Equipe Mundo Andino conquista o San Valentin e o Fiero

35º. Dia da Expedição a Patagônia Chilena. Investida ao Gelo Patagônico Norte foi um sucesso. Mundo Andino Estimados Amigos! Mundo Andino É com uma imensa satisfação, e com um certo alívio, que depois de duas semanas voltamos a ter condiçõ

  
  

35º. Dia da Expedição a Patagônia Chilena. Investida ao Gelo Patagônico Norte foi um sucesso.

Mundo Andino

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Estimados Amigos!

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É com uma imensa satisfação, e com um certo alívio, que depois de duas semanas voltamos a ter condições de enviar notícias para todos. Pedimos desculpas por estes dias sem novidades, mas devido a nossa latitude extrema (paralelo 46) e a grandeza das montanhas não conseguíamos contato com o nosso satélite que fica estacionado na Linha do Equador.

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Estamos extremamente cansados, mas, também, extremamente felizes, pois conseguimos escalar uma das montanhas mais difíceis de toda a Cordilheira dos Andes, a maior montanha da Patagônia, o San Valentin (4.058m), além do Fiero (3.415m). Foi a primeira vez que uma expedição brasileira ingressou nestas terras geladas e graças a um perfeito planejamento, um exemplar trabalho de equipe e um tempo excepcional, leva para casa duas importantes vitórias.

Depois de enfrentar no San Lorenzo uma das piores tempestades, sabíamos que poderíamos esperar algo ainda pior no San Valentin. Abundância de chuvas, chuvas a cântaros, neblina, ventos como furacões, tempestades, neve, chuva torrencial, novamente chuva, alpinistas ensopados até os ossos, botas cheias de barro e barracas encharcadas, eram as referências que tínhamos de relatos de outras expedições, das muito poucas que ousaram até hoje se aproximar do Gelo Patagônico Norte e, menos ainda, das pouquíssimas que conseguiram ingressar nos seus domínios gelados.

Assim chegamos assustados no dia 29 de janeiro nas margens do Lago Leon, após quatro horas de caminhada, acompanhados por sete cavalos que levaram a nossa carga. Estávamos armados até os dentes, com comida, combustível e equipamentos para permanecer 25 dias na montanha. As águas do comprido Lago Leon, que estão a 360m de altitude, estavam movimentadas, cheias de ondas que quebravam na praia de pedras. Na outra ponta dos seus 12Km víamos atrás de uma leve neblina a frente vertical de um grande glaciar e em toda a sua extensão flutuavam os tempanos, pedaços de gelo que lentamente eram trazidos para o nosso lado pelo vento.

Certamente não conseguiríamos navegar neste dia, mas inflamos o nosso pequeno bote de 2,4m e montamos o nosso modesto motor de 3,3 HP. Ficamos escondidos atrás de uma grande pedra, vendo os cavalos se afastarem do lago e fugirem do vento gelado. Lembrei da experiência que tive naquele mesmo lugar em 1994, senti novamente aquele ambiente desolador, mas pelo menos não estava chovendo e ao meu lado tinha amigos capazes e dispostos a enfrentarem todo o tipo de adversidades.

No final da tarde as ondas diminuíram de tamanho, Irivan, Marcelo e eu saltamos dentro do bote levando ainda duas grandes mochilas, fomos lentamente fazendo a primeira travessia de 8Km até o lugar escolhido para o nosso acampamento base, o mesmo usado pelos primeiros exploradores em 1940. O bote de borracha foi logo batizado com o nome de “Totora” pelas águas do Lago Leon (totora é um junco que nasce nas águas do Lago Titicaca e até hoje os nativos fazem com ele embarcações e as famosas ilhas flutuantes).

Eram 22 horas quando desembarquei, rapidamente Irivan e Marcelo voltaram para o outro lado (a travessia, apenas a ida, demorou uma hora), onde chegaram já ao anoitecer.

A noite foi solitária, mas logo pela manhã chega o Totora com mais carga e mais um passageiro, o Renato. Deixamos tudo no acampamento-base que montamos a 430m de altitude e fomos buscar um caminho que nos levasse até o início do glaciar. Nossos companheiros de equipe continuaram fazendo as travessias do lago.

