Camarões e Nigéria 1

Da floresta tropical ao deserto!

  
  
www.mundoporterra.com.br

Os portugueses chegaram à costa oeste da África durante o século XV, porém, a malária os impediu de desbravarem as novas terras encontradas. Foi somente no final da década de 1870, quando grandes quantidades de quinino (droga anti-malária) tornaram-se disponíveis, que eles começaram a conquista do território batizado de “Camarões”, devido as grandes quantidades deste fruto do mar encontradas na embocadura do Rio Wouri. Quatorze anos mais tarde, a totalidade do território camaronês e alguns territórios vizinhos tornaram-se uma colônia alemã, a qual foi dividida entre o Reino Unido e a França após o final da Primeira Guerra Mundial. Camarões conseguiu sua independência somente em 1960.

Vindos do Gabão, chegamos na borda de Camarões no dia 11 de abril de 2009. Tínhamos a informação de amigos que poderíamos fazer o visto na borda, mas sempre ficamos ansiosos pra confirmar se isso é verdade ou não. Pra nosso alívio, recebemos um sim do oficial confirmando que o visto poderia ser feito ali mesmo e depois de algumas horas, estávamos oficialmente dentro de um novo país.

Dirigimos sentido a capital Yaoundé por uma estrada de asfalto novinha, mas mesmo assim, nossa viagem custava a render. Era um posto policial, militar, de segurança, de aduana, blábláblá, atrás do outro. Quase nenhum carro local era parado, somente nós!!! Muitos nos paravam por curiosidade e logo nos deixavam partir, porém, outros nos paravam com interesse em conseguir alguma coisa ou de achar alguma desculpa para nos arrancar uma propina. Teve um que veio se achando o chefe e pediu o seguro obrigatório contra terceiros (que não tínhamos). Demos o cartão do seguro do Brasil, escrito em português e vencido desde 2006 e não é que deu certo! Outro olhou para os adesivos colados no carro e teve a cara de pau de dizer que tínhamos que pagar uma taxa de publicidade. Outro veio cumprimentar o Roy e os dois, sem dizerem uma palavra, acabaram disputando uma queda de braço e depois caíram na gargalhada. Descobrimos que o importante é cair na brincadeira deles, pois assim eles até esquecem de checar os documentos ou pedir alguma coisa. Foi assim por todo o país com uma parada atrás da outra, mas quando pegamos o jeitinho da coisa, já nem parávamos mais.

Tínhamos três compromissos em Yaoundé: primeiro, fazer o visto da Nigéria que foi o mais caro de todos em nossa viagem; segundo, arrumar o diferencial que estava roncando, porém, aqui não existem as peças que precisamos e terceiro, visitar o Parque Nacional Mfou, o qual resgata, do comércio ilegal de animais, diversos tipos de macacos, baboons, mandarils, chimpazés e gorilas, que juntos somam 200 primatas. Numa visita guiada de cerca de duas horas, pudemos observar essas interessantes criaturas de perto e não poderia ser pra menos, que os chimpanzés e gorilas foram a grande atração.

Gorilas das planícies africanas

O DNA dos chimpanzés é extremamente similar ao DNA humano, fazendo-os nossos parentes mais próximos no mundo animal. Estudos apontam que eles se separaram do tronco do nosso ancestral comum por volta de 4 a 7 milhões de anos atrás e que compartilham de 98 a 99,4% de nosso DNA. Devido a sua grande inteligência, são capazes de usar ferramentas, se reconhecem no espelho (únicos animais com essa habilidade) e têm a capacidade de aprender certos tipos de linguagens, como a dos sinais. O mais incrível é que também são capazes de passar ensinamentos de uma geração para outra, como por exemplo técnicas para extrair cupins de seus cupinzeiros utilizando-se gravetos; uso de pedras para quebrarem sementes e frutos duros; dentre outros.

