As mesetas

Olá Amigos! Peregrinos no caminho Foto: Valentine Moreno Sahagún – 30 de Maio de 2004 Santiago a 475 km Foto: Valentine Moreno Depois falo sobre este lugar… Acacio, Orietta e Rodrigo Foto: Valentine Moreno Hoje (29/05) chegamos à m

  
  

Olá Amigos!

Peregrinos no caminho

Peregrinos no caminho
Foto: Valentine Moreno

Sahagún – 30 de Maio de 2004

Santiago a 475 km

Santiago a 475 km
Foto: Valentine Moreno

Depois falo sobre este lugar…

Acacio, Orietta e Rodrigo

Acacio, Orietta e Rodrigo
Foto: Valentine Moreno

Hoje (29/05) chegamos à metade do caminho. Já percorremos 429 quilômetros. Como havia dito, a paisagem mudou: foram 38 Km em terreno plano a 850 metros de altitude. A paisagem é seca e vimos, até hoje, poucos monumentos, apenas um povoado e uma cidade de Frómista, Calzadilla de La Cueza. Foram seis horas de monotravessia, 90 minutos de descanso em duas paradas de 45 minutos. São 5 horas e darei uma parada na escrita pois aqui não existe nada além do albergue, um bar e uma dúzia de casas. O caminhão de frutas e afins acaba de chegar, vou lá e já volto…

No caminho

No caminho
Foto: Valentine Moreno

Voltei, outro dia vou detalhar nossas tarefas diárias.

No caminho

No caminho
Foto: Valentine Moreno

Para trás

Voltar é uma coisa que aqui só acontece em caso de extrema necessidade ou urgência, como foi com o Renato. Em uma das etapas ele perdeu toda a grana, passaporte, passagem e outras coisas que se encontravam na sua pochete. Ele teve de voltar uns 15 Km, que, para piorar, eram fora do caminho. Neste dia nós erramos um trecho e pedalamos 5 Km a mais, o que é muito depois de 30. Resumindo, um professor alemão que fazia o percurso com uns alunos encontrou a pochete, que estava no caminho certo, e a devolveu intacta. Um aprendizado para ele com o susto e meu por não me manifestar até saber o desfecho da história.

Voltando no dia de hoje, o sol escaldante na cabeça durante seis horas deve ter perturbado meu raciocínio, tantas voltas…

Esse albergue é especial e sua localização é estratégica: fica numa esquina bem na entrada do povoado sendo praticamente o primeiro lugar avistado na chegada. O caminho de hoje, todo plano com piso de cascalho de fundo de rio, castigou o equilíbrio do mono. Pedalei 17 Km, de Carrion de Los Condes, e parei apenas uma vez fazer uma boquinha e descansar um pouco.

Esse trecho foi o que mais exigiu paciência, um grande teste psicológico. O sol ardia na pele, o horizonte longe, uma estrada sem fim… Perto do povoado, ainda no caminho, avistei uma torre, a torre do cemitério, a única longe da igreja em toda Espanha. Logo pensei, chegamos.

Chegamos nada, ainda faltava chão. Quando cheguei bem próximo a torre, no alto de uma pequena elevação no caminho, vi o oasis, assim senti sobre esse lugar. Logo veio uma vontade de voltar para casa e, ao mesmo tempo, o pensamento: voltar para quê? Não tenho idéia de como será minha vida. Não tenho trabalho certo, estarei sem grana nenhuma, quem sabe não volte… Sinto saudade da minha terra, do meu povo…

Momento de reflexão

O meio do caminho é um momento de reflexão… A etapa de hoje foi dura e só estando aqui para saber o que é chegar neste lugar. Nenhum guia diz, nenhuma pessoa que já fez o caminho vai dizer. Só mesmo estando aqui, na frente desse albergue ou na janela, para saber como está um peregrino quando ele se encontra nos metros finais dessa dura etapa… Não há como não parar para pensar e refletir sobre a vida, sobre as lições aprendidas, sobre o próprio pensamento.

Chegamos bem cansados e o caminho nos recompensou. Fomos recebidos pelo único hospitaleiro brasileiro que vive no caminho, o Acacio. Claro que recepção melhor não tivemos. Deixarei umas palavras na mão dele, que está aqui há cinco anos e tem muita história para contar…

Um forte abraço a todos e um grande beijo a todas…

No mais, o mesmo…

Rodrigo Racy

“Peregrinos do Brasil – sem dúvida já sabemos que a etapa das mesetas é a maior de todo o caminho. Muitos peregrinos, vindos de todas as partes do planeta, procuram não caminhar por estes campos áridos, frios, quentes e solitários. Solitário é como se caminha melhor”.

Procuramos juntos atuar de maneira a evitar o famoso “vôo” do peregrino sobre Castilla. Mas se peregrino voa, devemos ir além na interpretação desse fenômeno. É dizer: “castilla és ruin, dura, hace calor, no hay comodidades, el paisaje es monótono”, entre outras expressões não parece responder a raiz do problema, pois parecidas circunstâncias se davam na geografia castellana há dez anos. Mas também acreditamos que tem ligação com essa dinâmica estranha que move certos peregrinos. É dizer: o peregrino marcha no Caminho levando, em sua mochila mental, sua própria dinâmica cotidiana. Tenho pressa, não tenho tempo, o calor me faz suar, estou de férias, isto já conheço, etc… Faz-se um grande peregrino turista e egoísta.

Amigos peregrinos, este ano escolho estar no meio deste deserto precisamente há três quilômetros antes da metade do caminho de Santiago, onde aqui em Calzadilla de La Cueza encontra-se um albergue de nome Camino Real. Espero poder vê-los para ajudar no que for preciso, colocar um carimbo na credencial e poder oferecer um gole de água fresca após estes 17 Km solitários, secos e áridos.”

Com carinho brasileiro,

Acacio da Paz e Orienta Prendin

  
  

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