Huaylas, um lugar onde Cordilheira dos Andes de divide em duas. De um lado segue a Cordilheira Negra, com picos que se elevam até os 5.800 metros, todos sem neve. Do outro lado está a Cordilheira Branca com 32 picos acima dos 6 mil metros e coberta de neve eterna e glaciares. O mais alto deles é o Huascaran com 6.768 metros, a terceira maior montanha das Américas. Entre as duas cadeias de montanhas corre o rio Santa, que traz vida e prosperidade as inúmeras vilas do vale. A Cordilheira Negra é essencial para a existência da Branca, pois é ela que recebe e absorve o ar quente e salgado que vem do oceano. Quando recebe neve, esta não dura mais do que dois dias. Ela serve de proteção para a Cordilheira Branca onde a neve nunca desaparece.

Huaraz, a principal cidade do vale e capital do estado de Ancash tem hoje 80 mil habitantes. E a cidade base para as centenas de turistas que chegam para visitar a região ou para praticar escalada e trekking. São 38 diferentes trilhas que cortam canions e vales das duas cordilheiras. Sentimos os efeitos da altitude assim que chegamos. O Soroche, com é chamado o mal das alturas, produz mal estar, enjôo, dor de cabeça e até desmaios. A melhor maneira de evitá-lo é fazer refeições leves, caminhar devagar, beber muita água e tomar constantemente o chá de folha de coca. Ao contrario do que muitos pensam, a folha de coca não é alucinógena e não tem efeitos colaterais. Pode também ser mascada. Usada a se milhares de anos pelos povos andinos é praticamente uma instituição andina. Sem ela é muito difícil fazer alguma atividade por aqui.

Mercado de Yuncay

A Ingrid foi a que mais sofreu com a altitude. Sentiu enjôo e mal estar. Por isto hoje não pode sair conosco e ficou de molho no hotel. Eu, Sandra e o Erick fomos com nosso guia Cristian percorrer o vale. Passamos por várias vilas, algumas delas com grandes feiras dominicais. Na vila de Yungay, decidimos conhecer um delas e percorremos as barracas em busca de produtos da região e pessoas com vestimentas típicas para fotografar. Não era fácil pois ou as pessoas viravam os rostos ou pediam “propina” (gorjeta) para se deixar fotografar. Mesmo assim conseguimos boas fotos. Descobrimos que as feiras não são feitas par turistas estrangeiros, normalmente mais altos que população local. A todo o momento eu ficava enrroscado em tendas baixas e fios que cruzavam a rua a 1,70 mts de altura (tenho 1,86). Tive que ter muita atenção para não levar um choque ou morrer enforcado. Em certo momento, vi uma senhora vendendo raspadinha de gelo. Até aí nada de mais. O inusitado é que o gelo não era produzido na cidade e sim trazido de um glaciar a quase 5 mil metros de altura. Retirado com picareta e transportado em lombo de burro, demorava 2 dias para chegar até a feira. Era um pedaço de gelo formado a centenas de anos que virava uma raspadinha de 80 centavos. Incrível!

Sandra - Ruinas de uma Igreja

Nossa visita a feira foi na verdade na vila de Nueva (nova) Yungay. A velha já não existe mais, se transformou em um enorme cemitério. Vou explicar: Em 31 de Maio de 1970 houve um grande tremor na costa peruana. Este tremor alcançou os Andes e causou vários desmoronamentos. O maior deles foi a queda de uma parte do cume do Huascaran. Em 5 minutos, uma torrente com 57 milhões de metros cúbicos de rochas, água e gelo desceu pelo vale arrasando tudo o que encontrava no caminho. E no caminho estava cidade colônia de Yungay, na época com 28 mil habitantes. Em segundos tudo foi coberto por lama e gelo matando, quase que instantaneamente, 25 mil pessoas. Da cidade original, ironicamente, a única que sobrou foi o cemitério, construído em cima de uma colina. Ali foram encontrados cerca de 80 sobreviventes que tiveram tempo de se refugiar. Como não havia como resgatar os mortos, todos foram deixados no local onde morreram soterrados e a área da antiga cidade convertida em um gigantesco cemitério. Ao caminhar por entre as rosas plantadas e as cruzes colocadas sobre onde antes existiam casas, sentimos um sensação estranha. Ainda se pode ver os restos da igreja e 4 das 36 palmeiras da praça principal enterradas sob 5 metros de terra. Um ônibus literalmente dobrado em dois é uma das poucas evidencias visíveis da força da natureza. Enormes pedras brancas trazidas do alto da cordilheira jazem por toda parte como testemunhas silenciosas da tragédia. Enquanto gravávamos a Sandra gritou: Avalanche! Olhamos para traz assustados a tempo de gravar um enorme avalanche de gelo no cume do Huascaran. Ficamos em silencio e apreensivos enquanto víamos aquela enorme nuvem branca descer até a base do glaciar. Ufa, foi só uma pequena amostra do que aconteceu a 38 anos atrás.

Avalanche

Passado o susto, subimos em direção ao Parque Nacional Huscaran, mais precisamente a Quebrada de Llanganuco, entre o Huascaran e Huandoy com 5.793 metros. Subimos pelo vale por uma estrada sinuosa até 4 mil metros onde paramos em um mirante. Dali pudemos observar 4 grandes nevados, todos acima dos 6 mil metros e o vale abaixo com dois grandes lagos. Ao descer, notamos que por toda a volta haviam grande pedras que rolaram do alto dos paredões de granito durante algum dos vários terremotos da região. Passamos por um desmoronamento que havia matado 15 acampantes Checoeslovacos. No vale paramos nas duas lagoas para fotografar e admirar sua beleza. A primeira foi Orconconcha, com águas esverdeadas e com muitas aves. A segunda, Chinanconcha, tinha águas azul-turqueza devido a sua origem glaciar. Pareciam pintadas no Photoshop. Suas margens estavam cheias de Polilephis, uma árvore andina também conhecida com árvore-folhas, pois seu tronco descasca como folhas de papel.

Sandra e Peter no Lago Chinancocha

Foi um dia cheio de emoções e descobertas. Estou encantado com a regão de Huaraz e impressionado com tanta beleza. Escrevo enquanto estamos voltando para o hotel. Estou ansioso para se ver a Ingrid melhorou. Espero que sim pois gostaríamos que tivesse vivido as emoções de hoje junto conosco. Aproveitem as fotos e amanhã nos encontramos novamente aqui,

Abraços

Peter Goldschmidt - www.familiagold.com.br

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