Renato e eu atravessamos um lindo bosque repleto de espécies selvagens da Patagônia, coihues magalhânicos, lengas, notros, nalcas, etc, fomos encontrando traços de um velho caminho e o marcando melhor com fitas de plástico alaranjadas. Após os 900m de altitude saímos do bosque e tocamos as primeiras manchas de neve. Com a ajuda do GPS fomos marcando nosso percurso e procurando vestígios de possíveis caminhos de outras expedições. Acabamos chegando no alto de uma elevação de 1.300m de altitude e vislumbramos em nossa frente todo o Glaciar Leon, e o passo Cristal ou Leon, um colo por onde deveríamos passar para ingressar no Gelo Patagônico. Deixamos ali nossa carga e voltamos satisfeitos ao acampamento-base, onde o Paulo, o Irivan e o Marcelo nos esperavam, após completarem com sucesso a travessia do lago.

O dia 31 de janeiro amanheceu ensolarado, hora de ganhar tempo, carregamos as mochilas ao máximo e subimos. Quando entramos no Glaciar Leon encontramos algumas pegadas e ficamos curiosos, alguém também estava por ali. Aos 1.350m de altitude, vimos as pegadas seguirem outra direção que a nossa, mesmo assim fomos conferir para ver de quem eram. Acabamos encontrando um francês, um italiano e um alemão, que haviam acabado de escalar o Mocho (2.440m), feito uma tentativa frustrada no Cristal (2.745m) e desistido do San Valentin devido ao elevado número de gretas. Nos desaconselharam totalmente a prosseguir dizendo que o perigo de cair em gretas era imenso, mas nos indicaram o colo entre o Mocho e o Cristal ser um caminho muito melhor do que o colo que enfrentaríamos, entre o Cristal e o Tronco. Mudamos rapidamente de itinerário, chegando no alto de uma crista, a 1.540m de altitude, onde montamos nosso acampamento 1. Fiquei ali com o Renato. Irivan, Marcelo e Paulo votaram para o acampamento-base.

O dia 1º de fevereiro amanheceu ainda melhor. Renato e eu escolhemos provisões para seis dias e deixamos um recado para que Marcelo e Irivan fazerem o mesmo e nos seguirem, ainda que com um dia de atraso. Continuamos pela afiada crista, ganhando altura rapidamente, atravessamos as vezes trechos de escalada em rocha, as vezes trechos de escalada em gelo. Quando o altímetro marcou os 2.200m de altitude estávamos no alto do colo e vislumbramos do outro lado toda a imponência do Gelo Patagônico Norte, que parecia não ter fim com os seus 100Km de extensão, um verdadeiro deserto de puro gelo rodeado por montanhas, lembrou-me as paisagens durante a escalada do Vinson na Antártida, uma visão fantástica.

A dúvida era imensa, estávamos nas margens do Gelo Patagônico, mas que direção seguir? Gretas ameaçadoras para o norte e para o oeste, a única opção segura era para o sul onde uma longa rampa descia rumo ao coração do Gelo Patagônico, nos afastando totalmente do nosso objetivo. Foi uma decisão difícil, rumamos ao sul, com a esperança de desviar as perigosas gretas e mais tarde voltar para o norte. Seguimos até as 22:30, quando paramos para acampar no meio do nada, com um silêncio absoluto, sem vento, iluminados pela lua crescente, a 1.800m de altitude.

Tentamos contato pelo rádio com nossos amigos sem sucesso. Deixamos mais um bilhete colado em uma das bandeirolas de sinalização e seguimos rumo ao noroeste, desviando gretas gigantescas, sempre unidos pela corda, eu de esquis e o Renato com raquetes para neve, caso contrário nos afundaríamos na neve até os joelhos. O dia estava espetacular, céu azul, brisa suave, quase inacreditável. Acabamos parando a 1.460m de altitude, na base do Esporão Noroeste do La Torre (2.740m), com a esperança de o desviarmos pelo oeste e encontrar um caminho para o San Valentin. Cada metro do nosso percurso era registrado em dois GPS, um do Renato e outro meu. De madrugada levamos um susto, alguém estava passando no lado de nossas barracas. Que surpresa!!! Eram Irivan e Marcelo, de onde tinham surgido? Bem, vinham de um acampamento a pouco mais de 200m de onde nos encontrávamos, estavam prontos para atacar o cume do San Valentin dali mesmo. Nós havíamos estudado o glaciar de dia e falamos para eles que enfrentá-lo à noite não seria uma boa idéia, mesmo assim eles tentaram, mas logo ao amanhecer estavam de volta desiludidos, pois uma infinidade de gretas tinha impedido a progressão. Isso era uma notícia ruim para todos, se eles não tinham conseguido passar, Renato e eu também não passaríamos. Procurei encorajar a todos a buscar um novo caminho, um colo que existia entre o La Torre e o Fiero poderia ser uma boa opção, mas nestas alturas o Marcelo já havia perdido as esperanças de alcançar o San Valentin, o Irivan ainda tinha as suas dúvidas, mas também já estava farto de se arriscar a cair dentro de uma greta gigantesca (algumas com 10 metros de largura, com mais de 30 metros de profundidade!!!). Era bom reunir a turma e descansar um pouco. Fomos até uma ilhota de pedra no meio daquele deserto de gelo, que fica bem na entrada do colo entre o La Torre e o Fiero, ali montamos outro acampamento a 1.600m de altitude e estudamos a rota com o binóculo. Existiam várias gretas, realmente gigantescas, mas não eram muitas, valia a pena tentar.