Macaquices dos Chimpanzés

Fomos recebidos pelos chimpanzés do berçário com aquela gritaria: “Uh uh uh uh ha ha hahahaaaaaaa!” Eles pulavam, corriam, batiam palmas para nós... não paravam um segundo de fazer macaquices. O tempo que passamos com os adultos não foi muito longo, pois dois machos estavam impacientes com a nossa presença. Para nos intimar, o enorme chimpanzé demonstrava sua agressividade e força correndo de um lado para outro, batendo com sua mão na cerca e berrando muito alto.

Os gorilas ali ao lado, nossos segundos parentes mais próximos, foram quem nos surpreenderam. Pareciam homenzões malhados, que mesmo com seu tamanho e força, não passavam nem perto de nos intimidar, como fez o chimpanzé. Sentados, com seus olhares penetrantes e tranqüilos, ficavam nos observando e imitando cada movimento nosso. A sensação era tão boa que poderíamos passar horas ali, olhando-os e eles nos olhando; olhando-os e eles nos olhando; até que não sabíamos mais quem estava visitando quem, ali no parque, hehe...

No mundo, existem dois tipos de gorilas: os gorilas-da-montanha, que habitam as florestas montanhosas acima dos 2.200 metros de altitude e os gorilas-do-ocidente, que moram em florestas densas e pântanos das terras baixas até ao nível do mar. E esses gorilas, além de enfrentarem os problemas da destruição das florestas e da caça indiscriminada, tiveram sua população dizimada pelo vírus da ébola, doença que pode resultar numa extinção ecológica muito rápida. Quanto aos chimpanzés, existem atualmente 150.000, quando há um século atrás havia aproximadamente dois milhões.
Por esse e outros motivos, o que o Parque Nacional Mfou está fazendo é uma coisa incrível e para saber mais sobre eles, ajudar ou ser um voluntário, acessem o site www.cwaf.org.

Visite-nos: www.cwaf.org

Seguindo ao centro-oeste do país, por sugestão de outros viajantes, resolvemos dirigir por estradas que circulam algumas montanhas verdes, ao norte da cidade de Bamenda. Nosso plano, após completarmos este circuito, era de irmos até ao extremo norte de Camarões, mas com os problemas mecânicos que estávamos tendo, não estávamos muito confortáveis. Vendo no mapa que ali ao lado havia uma borda para a Nigéria, resolvemos estudá-la mais de perto, pois não sabíamos de suas condições. Pegamos informações com locais e por sorte, encontramos um casal de viajantes vindo em sentido oposto, comprovando que era possível cruzarmos para a Nigéria por ali mesmo. O único alerta foi sobre as estradas: “ Muito ruins!!!”

Escorregadinha

Descemos dos 1.700m até 350m de altitude e no vale, fora o cenário, o que mais nos marcou nessa região foi o povo extremamente simpático que encontramos pelo caminho, onde todos sorriam e nos davam as boas vindas. Porém, em uma parte da estrada que era de pura lama, alguns locais nos convidaram para desviarmos aquele trecho pelo meio de suas vilas, o que nos causou ainda mais problemas. Num ato de olhar para trás, quando as crianças, felizes da vida, escalavam em nosso carro, enroscamos em um cepo enorme que estava bem no meio do caminho. Putz, que coisa, entortamos a barra de direção e também o amortecedor da direção.

Gente muito simpática

Então, com as rodas desalinhadas, problemas no diferencial, amortecedores traseiros no mico e ainda assim carregando nas costas a nossa casa, o Lobo da Estrada cruzou a pior de todas as estradas (superando até aquela da Angola). Com muito suor, devido ao calor e umidade, tivemos que praticamente escalar buracos, erosões e pedras em um morro de um super acentuado aclive e declive. As únicas pessoas que encontramos por lá foram lenhadores serrando um tronco de mogno no meio da trilha, obstruindo nossa passagem, e uma Land Rover 109, comprovando que isso não é terra pra qualquer carro. Mas quanto as fotos que tiramos, da vontade de chorar, pois através delas, sério mesmo, parece que foi fácil, hehehe.

