Uma idéia que se materializa no ar

Enquanto leio no jornal sobre a descoberta do crânio do Homem de Toumai, no Chade/África, empurrando o início da evolução humana de uns 4 para 7 milhões de anos atrás, começo a escrever sobre a evolução do planejamento de meu projeto (sem comparações, é l

  
  

Enquanto leio no jornal sobre a descoberta do crânio do Homem de Toumai, no Chade/África, empurrando o início da evolução humana de uns 4 para 7 milhões de anos atrás, começo a escrever sobre a evolução do planejamento de meu projeto (sem comparações, é lógico!), que durou de Fevereiro a Junho.

Como um arqueólogo que busca indícios em meio ao terreno, eu garimpava informações e dicas num terreno não muito real: a Internet. Foram sites e mais sites visitados durante horas na frente do computador, o Outlook se enchendo de e-mails, além dos papéis, notas, recados, etc...tudo formando um quebra-cabeça que ia, pouco a pouco, se estruturando numa bela e fantástica trilha - a John Muir Trail.

Quando decidi percorrê-la ainda no início do ano, eram tantas as dúvidas e preocupações que só me restava uma única e simples atitude: estabelecer um cronograma e fazer uma coisa de cada vez, passo-a-passo. Não adiantaria ficar ocupando a mente com perguntas cujas respostas eu sabia que só viriam semanas mais tarde...Não! Nesse momento, deve-se acreditar na idéia e ir a luta. E foi com esse pensamento que as coisas foram acontecendo, e o dinheiro aparecendo. `Cada coisa a seu tempo` é, realmente, uma grande máxima! A primeira decisão a tomar, ainda em Fevereiro, era o sentido da caminhada. Essa é uma questão importante, não só porquê determina a que Parque solicitar a permissão, mas também o nível de esforço logo no início. Pelo seguinte: se você começa pela extremidade sul, deve-se andar até o início oficial da John Muir, localizado no Monte Whitney, cujos 4.417 metros de altitude estão, somente, há uns 13 quilômetros de distância do Whitney Portal, a entrada principal do Inyo National Forest. Considerando esses poucos quilômetros a percorrer e o fato da entrada principal estar localizada a 2.548 metros acima do nível do mar, o ganho vertical - 1.869 metros - não é nada desprezível. Além disso, sendo o início da caminhada, a mochila estará carregada com comida para uns 8/9dias, no mínimo!

Para dificultar, até chegar ao ponto de reabastecimento escolhido - Vermilion Valley Resort - fica-se uma grande parte do tempo acima dos 3.000 metros!! Como não teria tempo para uma aclimatação adequada antes da caminhada, mudei minha atenção para a extremidade norte - Parque Nacional de Yosemite

Nesse Parque, o início da trilha localiza-se em Happy Isles, a apenas 1.230 metros de altitude. O primeiro ponto mais alto da trilha, o Cathedral Pass (2.957 metros), será alcançado depois de se caminhar longos 28 quilômetros. Até o VVR, uns 6/7 dias do início da trilha, o caminhante permanece a maior parte do tempo entre os 2.500 e os 3.000 metros, raramente ultrapassando esse limite máximo. Com isso, o ganho de altitude é muito mais suave, garantindo uma semana de aclimatação para enfrentar a segunda, e mais alta, metade da John Muir até o Monte Whitney.

Existe ainda uma questão burocrática. O Monte Whitney, pela facilidade de acesso através da trilha principal (que parte do Whitney Portal), é uma das montanhas mais visitadas nos EUA. Para os meses de verão, o Inyo National Forest estabelece uma `loteria` já no mês de Fevereiro, para sortear uma cota fixa e reduzida de permissão, ao custo de US$ 15,00 cada. É possível chegar à essa montanha por outras trilhas e sem custo, mas com a desvantagem de acrescentar uns 2/3 dias de caminhada. Já no Yosemite, eu li em algum lugar que a solicitação de uma reserva saía por apenas US$ 5,00.

Ao receber pelo correio, no início de Março, a confirmação de minha reserva, notei que só indicava o dia de entrada (14/08) e o local (Happy Isles). Não falava nada da permissão para fazer toda a trilha e muito menos quanto a escalar o Monte Whitney. Além disso, meu cartão de crédito nunca foi debitado nesse valor. Com a pulga atrás da orelha por meses, resolvi pedir ao Shaun - amigo de Los Angeles e pessoa de apoio desde o início do projeto - para confirmar com o Parque. Não custava nada. Afinal...eu estava indo para os EUA somente para fazer essa trilha, e não queria nenhuma surpresa em cima da hora.

Dias depois, ele me mandava um e-mail com a confirmação da reserva para fazer toda a John Muir Trail, incluíndo a subida ao Monte Whitney...e sem custo algum!

Enquanto ia resolvendo essas questões burocráticas, a preparação física desenvolvida pelo Carlos Sposito ia surpreendendo. Todo final de semana eu recebia (e ainda recebo), religiosamente, por e-mail, a planilha da semana seguinte. Dia após dia, lá estava eu (e ainda estou) caminhando enquanto a aurora despontava, pois é de manhã que eu tenho o melhor rendimento. Esse é um dos trunfos de um treinamento personalizado e a distância: você faz seu horário. E os resultados têm sido fantásticos...Valeu Sposito! Para potencializar esse preparo físico, procurei minimizar o peso a ser carregado na mochila. Esse processo, que descreverei na próxima atualização, me levou a descartar um monte de detalhes dos equipamentos que só fazem aumentar o peso, sem oferecer nada de essencial em troca. No final, fiquei impressionado com a quantidade de peso-morto que a agente carrega nos ombros.

  
  

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