Algumas reflexões sobre o Ano internacional das Montanhas

O ano de 2002 foi declarado o Ano Internacional das Montanhas pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de incentivar o debate e a conscientização do mundo sobre esse frágil ecossistema, assim como para estimular os países na implantação

  
  

O ano de 2002 foi declarado o Ano Internacional das Montanhas pela Organização das Nações Unidas (ONU) com o objetivo de incentivar o debate e a conscientização do mundo sobre esse frágil ecossistema, assim como para estimular os países na implantação das políticas e ações de desenvolvimento sustentável propostas pela Agenda 21 em seu Capítulo 13 (Gerenciamento de Ecossistemas Frágeis: Desenvolvimento Sustentável das Montanhas).

Essa Agenda, documento final da Conferência da Terra, realizada na cidade do Rio de Janeiro em 1992 (RIO 92), apresenta uma série de medidas a serem tomadas pelos países, na busca de uma utilização sustentável dos recursos da Terra, visando o seu usufruto, não só pela população atual, mas também pelas futuras gerações.

Vários países estão se preparando para o encontro RIO+10, a ser realizado esse ano na África do Sul, onde serão discutidas as realizações mundiais nos dez anos de vigência da Agenda 21 e suas perspectivas. Aqui no Brasil, mais especificamente em relação às montanhas, será realizado entre 15 e 16 de agosto, no Parque Nacional do Itatiaia (RJ/MG), o Seminário de Mobilização, com o objetivo de sensibilizar o país e propor medidas sustentáveis quanto ao uso desses frágeis ambientes, assim como contribuir com idéias e trabalhos para a delegação brasileira na Conferência RIO+10.

As montanhas são fontes de vários recursos naturais importantes para o homem, como água, energia e diversidade biológica. Mas, devido às suas características, são extremamente frágeis e vulneráveis à degradação ambiental, tanto natural quanto, principalmente, humana. Por isso, é extremamente necessário a conscientização da população mundial no que se refere à proteção desse ecossistema, se quisermos preservar nossa qualidade de vida. Além da utilização econômica irresponsável dos recursos montanhosos ao longo dos anos, existe um risco recente, mas não desprezível, e que diz respeito diretamente a nós, amantes da natureza: é o turismo dito ecológico, que vem crescendo muito nos últimos anos.

Todos nós devemos ter consciência que ir para as montanhas requer um comportamento ecologicamente correto, consciente da fragilidade desse meio e da nossa responsabilidade em preservá-lo, evitando qualquer atitude, por menor que seja, que possa pôr em risco esse ambiente. O Código Brasileiro de Ética de Escalada, elaborado durante o 1º Congresso Brasileiro de Montanhismo em 1993, declarou que “todo escalador (tomo a liberdade de acrescentar e todo montanhista) tem o dever moral de transmitir uma boa atitude em relação à montanha e à prática do esporte`. Esse é um documento que visa o comportamento ético em um esporte específico, a escalada.

O que não impede de ser plenamente adaptável ao montanhismo em geral, no que diz respeito à ética, à moral e ao respeito ao meio-ambiente. Mas, no plano pessoal e humano, ir ao encontro da Natureza não é simplesmente visitar, admirar, usufruir e preservar uma bela paisagem. É algo muito maior, é místico: estar na Natureza é como voltar para casa depois de séculos de exílio. É perceber que somos irmãos de cada ser vivo e de cada rocha e sermos reconhecidos como tais pelo vento e pela chuva; é se entregar completamente a essa explosão de força e beleza e, ao reaprender Suas leis, sentir que somos parte do Universo.

Pôr em prática a idéia de percorrer a John Muir Trail em pleno Ano Internacional das Montanhas foi uma feliz coincidência. No momento em que decidi realizar o projeto no início do ano, não me lembro de ter passado pelas idéias, uma consideração que fosse sobre a decisão da ONU. Mas, na medida em que as notícias sobre esse evento iam aparecendo e a minha viagem se concretizando, pensar na possibilidade e na oportunidade de fazer o elo entre os dois foi um processo natural. Só que existia um motivo mais importante para essa ligação: como montanhista, eu tenho o dever moral de falar sobre esse evento mundial. E faço fé que a minha caminhada, simples e solitária na sua estrutura, consiga se juntar a tantas outras vozes que já estão aí, chamando a atenção para os ecossistemas de montanha e a necessidade de sua preservação. Pois quanto mais se toca num assunto, mais se ouve falar nele; conseqüentemente, mais se fala nele, o que leva mais gente a ouvir sobre ele, e...

  
  

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