Acidente antecipa volta ao Brasil

41º. Dia da Expedição a Patagônia Chilena. De volta a Santiago. Mundo Andino Estimados Amigos! Mundo Andino Em terreno de aventura estamos sempre a margem do imprevisível, do desconhecido, algo que nos fascina, mas que também nos enche de

  
  

41º. Dia da Expedição a Patagônia Chilena. De volta a Santiago.

Mundo Andino

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Estimados Amigos!

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Em terreno de aventura estamos sempre a margem do imprevisível, do desconhecido, algo que nos fascina, mas que também nos enche de ansiedade. Depois vem a satisfação, uma satisfação que às vezes pode ser traduzida como um grande alívio. Então relaxamos, ficamos em um estado de contemplação, pensativos, buscando entender o que a natureza nos quis ensinar e a importância desta nova experiência. É impossível não chegar a um consenso que tudo valeu a pena, e agradecer a Deus, e aos amigos, por tudo acabar bem.

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Estamos de volta a Santiago, a grande capital chilena com mais de 4 milhões e 500 mil habitantes, já com saudades da paz da Carretera Austral, das montanhas. Uma volta antecipada a vida normal e, logo, uma volta antecipada ao Brasil. O motivo: estamos satisfeitos com os resultados desta Primeira Expedição do Projeto Mundo Andino e sofremos um pequeno acidente (sem maiores conseqüências).

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Fica mais fácil explicar o que aconteceu nos últimos dias, relatando a seqüência dos fatos após a conquista do San Valentin. Por isso, se você não leu o relatório anterior, recomendo que o leia, tenho certeza que assim tudo ficará mais claro.

Bem, no dia 5 de fevereiro, Renato e eu chegamos no cume do San Valentin (4.058m), às 11:35hs. Cerca de meia hora depois, Irivan e Marcelo chegaram no cume do Fiero (3.415m) (fizemos um contato via rádio entre os cumes das duas grandes montanhas, a olho nu nada se via, com a ajuda do binóculo apenas pontinhos negros que se mexiam). O Irivan e o Marcelo optaram por não subir o San Valentin, ficaram nos dando apoio de um acampamento localizado a 1.600m (acampamento 4), depois de um dia de descanso aproveitaram para escalar o Fiero deste mesmo acampamento.

Depois do cume do San Valentin, Renato e eu descemos até o acampamento 5 (2.750m), descansamos um pouco, desmontamos a barraca, e continuamos com a intenção de encontrar nossos amigos. Até o colo (2.400m) situado entre o La Torre e o Fiero, nosso caminho foi tranqüilo. Eram cerca de 22 horas, voltamos a fazer contato via rádio com o Irivan e o Marcelo, que ficaram atentos. Nossa descida do colo se mostrou logo no início problemática, a neve estava muito mole, devido ao calor. Quando começamos a enfrentar um trecho de gretas gigantescas vimos que seria muito perigoso, as pontes de gelo estava frágeis, rachaduras no glaciar por todos os lados, era melhor voltar. Subimos novamente até o alto do colo, onde montamos a nossa barraca. Levantaríamos bem cedo, para passar entre as gretas quando a neve estivesse bem dura. Enquanto montávamos a barraca, nasceu a lua cheia entre o San Valentin e o Cuerno del Plata, a brisa era suave, a visão espetacular nos reconfortava.

Na manhã seguinte descemos do colo guiados pelo Irivan e pelo Marcelo através do rádio, eles nos acompanhavam do acampamento 4 com binóculos. Seria muito difícil descer sem a ajuda deles. Mesmo iniciando a descida bem cedo, tivemos problemas entre as gretas, principalmente na parte final da descida onde encontramos uma neve completamente mole, ensopada, devido ao calor que mal havia sido amenizado pela noite (fez uma temperatura de 2 graus positivos à noite, bom se tivesse feito algo em torno 10 negativos).

