Chegando no Quênia pela contramão

Dirigindo pelas terras inóspitas do norte do Quênia, levamos três dias para cruzar com o primeiro carro, um Land Rover, e somente aí que descobrimos...

  
  
Chegamos ao Quenia...

... que neste país, diferente da Etiópia, dirige-se no lado esquerdo da via (mão inglesa). O pior de tudo é que para fazer essa descoberta, deixamos o motorista do outro Land Rover indignado, quando dirigíamos frente a frente em sua pista, forçando-o a sair da estrada. Ainda pensamos: “ O que é que esse cara está fazendo no nosso lado!”

Piores estradas de toda a expedição

Até acontecer esse episódio foi pouco chão, mas muitas horas no volante. Pedras, pedras e mais pedras do Deserto de Chalbi fizeram nossa média horária baixar drasticamente para menos de 15km/h. Havia um vilarejo ou outro separados por centenas de quilômetros, que na média que vínhamos dirigindo, eram dias sem ver uma alma viva. Partíamos sempre de manhã cedo e ao entardecer, quando parávamos para acampar, o odômetro malmente marcava 150km a mais que o dia anterior.

Vilas no meio do nada

Em uma parte desse trajeto, nos demos conta de que estávamos uns 20km fora da rota correta, o que correspondia a quase uma hora e meia dirigindo. Provavelmente havíamos perdido uma pequena entrada e acabamos seguindo pelo caminho errado. Voltar??? Por aquela estrada horrível, nem pensar!! Seguimos então, por mais uma hora, até que avistamos de longe um sujeito armado, que quando nos viu, saiu correndo desesperadamente para o mato. Após termos erguido bandeira branca, ele percebeu que não éramos uma ameaça, largou o rifle no chão e veio ao nosso encontro. Mesmo na língua swahili, arrancamos a informação de que este caminho também nos levaria ao nosso destino.

As aguas verdes do Lago Turkana

Nas redondezas do vilarejo de North Horr, para a nossa surpresa, o caminho estreito de pedras se abriu em um vasto deserto de areia e pudemos pegar um ventinho na cara. A alegria durou pouco, pois mais alguns quilômetros adiante tivemos que reduzir a marcha e voltar a dirigir em velocidade de tartaruga. Podemos dizer que a região norte do Quênia é mais uma experiência do que um destino. Não foram dias fáceis que passamos por lá, mas amamos cada minuto de adrenalina cruzando suas planícies desérticas, salpicadas por vulcões extintos e coloridas pelo verde das águas do Lago Turkana e pelas pessoas das tribos que habitam essas terras.

Samburu, Turkana, El-molo sao tribos da região

De volta a civilização, paramos por dois dias na pequena vila de Maralal e depois de nossas energias reabastecidas, seguimos sentido sul, pelo Vale Rift, conhecido como a cicatriz do continente africano. Não demorou muito e começamos a avistar os primeiros animais, ali do lado da estrada e de graça. Vimos gazelas, depois vieram as zebras, logo as girafas e, mais girafas, até que apareceram alguns elefantes e muitos outros tipos de veados e antílopes. Quanto mais animais víamos, mais queríamos ver e de tao empolgados, quase nem lembramos que iríamos cruzar a Linha do Equador. Depois de 10 meses, voltamos ao Hemisfério Sul!!!

Thomson's Falls

Se ao longo da estrada principal que nos levava ao sul, vez ou outra apareciam alguns animais, no sudoeste do Quênia pudemos ver uma grande quantidade de vida selvagem. A Reserva Nacional Maasai Mara possui renome internacional e é a razão que muitos viajantes têm para visitar o Quênia. Sua paisagem é composta pela savana clássica, vista em qualquer filme e programa de natureza sobre a África.

Vale Rift, a cicatriz da Africa

Apesar das maiores concentrações de animais se localizarem na parte oeste da reserva, a maioria dos tours e visitantes se concentram na parte leste. Talvez era o que íamos acabar fazendo, porém por sorte, conhecemos o casal de alemães Sascha e Daniela que vêm quase todo ano visitar o Maasai Mara e eles nos deram as dicas certas do que fazer e aonde ficar.

Tipica casa maasai

Decidimos pernoitar três noites na reserva e nesse período pudemos ver de tudo: quase vinte leões, um leopardo, uma chita, elefantes, girafas, hipopótamos e mais de centenas de búfalos, antílopes e veados. Em nossos acampamentos, na costa do rio Mara, mesmo com fogo alto, tivemos a visita de hipopótamos (considerado o animal mas perigoso de todo o continente africano) e de uma leoa, quando ambos circularam a menos de 3 metros de nosso carro. Nós sempre brincávamos que estávamos quase 100% do tempo juntos e que o único momento que tínhamos férias um do outro é quando íamos ao banheiro. Porém, com essas visitas em nosso acampamento temos que confessar que dá medo de sair sozinho do carro a noite. O jeito é ir acompanhado para o matinho e ficar de ouvido aberto para escutar o aviso dos macacos.