Na manhã seguinte, dia 4 de fevereiro, Renato e eu seguimos em direção ao colo, rumando diretamente para o norte, diretamente par o San Valentin. Irivan e Marcelo ficaram no acampamento descansando e em prontidão para nos ajudar caso precisássemos. Eles não tinham feito a volta que demos para o sul, quando chegaram no colo entre o Mocho e o Cristal, desceram diretamente rumo ao oeste, passando momentos delicados entre as gretas, estavam estressados física e emocionalmente.

Renato e eu também nos estressamos entre as gretas, pendurados em paredes com mais de 50 graus de inclinação, vendo a poucos metros abismos verticais no gelo que pareciam não ter fim, mas conseguimos chegar no alto do colo entre o La Torre e o Fiero, a 2.400m de altitude. Vibramos de alegria ao vislumbrar do outro lado toda a imponência do San Valentin, e um caminho de 12Km pelo gelo até ele sem maiores obstáculos. Falamos pelo rádio com o Marcelo e o Irivan, que observaram toda a nossa subida desde o acampamento, nos deram os parabéns, vibraram com nosso progresso e com a breve possibilidade de sucesso. Renato e eu descemos do colo cerca de 100m, logo voltamos a subir lentamente, quando tocamos os 2.750m de altitude e montamos nossa pequena barraca, dali seria o nosso ataque rumo ao cume da maior montanha da Patagônia.

Dia 5 de fevereiro, às quatro da manhã estávamos fora da barraca, iluminados por uma lua cheia. Nenhuma nuvem no céu, apenas uma leve brisa. Renato e eu caminhamos lado a lado, de lanternas apagadas, até chegar aos 3.200m de altitude, quando começou a amanhecer (5:30hs). Subimos até o colo entre o Corno del Plata (3.725m) e o San Valentin e seguimos por uma crista sempre mais empinada rumo ao nosso objetivo. Foi um dos momentos mais belos de toda a escalada, um dos amanheceres mais lindos que já vi em minha vida. O espetáculo de luzes invadindo a noite, a sombra das montanhas sobre a imensidão do Gelo Patagônico, o San Valentin cada vez mais perto. Fizemos dezenas de fotos, filmamos tudo, desfrutamos daquele momento mágico sem pressa.

A caminho do cume, já acima dos 3.700m, Renato afundou dentro de uma greta. A corda que estava bem esticada sustentou com facilidade seus 95Kg, e o susto que poderia se tornar uma tragédia se não estivéssemos atentos, serviu apenas para nos descontrair, porque nós dois caímos na gargalhada, como que comemorando com antecedência a vitória certa. Logo nos deparamos com um dos legítimos cogumelos de gelo, típicos dos cumes da Patagônia, formados pela força dos ventos. Tinha uns 10 metros de altura, mas uma passagem com cerca de 60 graus de inclinação permitia um caminho seguro rumo ao alto do San Valentin. Cheguei lá no alto emocionado, logo se juntou a mim meu amigo Renato para o abraço da vitória, eram 11:35hs – 5 de fevereiro – pela primeira vez a Bandeira do Brasil tremulava no alto da maior montanha da Patagônia, estávamos a 4.058m de altitude.

Agradecemos a todos os amigos que torceram por estas vitórias, especialmente aos nossos patrocinadores, a escola de inglês Wise Up, ao Grupo Positivo e a Volkswagen que nos apóia.

Sinceros abraços a todos da Equipe Mundo Andino!

Waldemar Niclevicz

Nas fotos: Waldemar no cume do San Valentin; Renato sobre a afiada crista entre o Corno del Plata e o San Valentin; vista do cume do San Valentin.

(Aguardem nos próximos dias mais fotos, o relato da conquista do Fiero (3.415m pelo Marcelo e pelo Irivan, e a retirada emocionante, saltando gretas traiçoeiras, para escapar do Gelo Patagônico Norte).

  
  

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