Aclimatação e suas implicações para o turismo em altitude

Entenda o que é aclimatação, etapa importante da pratica de escalada em altas altitudes e saiba porque ignorá-la pode ser perigoso (e caro!)

  
  
Matterhorn

Destino: Montanha!

O turismo de Aventura está em ascensão em todo o mundo. Cada ambiente tem suas peculiaridades e desafios. O turismo de altitude atrai milhares de pessoas, aumentando a cada ano. Se você faz parte desse grupo ou sonha em fazer é importante saber que para sua aventura nas alturas tenha sucesso um passo importantíssimo é a aclimatação, ou seja, uma adaptação do organismo aos novos parâmetros atmosféricos.

A aclimatação

Com a altitude duas coisas básicas fazem com que seja imperativo que se dê um tempo para seu corpo se aclimatar: a queda da pressão atmosférica e a diminuição da concentração de oxigênio no ar. Se alguém saísse do nível do mar e subisse instantaneamente o Monte Everest, ficaria inconsciente em poucos segundos e morreria logo depois. No pico do Everest a pressão atmosférica é cerca de um terço e o oxigênio inspirado corresponde a 28% do nível do mar. Apesar de estarmos falando de 8848 metros de altitude, as alterações orgânicas necessárias para a aclimatação já começam a partir de 1500 metros e a aclimatação é necessária mesmo para qualquer altura acima de 2000 m.

Pulmão

Com a diminuição da oxigenação dos tecidos, o corpo inicia uma série de mecanismos compensatórios. O primeiro deles é o aumento do número de respirações por minuto (hiperventilação), uma maneira de compensar a menor quantidade de oxigênio (O2) no ar. Com isso consegue-se deixar os níveis desse gás no sangue próximos ao normal. No entanto, a hiperventilação também aumenta a quantidade expirada de gás carbônico (CO2), que é ácido e ajuda na regulação do Ph sanguíneo. Assim, sua diminuição no organismo causa uma diminuição do Ph, condição chamada de alcalose respiratória. Há duas soluções para esse tipo de alcalose. Ou diminuir o ritmo respiratório, o que não é desejável já que é ele que compensa a falta de O2, ou jogar fora uma base, nesse caso o bicarbonato. O bicarbonato é excretado pela urina, por isso a quantidade de urina aumenta muito na altitude e faz parte da aclimatação.

Com o aumento da altitude e conseqüente diminuição da pressão e do oxigênio, só a hiperventilação não é capaz de assegurar a oxigenação dos tecidos. Logo entra em cena outro mecanismo de adaptação: o aumento da freqüência cardíaca. O sangue chega com menos oxigênio, porém passa mais vezes, garantindo suprimento adequado. A hipóxia (diminuição do oxigênio no sangue) também causa alteração na circulação sanguínea pulmonar e cerebral, porém nos casos de aclimatação bem sucedida essas alterações não causam maiores problemas.

Topo

A aclimatação de longo tempo possibilita que a performance em exercício também se iguale a do nível do mar, sendo esta o tipo necessário para a prática de esportes, como fazem os jogadores de futebol. O principal responsável por isso é o hormônio eritropoetina, que estimula a produção de hemáceas, os glóbulos vermelhos, responsáveis pelo transporte de O2 no sangue.

A falta de oxigenação é a responsável por outros sintomas que, embora desconfortáveis, não representam seriedade e podem ceder ou melhorar com o tempo. A cefaléia (dor de cabeça) está constantemente presente, porém na maioria das vezes ela é controlada com analgésicos simples. Também o sono é prejudicado, sendo este mais leve e acompanhado por uma alteração do padrão respiratório (aumento da freqüência seguida de curtos períodos de apnéia – parada total dos movimentos respiratórios), o que está dentro do esperado.

Todo esse processo de adaptação leva algum tempo que, se não respeitado, pode levar a uma série de doenças relacionadas à altitude, sendo as mais comuns o Mal Agudo da Montanha, o Edema Cerebral de Altitude e o Edema Pulmonar de Altitude. Essas doenças podem causar desde uma incapacidade para seguir viagem até serem fatais em alguns casos.

O sucesso da aclimatação depende de um processo orgânico complexo envolvendo vários sistemas (pulmonar, cardíaco, vascular, excretor...). Uma avaliação médica pré-viagem é recomendada, idealmente com especialista em medicina de expedição, que vai avaliar as condições de saúde do turista em relação ao tipo de estresse do ambiente a ser visitado e pode inclusive prescrever medicamentos que auxiliem no processo de aclimatação.

Vista

Cuidados

Quanto ao tempo necessário, a recomendação é passar 2 a 3 noites entre 2500 e 3000 antes de iniciar a subida e uma noite extra para aclimatar cada 1000 m de subida. Nunca exceder 600 m ao dia. Cuidado com pacotes turísticos que são mais baratos e curtos as custas de dias de aclimatação. Como o tratamento definitivo das doenças de altitude é a descida, a economia pode significar a perda do passeio e da aventura.

Dra. Maria Carolina da Wild Doctors



Wild Doctors - Medicina de Expedição

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