Quando Renato e eu chegamos no acampamento 4 (1.600m) passavam poucos minutos da 11 horas e Irivan e Marcelo já estavam com os trenós prontos. Nos cumprimentamos e eles logo entraram em movimento, seguindo direto em direção ao colo (2.200m) entre o Cristal e o Mocho, pelo mesmo caminho que haviam feito anteriormente. Renato e eu estávamos sem trenós, carregando nas mochilas um peso parecido com o deles, cerca de 30 quilos, o que era incomodo e cansativo.

Mais descansados, pois haviam dormido ali mesmo no acampamento 4, Irivan e Marcelo logo desaparecem de vista. Renato e eu, que vínhamos do colo entre o La Torre e o Fiero, seguimos mais lentos, com a curiosidade de ver por onde aquele caminho nos levaria, uma vez que na entrada do Gelo Patagônico havíamos feito um grande desvio ao sul para nos livrarmos das gretas. Também estávamos preocupados com o calor de mais uma tarde de puro sol, a neve pela frente estava cada vez mais mole.

O caminho escolhido pelo Irivan e pelo Marcelo no início era bem seguro, contornava todos os grandes grupos de gretas e logo nos levou para a base da rampa que nos levaria ao alto do colo. Grandes zigs e zags marcavam a neve na nossa frente, também sem grandes obstáculos, até desaparecerem na parte alta do colo. Lá em cima vimos dois pontinhos pretos apressados, haviam passado, era um bom sinal.

Renato e eu começamos a nossa subida deslizando em uma neve completamente ensopada, pesada. As peles de foca (sintéticas) dos esquis mal travavam a descida dos mesmos (as cerdas invertidas da pele de foca permitem subir com os esquis). Renato se atrapalhava um pouco menos com sua raquete de neve. Sem as raquetes ou os esquis talvez fosse impossível a subida.

Na parte superior da subida começamos a enfrentar gretas assustadoras. O sol forte e o calor me deixaram apreensivo, o risco de uma das pontes de gelo ruir era imenso. Em uma certo momento deixei a mochila para trás e fui rastejando literalmente até a borda de uma das gretas, Renato foi dando segurança, deixando a corda bem esticada. Quando coloquei a cabeça para dentro da greta vi um profundo buraco azulado pela luz que entrava do outro lado, com cerca de 5 metros de largura e pelo menos uns 15m de profundidade. A ponte de gelo não tinha mais do que 30cm de espessura em sua parte mais estreita. Ali era muito arriscado passar. Olhei para os lados e não havia como desviar aquela greta. Fui avançando então devagar, cavando a neve com a ponta do piolet, até que consegui pular para o outro lado. Fiz um risco na neve uns 30cm antes e depois do meio da greta, voltei até o Renato para pegar a minha mochila e os esquis e disse que em nenhuma circunstância ele poderia pisar dentro dos riscos na neve. Mais uma vez passei por sobre a greta (agora com a pesada mochila) com o coração na garganta. Fiz um buraco de quase um metro de profundidade do outro lado e lá no fundo bati uma estaca de neve. Preparei a segurança e o Renato veio avançando devagar, quando ele estava sobre a greta dei um puxão e só relaxei quando vi que a ponte de gelo tinha resistido ao seu peso de 95Kg + 30 e poucos Kg de mochila.

Depois desta greta vieram outras, mas fomos ganhando a altura do colo, onde chegamos às 21 horas, extremamente aliviados. Olhamos para trás e demos adeus ao Gelo Patagônico, iniciando a descida do outro lado. As gretas continuavam aparecendo, em um número muito maior do que as que encontramos em nossa entrada por aquele colo, em razão do tempo excepcional dos últimos 5 dias. O fato do Irivan e o Marcelo terem passado pelo mesmo caminho algumas horas antes não nos servia muito de consolo, pois a neve continuava mole e o risco de uma queda bem grande.