Pior estrada de todas
Tem que ser Land Rover

Depois de praticamente 10h e míseros 100km dirigidos, entramos na Nigéria, porém, ainda demoraram alguns quilômetros para termos um sinal de que a estrada iria melhorar. Rostos diferentes e com diversas cicatrizes (ouvimos dizer que as cicatrizes servem para diferenciar as tribos) nos olhavam curiosos, muitos como se fosse a primeira vez que estivessem vendo um homem branco. Na imigração, os oficiais perguntavam de onde estávamos vindo e ficavam surpresos com a nossa vinda por aquela estrada. Próximo dia, nosso maior desafio foi encontrar a aduana, pois somente na terceira cidade, Makurdi, que conseguirmos encontrar o escritório para oficializar a entrada do nosso carro em território nigeriano.

O contraste com os últimos países que havíamos cruzado aconteceu quando deixamos a área remota da borda e começamos a entrar na verdadeira Nigéria, o país africano mais populoso. Desmatamento, lixo, nuvens de poluição saindo dos carros, tumulto e mais tumulto.

O que mais nos chamou a atenção foi ver as enormes filas de carros e motos que se aglomeravam na frente dos postos de combustíveis que estão abertos. Existem muitos postos, mas nem todos possuem combustível para se vender, o que é irônico neste país que é riquíssimo em petróleo. A correria e desespero é tanta que seguranças controlam a ordem e carregam em suas mãos barras de ferro para bater nos veículos que não respeitam a fila. Não existem muitos carros a diesel, mas o que faz a fila demorar para nós também, é quando os locais, que vendem combustível na beira das estradas, abastecem seus galões + galões somando mais de 200L.

Rumo a capital Abuja

A capital Abuja não é nada de interessante, uma cidade moderna e vazia, construída para carros e não para a convivência das pessoas. Somente ricos moram lá e ouvimos dizer que os pobres não são autorizados a entrar e só podem comercializar seus produtos nos subúrbios. Chegamos a noite e nos dirigimos ao Hotel Sheraton (que chique né?), mas o nosso quarto foi o jardim dos fundos, onde eles permitem viajantes como nós, de acamparem sem qualquer custo. Nossa missão na capital era requisitar o visto para o Niger, que depois de alguns dias de espera, conseguimos organizar para pegarmos no consulado nigeriano em Kano, já nas proximidades da borda.

Para ter uma experiência inteiramente africana, não poderíamos deixar de experimentar a malária e a escolhida foi a Michelle. Quando viajamos pela costa leste da África, estávamos tomando remédios preventivos, porém, por não ser aconselhado tomá-los por períodos tão longos, resolvemos parar e aqui na costa oeste, a única prevenção que estamos tendo é tentando evitar as picadas do milhares de mosquitos que existem. Para o caso de pegarmos os tais dos plasmódios, temos como segurança os auto-testes e um bom remédio para tratamento da doença.

Deixando Abuja, cruzamos o Platô de Jos, acima dos 1.200m, para pegar o último arzinho fresco antes de chegarmos em Kano, quase na borda com o Saara. Os muçulmanos agora são a maioria, as mesquitas e mercados municipais são cada vez mais freqüentes e o calor beira os 45˚C durante o dia.

Presença muçulmana

Quando fomos no Consulado do Niger para pegar nossos vistos, eles ainda não haviam sido autorizados e além disso, queriam nos cobrar três vezes mais do que pagaríamos em Abuja. Indignados com os preços absurdos, decidimos buscar rotas alternativas para seguirmos ao norte e é bem provável, que para o próximo diário, teremos mais mudanças de planos... até lá!

  
  

Publicado por em

Vilberto...

Vilberto...

20/05/2009 23:22:59
Muito corajosos vocês dois. E o "cara" ainda leva a "pa-
trôa" junto!!! Tudo bem se em outro continente, mas na
Africa!!!Em 98 fui de moto até o Chile, Bariloche, Andes
e o Pacífico. Foram 9.000 Km. com um ábum de 400 fotos.
Não chega nem perto do "passeio" de vocês, mas o impor-tante é realizar este sonho de viajar. Parabéns!!!

Roy Rudnick e Michelle Francine Weiss

Roy Rudnick e Michelle Francine Weiss

Ta certo Vilberto, o importante é estar na estrada!!! Grande abraco Roy e Mi