Escalada do Mismi (5.597m)

14º. Dia da Expedição Sul Peru. Em busca das nascentes do Amazonas. Mundo Andino Estimados Amigos! Mundo Andino O dia aqui no Peru está acabando, já são 23:35hs, ai no Brasil o dia já acabou, ou seja, já passou da meia noite, já são 01:35h

  
  

14º. Dia da Expedição Sul Peru. Em busca das nascentes do Amazonas.

Mundo Andino

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Estimados Amigos!

Mundo Andino

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O dia aqui no Peru está acabando, já são 23:35hs, ai no Brasil o dia já acabou, ou seja, já passou da meia noite, já são 01:35hs (dia 7 de abril). Eu ia deixar para atualizar o site amanhã, com calma, depois de um merecido descanso, mas vou aqui, driblando o sono, dando sinal de vida depois de dois dias sem dar notícias.

Mundo Andino

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Estou super satisfeito, mas bem, bem cansado. Hoje escalamos uma montanha muito importante, talvez a mais importante desta segunda expedição do Projeto Mundo Andino, uma montanha que se chama Mismi com 5.597m de altitude, a montanha que detém as nascentes do maior rio do mundo, o Amazonas.

Mundo Andino

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Nossa aventura de escalar o Mismi começou no domingo, dia 4, quando deixamos Chivay (3.600m) em direção a um local chamado Aquenta (4.800m), foram apenas 45Km, mas que levamos o dia inteiro para percorrer, acredite se quiser. E nesse dia lembrei dos piores momentos que tive no último Rally dos Sertões, quando estreei o Andino.

O problema é que nosso guia acreditou tanto em nosso caminhão que nem hesitou em nos indicar o caminho até a base do Mismi, assim entramos em uma verdadeira pista off road, nada mais do que 20Km com 1 mil e 200 metros de desnível, pendurando-se pelas encostas dos Andes. Estradinha abandonada faz tempo, estreita, cheia de curvas. O Andino daria conta do recado sem problemas, se não fosse as chuvas que andam desabando por aqui no final da tarde. E assim, no meio do caminho, ele atolou feio. Levamos mais de 4 horas brigando com a lama, puxando pedras, cavando trilhos, usando o guincho, até ver nosso querido caminhão subindo a montanha novamente. A estradinha continuava, mas quando chegamos nos 4.800m de altitude, o risco de desabamento das laterais era grande, e ali estacionamos o nosso caminhão, num lugar chamado Aquenta, onde ao longe avistamos apenas duas casas.

No dia seguinte, dia 5, segunda, caminhamos até os 5.250m de altitude, onde montamos nosso acampamento já bem perto do Mismi, logo fomos nos afastando para o leste, descendo um pouco, em busca das nascentes do rio Amazonas. Foi um dos momentos mais emocionantes de toda a minha vida de alpinista, aos 5.180m de altitude, a água da nascente mais alta e distante do maior rio do mundo espirrava para fora da rocha com forte pressão, dando início ao seu longo percurso de 6.700Km em direção ao Oceano Atlântico.

Mal encontramos a nascente do rio Amazonas, desabou uma tempestade. Eram quase 15 horas, voltamos apressados para o acampamento, as vezes nos jogando no chão na esperança de evitar que um raio caísse em nossas cabeças. Eram relâmpagos e trovoadas por todos os lados, um zumbido saia de nossas roupas, o cabelo estralava com a tempestade magnética.

A nevasca aumentava a cada minuto e a paisagem desértica que nos rodeava ficou logo toda branca, nevou até as 18:30hs. Fomos dormir desanimados, o céu continuava repleto de nuvens escuras e nossa escalada estava ameaçada.

Hoje, às 4 da madrugada, coloquei a cabeça para fora da barraca e logo dei um grito, a lua cheia estava cintilando num céu repleto de estrelas, tomamos um café rápido e fomos ganhando altitude, para às 7:30hs chegar no alto do Mismi, o Alexandre Lima, o Carlos Zarate e eu. O Iguaçu ficou nos esperando no acampamento.

Chegar no alto dos 5.597m de altitude do Mismi não foi apenas chegar no alto de mais uma montanha, toda aquela neve que nos rodeava dá origem a centenas de nascentes, que vão aos poucos se unindo e se transformando no maior rio do mundo. De alguma maneira, no alto do Mismi, eu me senti ligado ao Brasil, então vibrei ainda mais com está vitória do Projeto Mundo Andino.

E, antes de acabar, deixe-me contar como acabou o dia. Nós voltamos até o Andino, e às 13 horas começamos a descer, observando um paredão de nuvens negras se aproximando. A tempestade do dia anterior já havia deixado a estradinha ainda mais empapada e escorregadia, a descida não seria fácil.

O Andino ia afundando no barro o tempo todo, escorregando para o lado do abismo. O Iguaçu saltava de pedra em pedra lá fora, debaixo da chuva, indicando-me o melhor caminho. Depois de muito susto, chegamos em um trecho onde havia uns dez homens trabalhando na estrada. Em nossa frente era uma lama só, um dos homens estava afundado na lama até o joelho, uma água preta escorria por todos os lados. Eles disseram que demorariam ainda dois ou três dias para arrumar a estrada que havia sido levada pelas chuvas, mas que podíamos tentar passar pelo lado.

Avaliamos o terreno, o Iguaçu deu a dica de engatar uma terceira reduzida e bloquear o diferencial traseiro. Acelerei para aumentar a rotação, soltei o freio, e o Andino saiu saltitando, jogando lama para todos os lados, arrancando gritos de euforia da galera, vencendo com ousadia mais um obstáculo.

Quando chegamos em Chivay, a cidade mais importante do vale do rio Colca, eu bem que queria ir direto para o computador contar esta história para vocês, mas confesso que foi impossível resistir ao convite do restante da equipe para ir relaxar nas termas. Mas estou aqui, bem mais calmo e aliviado, mandando um grande abraço para todos.

Amanhã tem mais novidades.

Waldemar Niclevicz

  
  

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