Parecia que não teríamos mais problemas e na verdade surgiu o pior deles quando já estava praticamente noite. Uma enorme greta aberta surgiu em nossa frente, olhei bem para os lados me perguntando por onde nossos amigos teriam passado e tive a triste conclusão que eles haviam saltado! Isso mesmo, saltado para o outro lado, que ficava pelo menos uns dois metros abaixo!

A greta tinha cerca de um metro e meio de largura, em uma encosta inclinada. Deixei a mochila, pedi para o Renato dar uma folga na corda de uns 5 metros, contei 1... 2... 3.... e não saltei! Então, de novo, disse `coragem Waldemar`, e novamente 1... 2... e me joguei lá para baixo saltando os dois metros, felizmente me enterrando na neve até o joelho. Arrastamos as mochilas com a ajuda das cordas e depois veio o Renato, saltando a greta já no escuro, provavelmente sentindo a minha mesma insegurança.

Chegamos em um pedaço de rocha, a 1.800m de altitude. Nosso acampamento 1 (1.540m) não estava longe, mas estávamos muito cansados, já eram 23:30hs, tudo escuro e um caminho traiçoeiro pela frente. Na beira do precipício chamamos pelo rádio os nossos amigos, do acampamento 1 nos responde o Paulo, e o Irivan e o Marcelo logo perguntam como foi o `pulo da greta`. Nos acenamos de longe com a luz das lanternas e voltamos para as pedras onde esticamos os nossos sacos de dormir. Nem montamos a barraca, passamos a noite contemplando a lua cheia.

Na manhã do dia 7 de fevereiro não demorou muito e já estávamos todos reunidos no acampamento 1. Abraços apertados para comemorar as escaladas do San Valentin e do Fiero, mas também para aliviar a tensão de perambular pelas gretas.

Mais uma vez mochilas ainda mais pesadas nas costas e descida empinada para baixo. Por volta dos mil metros de altitude a primeira árvore, o bosque, as flores e os rios encachoeirados, o desértico Gelo Patagônico ficava para trás e a vida renascia com um maior esplendor para os nossos olhos.

Até aqui, tudo bem. Tudo estava em ordem. Tínhamos apenas que atravessar o comprido Lago Leon para darmos por terminado a nossa aventura ao San Valentin, pois depois seria apenas uma longa caminhada até o conforto do nosso caminhão Andino.

Atravessar o Lago Leon (cerca de 1 hora para percorrer os 8Km) era algo nervoso para mim. Nosso bote de 2,4m, o Totora, carregado com as mochilas, parecia nada no meio de tanta água, e não esqueçam `bem gelada`, tanto que os tempanos (pedaços de gelo) estavam boiando por todos os lados. Sempre que o vento levantava as ondas um frio corria pela minha espinha.

Fui o primeiro passageiro do Marcelo na primeira travessia do dia 8 de fevereiro. Depois de uns 10 minutos tivemos que buscar a margem e aliviar o peso deixando um dos sacos com equipamentos. Confesso que cruzei o lago de 12Km de comprimento por cerca de 3Km de largura não vendo a hora de pisar em terra firme.

Meus amigos continuaram as sucessivas viagens, mais 3 delas sobre o lago gelado, enquanto eu fui caminhando lentamente em direção a fazenda onde estava estacionado o Andino, levei 6 horas para chegar até lá. O motivo de eu me adiantar era avisar o Sr. Rolando para ir no dia seguinte até o Lago Leon buscar a nossa carga com os seus cavalos.

Bem, no dia seguinte, 9 de fevereiro, no final da tarde chegou o Sr. Rolando com os cavalos e toda a nossa carga, mas nenhum dos meus companheiros. O jantar estava pronto, havia acabado de fazer um bolo de chocolate para a sobremesa, a água do banheiro estava quente para uma boa ducha, tudo para recepcioná-los da melhor maneira, mas onde estavam??? `Desceram pelo rio com o bote de borracha` me disse o Sr. Rolando!!! Senti aquele frio na barriga!!!