Reserva Nacional Maasai Mara

Falando um pouco da vida animal... anualmente, milhares de animais selvagens juntam-se para viajar em busca de água e pastagens mais verdes, do Serengeti no norte da Tanzânia, às vastas campinas quenianas do Maasai Mara. São imensas manadas de zebras, gnus, topis e gazelas, às vezes mais de um milhão em movimento (conhecido como a “Grande Migracao”), e isso atrai os grandes gatos em busca de presas fáceis. Os abutres fazem o papel da limpeza e comem o restante das carcaças, sobrando apenas os ossos para contar a história.

Mal entramos, demos de cara com esses sapecas

A Reserva Nacional Maasai Mara é palco de uma das mais extraordinárias partes desse show da natureza, pois para acessar suas pastagens, os animais precisam cruzar o rio Mara e lutar contra as fortes correntezas e contra os famintos crocodilos que habitam suas águas. A travessia ocorre conforme as condições climáticas, de pasto e, pode acontecer, que os animais atravessem o rio diversas vezes, indo e voltando.

Elands, maior antilope africano

Estávamos crentes de que veríamos a Grande Migração acontecer esse ano, mas desencantamos quando ouvíamos todos comentar que os animais não vieram do Serengeti, pois ainda não havia chovido no Maasai Mara. No entanto, nos primeiros dois dias na reserva, pegamos chuva de cair o céu e isso, além de muita lama, nos deu a oportunidade de presenciar esse, que é um dos maiores congestionamentos do mundo, só que de animais. Chegando perto do rio Mara, nos deparamos com as primeiras zebras que estavam alvoroçadas na beira do rio. Uma vez ou outra, algumas vinham para a beirada beber água e checar a situação, mas desistiam assim que percebiam a presença dos famintos croc crocs. Até que, depois de algumas horas de vai e volta, um pequeno grupo de listras resolveu cruzar e depois dele seguiram as demais zebras em uma fila única. De repente, lá no horizonte e numa entrada espetacular, surgiram os gnus correndo morro abaixo e, sem pensar, eles se jogaram dentro do rio.

Um dos BIG FIVE!

Que inesquecível foi ver as milhares de zebras e gnus cruzando o rio Mara, eufóricos e amedrontados devido aos gigantes crocodilos que os esperavam com paciência e sabedoria de um bom caçador. Claro que nem todos chegaram do outro lado e as cenas dos ataques dos crocodilos fizeram nossos corações baterem mais forte, mas pudemos presenciar ali a força que tem essa natureza.

Olha o tamanho!

Mais alguns quilômetros rodados para a nossa coleção e chegamos na capital Nairobi, que apesar de sua reputação de cidade perigosa (chamada por muitos ‘Nairobbery’, a cidade dos roubos) nos pareceu muito tranquila. Esse era o local onde poderíamos novamente encontrar estrutura para resolver nossas pendências, portanto necessitamos passar alguns dias por lá. Como entramos por uma borda muito remota, sem nenhum posto de imigração e aduana, tivemos que legalizar nossos passaportes e carro na capital. O Quênia exige de todos os veículos um seguro contra terceiros e como até então ninguém havia nos solicitado, pensamos em nem fazê-lo e seguir viagem para Mombasa, porém saindo de Nairobi fomos parados por policiais e quase levamos uma multa por não possuir seguro. Nada que um bom papo brasileiro não resolvesse... Como já era sábado a tarde, o jeito foi voltar pro camping e esperar até segunda-feira para comprar o tal seguro.

Rest Carnivore, com direito a crocodilo e avestruz

Pendências resolvidas e finalmente, depois de uma semana em um mesmo lugar, seguimos sentido ao litoral queniano. Litoral? Isso mesmo... o Quênia é famoso por seus safaris e poucas pessoas sabem que ele possui praias também. Vamos passar alguns dias a beira mar em estilo hakuna matata (no worries/ sem preocupações) para então, seguirmos viagem a Tanzânia.

PS – Gostaríamos de comunicar a todos que outubro será um mês especial para nossa expedição, pois estaremos participando de reportagens em duas revistas de renome nacional: Revista 4x4 e Cia. e Revista Cláudia. Não deixem de comprar!!

  
  

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