Diário de um pernilongo

Amigos, vocês não sabem como eu tenho sido feliz. Desde que embarquei neste ônibus meio esquisito há alguns meses, tenho vivido muitas aventuras e peripécias, uma verdadeira pernilodisséia. Neste ônibus, ou motorhome, como escuto o pessoal daqui f

  
  

Amigos, vocês não sabem como eu tenho sido feliz. Desde que embarquei neste ônibus meio esquisito há alguns meses, tenho vivido muitas aventuras e peripécias, uma verdadeira pernilodisséia.

Neste ônibus, ou motorhome, como escuto o pessoal daqui falar, vive uma família de humanos muito saborosa.

Todos são bem saudáveis (às vezes até demais) e possuem uma variedade bem satisfatória de sangue.

Numa mesma noite posso variar de “A” a “O”, passando por todas as outras letras do alfabeto.

Gosto especialmente de um humano grande, que parece ser o chefe da família. Seu sangue é inconfundível, e mesmo com várias opções no cardápio durante a noite, eu sempre o prefiro devido ao seu sangue doce e muito saboroso.

Não pensem porém que o jantar é sem concorrência. Outros colegas, menos experientes também tentam jantar no mesmo prato, mas, como pernilongo mais velho, tenho minhas regalias neste território.

Nas noites quentes posso sair de minha casa (que fica debaixo daquela pecinha, que fica atrás daquele cano, no fundo daquele armário) e fazer a festa naqueles “cuerpos calientes”.

É lógico que minhas refeições não são calmas e tranqüilas como as que eu tinha quando vivia pelos campos e pastos. Aqui a vida é muito mais estressante.

A todo momento enormes mãos tentam me agarrar, esmagar, trucidar. Isto tem exigido de mim todas as técnicas aprendidas na Universidade dos Sangue-Sugas.

Meus professores ficariam orgulhosos de mim. Estes cruéis e egoístas humanos nunca querem dividir seu sangue conosco. Afinal, eles têm tanto!

Ao invés disto, eles sempre tentam nos liquidar, e sempre das maneiras mais criativas possíveis. Começaram colocando um aparelho esquisito na tomada da parede.

Um cheiro horrível, mas suportável. Vocês não imaginam como é difícil saborear o sangue com um fedor daqueles.

Alguns colegas simplesmente desistem e vão embora, outros ficam imóveis nas paredes esperarando o cheiro passar, o que normalmente só acontece de manhã, justo quando temos que ir dormir (com exceção do companheiro mosquito Aedis Egyptis, aquele sortudo).

Outra tentativa que quase me levou um dia para o paraíso dos pernilongos foi um tal de inseticida.

Um aparelho comprido, colorido e que solta um vento muito forte com um liquido altamente perigoso.

Infelizmente vi muitos companheiros tombarem diante de tão terrível arma. Algumas noites a matança era tão grande que eu ficava espantado, era um verdadeiro pernilongocídio. Terrível!

Se não fosse a técnica de prender a respiração com uma das asas que aprendi com o mestre nipo-soviétivo Ota pernilongosvisk com certeza já estaria sugando sangue de defunto no cemitério.

No entanto, vocês não imaginam a dificuldade de voar sem ar e com uma asa só. Mas sobrevivi.

Não pensem que eles só fizeram estas tentativas para me destruir. O ódio destes seres por nós é imenso.

Às vezes ouço o pai (meu prato predileto) gritar, correr, bater palmas no ar, tudo com a intenção de me destruir.

A mais recente tentativa foi um “arrastão” feito todas as noites pela família, onde cada um tenta matar o maior numero de nós, usando a matança como um tipo de competição. “Quem matar mais ganhará um prêmio” gritava entusiasmado o humano maior.

As crianças são especialmente habilidosas e cruéis. Há um menino que outro dia (vejam só) pegou um dos meus companheiros vivo.