As águas do Lago Leon são levadas até o gigantesco Lago General Carrera através dos 25Km do Rio Leon. O Rio Leon chega a ter quase 200 metros em suas partes mais largas, é caudaloso, possui várias corredeiras, principalmente logo após a desembocadura do Lago Leon. Para os amantes da aventura, é algo tentador descer pelas suas águas e em sua história já existem vários relatos de acidentes.

Quase ao anoitecer, vi o Marcelo se aproximando do Andino sem mochila, sem nada, com uma cara das mais assustadas, fui logo entendendo que algo grave havia acontecido. Antes de dar explicações chamou o Sr. Rolando e o Sr. Juan (dono na fazenda que abrigava nosso caminhão). Disse que havia acontecido um acidente, cerca de mil metros abaixo da desembocadura do Rio Leon do Lago Leon. O bote havia virado em uma das corredeiras, jogando todos os seus tripulantes para a sua margem norte. Irivan, Paulo e ele estavam bem, mas o Renato havia sofrido uma grave luxação (deslocamento) do ombro direito (o ombro estava fora do lugar). Marcelo havia tentado colocar o ombro do Renato no lugar, sem sucesso. Ele e Paulo, que se sentiam um pouco melhores, resolveram tentar alcançar a margem sul do rio com o bote, pois deste lado é que estava toda a trilha e a fazenda, com sorte conseguiram. Irivan ficou na margem do rio acompanhando o Renato, que suportava fortes dores. Nossos amigos estavam ilhados, sem comida, roupas secas e nem tinham como fazer fogo. A idéia de Marcelo era logo pela manhã subir com cavalos, fazer uma tirolesa sobre o rio e tirar Renato e Irivan de lá com a ajuda do bote.

Com tantas dúvidas, principalmente com relação ao estado de saúde do Renato, e de como ele realmente suportaria uma noite molhado ao lado de um rio, pedi ao Sr. Juan Aldea que me levasse imediatamente até uma vila que se chama Puerto Tranqüilo, para que fosse visto a possibilidade de um resgate aéreo. Levamos pouco mais de uma hora de camionete até o posto dos `carabineros`, lugar que já conhecia pois lá apresentamos a devida permissão que nos foi concedida pelo Governo Chileno para escalar o San Valentin. Os carabineros foram extremamente atenciosos, rapidamente entraram em contato via rádio com Coyhaique (250Km pela Carretera Austral ao norte) e tudo ficou acertado que no dia seguinte seria feito o resgate.

No dia 10 de fevereiro, às 7:40hs, um helicóptero pousou na entrada da fazenda para receber as últimas informações. Em seguida levantou vôo Rio Leon acima, 40 minutos depois estava de volta trazendo o Renato e o Irivan. O Renato continuou via aérea até o hospital de Coyhaique, onde foi prontamente atendido por uma competente equipe médica que rapidamente colocou o seu ombro no lugar. Tudo acabou da melhor forma possível. O Renato está super bem, praticamente sem dores.

O resgate com o helicóptero nos custou 3 mil e 500 dólares. Agradecemos aos Carabineros de Chile pela excepcional atenção.

O acidente no Rio Leon foi um susto imenso para todos nós, um grande desgaste físico e emocional para todos. Felizmente todos estão bem!

A escalada do San Valentin, o grande objetivo da Primeira Expedição do Projeto Mundo Andino, foi um sucesso!

Vamos voltar agora para o Brasil para um merecido descanso. Estamos chegando em Curitiba no dia 19 de fevereiro às 20 horas.

Até lá!

Sincero abraço,

Waldemar Niclevicz

Fotos de hoje: sol no colo entre o Mocho e o Cristal; o bote Totora ante o Glaciar Leon; o acampamento 2 (de perto) e o 5 (de longe) sobre o Gelo Patagonico.

  
  

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