Surpreendente esse caminho

Olá Amigos, Pedalando com Mikel e seu cachorro Aker Foto: Valentine Moreno Pensei que esta seria uma etapa dura e monótona por estar nas mesetas (terreno plano de mesma paisagem apesar da altitude). Engano meu. A mágica do caminho reverteu esse qu

  
  

Olá Amigos,

Pedalando com Mikel e seu cachorro Aker

Pedalando com Mikel e seu cachorro Aker
Foto: Valentine Moreno

Pensei que esta seria uma etapa dura e monótona por estar nas mesetas (terreno plano de mesma paisagem apesar da altitude). Engano meu. A mágica do caminho reverteu esse quadro e me arrepiou. Logo no começo da travessia, na terceira etapa, em Puente la Reina, conheci Mikel, um espanhol paraplégico que está percorrendo o caminho em um triciclo adaptado no qual ele pedala com as mãos. Trocamos algumas palavras, tiramos algumas fotos e gravamos uma passagem de vídeo. Tudo isso aconteceu logo cedo, na hora em que nos preparávamos para começar a pedalar. Daí, cada um seguiu seu caminho.

Juntos depois de pedalar

Juntos depois de pedalar
Foto: Valentine Moreno

Em Calzadilla de la Cueza, no deserto, voltamos a nos encontrar, na metade do caminho. Nesse dia sim nos conhecemos um pouco melhor, soubemos do ideal de cada um, dos porquês de estar ali e etc. Propus nos encontrarmos em Sahagún, a próxima parada, para pedalarmos juntos. Naquele dia iria pelo caminho, o que para ele é complicado pois o triciclo anda mais no asfalto e bem pouco na terra. Assim, não nos vimos em Sahagún. Ele fica num furgão adaptado que sua mulher, também paraplégica, conduz. Esse é seu carro de apoio. Seria impossível ele percorrer o caminho de outra maneira.

Sombra

Sombra
Foto: Valentine Moreno

7h30 – Sahagún - destino a Reliegos

Cruzando o trilho de trem

Cruzando o trilho de trem
Foto: Valentine Moreno

E não é que encontro Mikel acabando de se arrumar para sua jornada diária na primeira curva do caminho? O que pensar nessa hora? Não pensei em nada, apenas senti e vivi mais esse presente do caminho. Seguimos pela estrada e, por ser uma estrada asfaltada, quase sem carros, ele levou Aker junto, seu belo “perro” negro. Pedalamos uns 15 Km e Aker, de repente, resolveu voltar. A Val e o Mikel voltaram uns 3 Km para resgatar o cachorro, que é como um filho para Mikel. Esperei um tempo e quando vi, de longe, os três voltando, respirei aliviado e seguimos viagem.

Filmando enquanto pedala

Filmando enquanto pedala
Foto: Valentine Moreno

Esse dia foi muito especial. Estar do lado de Mikel me deu muita força e entusiasmo. Foi um dia em que havia sentido um pouco de preguiça na hora de levantar e ela sumiu na presença dele. O prazer de pedalar com o Mikel, tirar fotos e gravar a passagem do vídeo foi grande. Ele disse a mesma coisa, quer coisa melhor? Ser feliz e fazer alguém feliz nos momentos em que podemos é tudo de bom! Ele foi a primeira pessoa que cruzei nesse louco caminho que me ofereceu sua casa e me convidou para ir visitá-lo quando quisesse. Respondi simplesmente: idem.

Chegamos a Burgo Ranero depois de 20 Km de pedal muito rápido. O tempo voou. Durante o pedal prometi que daria um presente para o Mikel. Então, tirei a bandeira do Brasil do mono e dei para ele, que me pediu para colocá-la na haste do triciclo por ser um presente especial. Mais fotos, imagens de vídeo e nos despedimos. Dissemos um ao outro: nos vemos algum dia ou talvez em Santiago, se assim Deus quiser.

Fiz uma pausa para um lanchinho e logo segui.

Faltavam 10 Km para Reliegos e pensei, agora vai ser penoso. Que nada, resolvi pegar o brinquedo do Renato e aproveitar que estava pedalando no asfalto para testar algumas imagens. Pedalei entrevistando o Renato, a Val e falando comigo mesmo com a câmera virada para mim. De repente, vi um cruzamento com uma linha férrea, um lugar sem igual. Fiquei empolgado e coloquei a Val e o Renato para trabalhar. Tiramos muitas fotos e gravamos diversas imagens. Foto daqui, filma dali, vai de novo, pára aqui.... Foi um momento muito prazeroso!

Seguimos e, quando menos esperava, surgiu a placa: Reliegos.

Nesse lugar vi uma curiosidade do caminho. Claro que vi outras, mas essa é diferente. Olhando de longe é impossível saber o que é e de perto, também. Perguntei ao hospitaleiro o que eram aquelas construções encravadas na terra, que lembrava o vilarejo de Hobbit do filme o Senhor dos Anéis. Ele me disse que há mais ou menos 100 anos eram adegas, onde se fabricavam vinhos, que ficavam estocados em grandes tonéis. As construções eram encravadas na terra para que a temperatura sempre ficasse em torno dos 10º C, o ideal para conservar e envelhecer a produção. Hoje são como uma espécie de “toca” de campo. Os proprietários vão com suas famílias e amigos passar o dia para beber e comer carneiro em volta de uma pequena mesa, aquecidos por uma minúscula lareira. Dentro é apertadinho e detalhe, muito aconchegante.

Essas coisas do caminho ainda vão me enlouquecer!

Beijos e abraços,

No mais, o mesmo...

Rodrigo Racy

  
  

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