Ao invés de dar a ele uma morte rápida e indolor, o criativo fedelho segurou meu amigo pelas pernas e colocou-o bem pertinho de uma lâmpada acessa.

Quando meu amigo estava bem quente, ele o colocou na saída de ar frio do ar condicionado.

O cruel menino fez isto várias vezes até que nosso companheiro (acho que era bahiano) pegou uma pneumonia e morreu. Isto não se faz!

Infelizmente, já vi muitos companheiros tombarem. Alguns novos, outros mais velhos.

Durante esta viagem tive a oportunidade de conhecer companheiros de diversas regiões deste país.

Conheci pernilongo com sotaque, pernilongo que bebia água de coco, alguns que comiam macaxeira e outros que não podiam tomar nem sangue sem saborear junto um pouco de farinha.

Durante estes meses, troquei muitas informações, aprendi bastante, mas infelizmente de todos que passaram por aqui, só eu sobrevivi.

Novos companheiros continuam chegando, mas sem a minha experiência não duram muito tempo.

A fêmea humana parece ser a única que não se importa muito conosco. Não sei se ela é bondosa ou insensível.

Dorme sempre enrolada em um lençol o que dificulta muito as coisas para nós.

Talvez, inspirado nela, o dono do ônibus criou a mais nova arma contra nós, um imenso véu que cobre toda a cama. Aparentemente não é uma arma fatal, mas é extremamente cruel.

Você já imaginou ficar a noite inteira olhando para aqueles corpos quentes, cheios de sangue fresquinho e sem poder tomar nenhuma gotinha? É torturante!

Tenho até passado fome. Às vezes consigo tirar um lasquinha da cadelinha adotada pela família, mas não é a mesma coisa. Tem muito pêlo!

Alguns companheiros foram embora, outros ficam toda a noite com o olhar fixo através da tela.

Ficam tão hipnotizados pelo inatingível jantar, que nem percebe quando a menina da família chega em silêncio e lhe acerta uma bela palmada. Triste fim!

Morrer com a visão do paraíso, mas sem poder alcançá-lo. Outro dia, até que um companheiro jovem e mais audaz conseguiu entrar naquela proteção e fez uma festa diante de nossos olhos incrédulos.

Mas infelizmente, ele não conseguiu achar a saída daquele labirinto de pano e teve que passar toda a noite lá dentro.

De manhã, quando os humanos acordaram e perceberam tudo o que ele havia sugado durante a noite, ele foi fatalmente assassinado pelas mãos daqueles cruéis seres que lhe acertaram com uma bela palmada.

Companheiro, não sei como será meu futuro, nem por quanto tempo vou sobreviver.

Escrevo estas poucas linhas na esperança de passar um pouco da sabedoria que adquiri a vocês jovens pernilongos.

Nunca desistam. Nunca se recolham para o fundo do armário e passe as noites com medo de sair.

Voe, lute, sugue, desenvolva seu potencial e descubra sempre uma nova técnica de sobrevivência. Quanto a mim, ainda não desisti.

Apesar da fome e da fraqueza, todas as noites fico ali, no mesmo lugar, grudado naquela tela infernal que me separa do fresco líquido da vida.

Tenho esperança de ainda achar uma solução para este tão profundo dilema.

Dentro de mais alguns dias, se a fome apertar e não conseguir outra fonte de alimentação terei que tomar uma decisão drástica: ou voar para longe e arranjar um novo lar, ou entrar naquela fortaleza transparente e tentar minha sorte em uma única noite.

Talvez pereça, talvez sobreviva, talvez...........

Envio então o meu abraço a todos amigos pernilongos espalhados por este imenso país varonil.

Saudações também para o Grã mestre Perny, que tanto tem me inspirado.

E finalmente um grande abraço em minha mãe, que apesar de ter me abandonado ainda larvinha naquela poça d’água no interior de São Paulo, é a ela que eu devo a minha vida.

Saudações zumbísticas a todos,

P. Erni Longo

  
  

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