Santiago, aqui estou!

Olá Amigos, Monumento no Caminho de Santiago Foto: Valentine Moreno Sai de Barbadelo no dia 13 de junho, domingo, sem muito rumo. Em princípio, ficaria no primeiro povoado depois de Portomarin, mas chegando lá não gostei do que vi e decidi seguir

  
  

Olá Amigos,

Monumento no Caminho de Santiago

Monumento no Caminho de Santiago
Foto: Valentine Moreno

Sai de Barbadelo no dia 13 de junho, domingo, sem muito rumo. Em princípio, ficaria no primeiro povoado depois de Portomarin, mas chegando lá não gostei do que vi e decidi seguir até o próximo povoado, que era pior ainda. Decidi, então, ganhar terreno e pedalar até Palas de Rey, o que totalizaria 40 Km de percurso.

Auto-retrato

Auto-retrato
Foto: Rodrigo Racy

Para minha surpresa, 8 Km antes de Palas de Rey passei por Ligonde. O albergue deste lugar fica bem no caminho, em um pequeno povoado que vive apenas da pecuária. As casas são praticamente no curral. É uma loucura como esse povo vive. A passagem por ali foi muito convidativa e resolvemos ficar. Na frente do albergue tinha um galão de café, um de leite, açúcar, fitas cassetes, mapas, orações e etc. É albergue de um grupo cristão norte-americano. São nove hospitaleiras, garotas belas e livres, um harém. Alem do café, do leite e das outras coisinhas, dormimos lá de graça, jantamos, tomamos café da manhã no outro dia sem gastar um tostão.

Albergue de Ligonde

Albergue de Ligonde
Foto: Rodrigo Racy

Um lugar muito diferente de todos da Galicia. Era aconchegante e a recepção, carinhosa. Acredito que esse albergue só é assim por não figurar em nenhum guia. Só o descobre quem passa e presta atenção. Tenho certeza de que muitos peregrinos não devem nem ter visto esse lugar. Lamento por eles e agradeço por mim.

Conversei durante um bom tempo com uma das garotas, que falava espanhol. Tirei fotos e deitei no sol em cima de um antigo carro de boi desativado e tirei uma soneca. Na Galicia venta muito e na sombra da até para sentir um friozinho dependendo da hora.

O banho desse lugar foi o melhor de todos. A água estava na temperatura ideal. Banho frio, tô fora. O banheiro era limpo, tinha sabonete liquido e tudo. Jantei com todos que ali estavam e fui dormir.

Sai cedo para Arzua, o pior lugar do caminho que fiquei. Digo isso por causa do momento que vivi ali. Não ficou nada. Só dormi e segui em frente. Sobre o dia 14, segunda-feira, não há muito o que contar.

No dia 15 comecei minha jornada às 6h30. Pedalei alucinado os 38 Km até o Monte do Goso. Da maneira como vinha pedalando, só chegaria a Santiago no dia 18. Parei um dia em Triacastela para me recuperar e isso atrasaria o calendário. Assim, mudei o planejamento e deixei faltar apenas 4 km no quinto e último dia antes de chegar a catedral de Santiago. Tudo certo. Dias puxados depois do que passei, mas como me sentia totalmente recuperado foi um pulo chegar a Monte do Goso, que fica distante os 4 km do ponto final.

No dia anterior, analisando o guia, percebi que não havia mais nada de interessante para ser visto. Nenhum monumento, nenhum lugar especial a não ser o caminho propriamente dito. A paisagem seria muito semelhante a dos últimos três dias. Pensei, as imagens que necessito já tenho e este é o ultimo dia longo de pedal. Resolvi, então, dar um perdido no Renato e na Val. Dois quilômetros antes de chegar a Monte do Goso parei para esperar os dois. Esperei, esperei, esperei... Duas horas e meia depois eles apareceram. Fomos até os monumentos de peregrinos. De lá se avista, bem de longe, as torres da Catedral de Santiago no meio das montanhas. O céu compõe a linha do horizonte. Fizemos as imagens necessárias e seguimos para o albergue.

Nesse momento um flash do caminho passou por meu pensamento e tive a sensação de que estava vivendo isso há muito tempo. Um povoado que se encontrava há quatro etapas parecia estar há oito etapas, e assim vai. Esse caminho ainda vai me deixar louco... O dia ali já foi bem estranho, uma sensação esquisita, um certo vazio. Alegria e tristeza misturadas.

Pois bem, hoje, dia 16 de junho, sai às 8 horas para pedalar os últimos 4 Km. Um pouco antes de chegar a cidade de Santiago, passei ao lado do aeroporto e, nessa hora, pensei: voltarei ao aeroporto e, de cima, vou ver esse lugar, que é um pedaço marcante do caminho, já que são últimos quilômetros dos 868,2 pedalados durante 31 dias – fiquei três dias parados. Foram nove meses de trabalho e agora sinto uma mistura de sentimentos.

Às 8h30 cheguei ao marco 0 do caminho, em frente a majestosa Catedral, edificada na praça do Obradoiro. Deitei no chão em cima do marco e fiquei por um bom tempo delirando, lembrando do que senti, do que vivi, das pessoas que conheci, das lições que aprendi. Enfim, de todo o caminho até chegar aqui. No meu pensamento as lembranças do caminho me faziam sentir um tanto mais leve. A mochila parecia estar vazia e o coração, cheio.

Estou aqui. Cheguei, fiz o que disse e posso dizer de boca cheia: missão cumprida!

Meu espírito agora repousa em paz. As emoções vividas estão cravadas no meu peito, no meu coração e essa passagem de vida é só minha.

Agora, quem sabe, posso encontrar o início do meu caminho. Da minha vida.

E, você, está esperando o quê para ir em busca do seu caminho? Dos seus sonhos?

Muito obrigado a todos que me acompanharam nessa jornada pela força que me deram todo esse tempo. Foi realmente de grande valia!

Vencemos mais essa!

Um forte abraço e um grande beijo no coração.

No mais, o mesmo...

Rodrigo Racy

  
  

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