Naufrágio no Marajó

Fomos convidados pela Ana Teresa Acatauassu (leia-se Fazenda Sanjo) para conhecer outra fazenda da família no interior da ilha, ainda no município de Soure. A fazenda não tem nenhum preparo para receber turistas, mas seria uma ótima oportunidade d

  
  

Fomos convidados pela Ana Teresa Acatauassu (leia-se Fazenda Sanjo) para conhecer outra fazenda da família no interior da ilha, ainda no município de Soure.

A fazenda não tem nenhum preparo para receber turistas, mas seria uma ótima oportunidade de conhecer o dia-a-dia de uma fazenda típica marajoara.

O mais difícil no entanto seria a ida, pois seriam duas horas de lancha e mais 4 horas a cavalo. Nossa viagem, no entanto, foi interrompida por um acontecimento que mexeu com cada um de nós.

Enquanto viajávamos pelo rio do Saco, ultrapassamos um barco de uns 15 metros de comprimento que carregava um trator e alguns passageiros.

Era um barco novo, recém pintado, sem motor ou identificação. Estava sendo rebocado por dois outros barcos menores.

A ultrapassagem foi feita em uma curva do rio. Uns 50 metros adiante, olhamos para trás e vimos que o barco começava a virar. Foi uma visão horrível!

Devido à uma imperícia do navegador, à curva e ao peso do trator, o barco adernou até tombar completamente, ficando de ponta cabeça na água.

O rio tinha uns 100 metros de largura e uns 10m de profundidade. Dentro da cabine ficaram presas 4 das 7 pessoas que estavam a bordo.

Assim que vimos o acidente, viramos nossa lancha e fomos até o local. Eu, a Ana e o Maurício pulamos na água e recolhemos quem estava boiando.

Por várias vezes mergulhamos tentando entrar na cabine onde estavam duas mulheres e duas crianças, mas sem sucesso.

Como não conhecíamos a estrutura da embarcação, tudo ficava mais difícil.

Eu mesmo mergulhei várias vezes mas bati com a cabeça na lateral do barco enquanto procurava uma entrada.

Ao mesmo tempo que tentava entrar, pensava nos meus filhos ali ao lado e não queria tomar nenhuma atitude que os deixassem sem o pai.

A morte do meu pai quando eu tinha 6 anos de idade vinha sempre à minha cabeça.

Eu estava dividido entre o medo e a responsabilidade. Sabia que, a menos de 2 metros de mim, algumas pessoas podiam estar morrendo e ao mesmo tempo tinha medo de ficar preso com elas dentro do barco.

Cada segundo parecia uma hora. Cada mergulho parecia uma eternidade. Todos gritavam. Quem já havia sido salvo, quem estava salvando.

Havia informações desencontradas de quem estava ou não dentro da cabine. Nunca tinha passado por situação semelhante.

Sentia coragem, medo, determinação, receio, tudo junto. Depois de alguns minutos, por graça divina, uma das moças emergiu segurando um bebê de 6 meses.

Enquanto a Ana abraçava a mulher, eu segurei a criança com uma das mãos e nadei até nosso barco.

Durante estes segundos percebi que a criança não respirava e temi que ela estivesse morta. Falhei! Pensei imediatamente.

Em nosso barco a Sandra (que filmava tudo) orientou o Carlos (marido da Ana) a bater nas costas do bebê e tentar ressuscitá-lo.

Depois de alguns segundos o nenê vomitou um pouco de água e começou a chorar. Estava salvo.

A mãe resgatada estava descontrolada, foi preciso muitos gritos enérgicos para fazê-la subir em nosso barco e se acalmar.

Ela gritava que a sua mãe e sua outra filha estavam presas lá embaixo e que iriam morrer. Voltamos a tentar entrar no barco, mas sem sucesso.

Alguns minutos depois ouvimos gritos e choros. As duas náufragas tinham acabado de emergir do outro lado do barco, assustadas, porém salvas.

Assim como a filha, ela havia conseguido mergulhar e sair por uma janela, mais de 8 minutos depois do barco ter virado.

Resultado: todos foram salvos. Esta foi uma experiência assustadora que não desejo para ninguém.

Uma coisa é ver um filme sobre acidentes, outra é presenciá-lo e sentir-se impotente diante de tantas dificuldades.

Isto me fez pensar em nossa fragilidade e nossa incapacidade diante dos acontecimentos.

Hollywood nos faz acreditar que todos somos super heróis, que podemos fazer tudo sem nenhum problema.

Saltar, girar, mergulhar, salvar pessoas, todos temos em nosso subconsciente a imagem de que somos capazes de tudo isto, até chegar o momento onde a ficção encontra a realidade.

Estão vemos que não somos nada, somos meros humanos, com nossas fraquezas e fragilidades. Ficamos nús diante de nossos erros e medos.

Percebemos que somos como fumaça que agora existe e amanhã não existe mais.

Este acidente me fez pensar em como dependemos de Deus, de sua misericórdia e de seu cuidado.

Sem Ele não somos nada, a não ser um minúsculo grão de poeira dentro deste infinito universo.

Hoje, nas minhas orações, antes de pedir qualquer coisa agradeço muito a Deus por estar bem e por ele me manter assim: Vivo e com saúde.

`Atendei, agora, vós que dizeis: Hoje ou amanhã, iremos para a cidade tal, e lá passaremos um ano, e negociaremos, e teremos lucros. Vós não sabeis o que sucederá amanhã. Que é a vossa vida? Sois, apenas, como neblina que aparece por instante e logo se dissipa. Em vez disso, devíeis dizer: Se o Senhor quiser, não só viveremos, como também faremos isto ou aquilo.` - TIAGO 4:14

Salvaterra (Ilha de Marajó) Soure (Ilha de Marajó)

  
  

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