O Irã

Só de pensar que em nossos primeiros planos, aqueles de antes de sair de casa, iríamos desviar o Irã (assim como o Paquistão) devido as informações negativas que tínhamos destes países...

  
  
Klaus, Erdmuthe, Mi e Roy

Mas o destino nos trouxe para cá e agora aqui estamos, tentando descrever no papel a sensação que tivemos ao ver o contraste do azul-anil das mesquitas muçulmanas perdidas por entre as centenas de casas de barro nas cidades desérticas deste magnífico país. O Irã é um país asiático do Oriente Médio que se limita a conhecidos e desconhecidos nomes para nós, como: Armênia, Azerbaijão, Turquemenistão, Mar Cáspio, Afeganistão, Paquistão, Iraque, Turquia, Golfo de Omã e Golfo Pérsico.

Yazd e o azul-anil contrastando com o marrom

A nossa chegada por aqui, podemos dizer que rendeu algumas risadas, pois estávamos na boa companhia do casal alemão Klaus e Erdmuthe exatamente no trajeto extremo leste do país, onde autoridades exigem que estrangeiros sejam 100% do tempo escoltados, para maior segurança. As risadas vinham das discussões ocasionadas pela falta de eficiência da escolta, onde a cada 30km, tínhamos que ficar esperando por uma nova equipe, o que nos atrasava por horas. Não foram poucas as vezes que tentamos escapar deles e infringir suas ordens, mas isso tudo em um ambiente super amigável.

Yazd vista de cima

Assim que ficamos livres da escolta, o que aconteceu apenas no terceiro dia, chegamos a Yazd, cidade que nos inspirou para aquela descrição no segundo parágrafo. Já tínhamos uma coordenada de GPS para um lugar onde poderíamos dormir e quando chegamos lá, foi só alegria, pois além daquele cenário único do azul-anil contrastando com o marrom, podíamos aproveitar a infra-estrutura do hotel, onde pagamos apenas pelo estacionamento no qual acampamos. É incrível como um lugar desses faz bem quando se chega perto dos 500 dias morando em um carro...

Arvore Cypres de 4.000 anos

O Klaus e a Erdmuthe seguiram viagem, mas em contra-partida conhecemos mais três alemães, Oliver que viaja sentido Hong-Kong em uma Land Rover 110 e Mike & Anne Christine, que viajam em uma Toyota Land Cruiser pela Ásia e possivelmente América. E essas companhias foram tão boas que o dia da despedida sempre era adiado, tanto que acabamos ficando juntos mais de uma semana.

Persepolis, antigo Imperio Persa

Em Yazd, nossos dias foram de reorganização e visita a cidade, mas a noite era sempre um banquete. Rolou pizza, comida indiana, comida tailandesa e tudo isso sempre acompanhado daquela cervejinha sem álcool, pois falar em bebida alcoólica por aqui, da até cadeia, ou pior... Os muçulmanos são muito severos neste aspecto, especialmente aqui, que o governo tem como fator supremo, a religião islâmica.

Roy, Mi, Mike, Oli e Anne

Coincidentemente estávamos no país no dia do aniversário do falecimento (03/06/89) de um dos grandes líderes políticos e religiosos da história do Irã. Ayatollah Ruhollah Khomeini liderou a revolução de 1979 e proclamou a República Islâmica do Irã, o que deixou sem efeito o até então regime imperial. Mas com a vinda de Khomeini, enfeiaram-se as relações com o ocidente, em especial com os Estados Unidos e em novembro deste ano, este novo governo expulsou a Embaixada Norte Americana do país e manteve, durante exatos 444 dias, 53 reféns que ali trabalhavam, tendo como principal intuito a liberação de recursos iranianos congelados nos bancos norte-americanos. Neste momento, os EUA perdeu seu principal aliado no Oriente Médio e com isso, perdeu por completo o fornecimento de petróleo deste país. Aqui entra mais uma curiosidade: o ocidente (EUA, alguns países da Europa e Árabes) ficou receoso que esta revolução islâmica se espalhasse por todo o oriente, então, para evitar este risco, passaram a apoiar o governo Saddam Hussein e o guiaram para uma terrível guerra, a qual se estendeu entre 1980 e 1988, a Guerra Irã-Iraque.

Masjed- e Vakil, em Shiraz

E nós partimos de Yazd com os amigos alemães e rumamos ao sul, mas logo no caminho, acampamos por duas noites no meião do deserto rodeado por montanhas. Estávamos a exatos 3.000m de altitude e fizemos uma caminhada até um passe que chegava a quase 3.600m. Após isto, pé na estrada novamente mas não por muito tempo, pois a sombra de uma árvore Cypres de mais de 4.000 anos de idade nos fez jogar o esqueleto de barriga cheia. Quando acordamos e saímos de lá, a sombra já tinha se movido em alguns metros!

Arg-e Karim Khan citadela

Estas andanças ao sul tinham um destino, Persepolis. E como o próprio nome já diz, Persepolis foi a capital Persa, o que nos dias de hoje, virou patrimônio da humanidade devido ao seu conglomerado de ruínas que são a prova de que na época, isso tudo foi um palácio de uma impressionante arquitetura. A história escrita da Pérsia começou em cerca de 3200a.C. com a cultura proto-elamita e com a posterior chegada dos arianos e a formação dos sucessivos Impérios Medo e Aquemênida. Esta região passou a se chamar Irã, somente após a revolução constitucional, que ocorreu entre os anos de 1905 e 1921. Apesar da mudança de nome para Irã, os lindos tapetes persas ainda são uma importante arte e estes são produzidos em diversos lugares do Irã, sendo que os mais valiosos são inteiramente feitos a mão.

Em Shiraz, próxima cidade ao sul, nos despedimos de nossos amigos e tudo o que pudemos dizer a eles foi um “Boa Sorte”, pois os mesmos estão indo em sentido contrário ao nosso, ou seja, viajam para India. Achamos que eles vão precisar de muita sorte, hehehe…

Ponte Si-o-Se, construida em 1602

Viajando pelas estradas e cidades do Irã, percebemos o quanto este país é bem estruturado, limpo e organizado. As estradas por todos os lados são impecáveis, sendo a maioria pista dupla ou tripla. As cidades, repletas de parques verdes com infra-estrutura de dar invej. Não é para menos que a cada feriado ou fim de semana (sexta e sábado para os muçulmanos) os iranianos invadem qualquer pedacinho de grama e montam suas barracas para fazer aquele picnic. Sério mesmo, achamos que esse é o passa-tempo predileto desse hospitaleiro povo, que a cada instante nos manda chás, frutas, presentes, convites e sempre quer bater um bom papo. Teve até uma vez que estávamos acampados em um estacionamento de uma escola e a polícia apareceu por lá. Pensamos, que eles iriam nos mandar embora de lá… mas que nada, logo logo apareceram novamente com garrafas de água gelada e suco para nos dar as boas vindas.

Praça Eman Khomeini, segunda maior do mundo

Tudo que descrevemos acima é extremamente característico em Esfahan, antiga capital do país e que hoje é um dos principais destinos do turismo. Repleta de mesquitas, pontes históricas, palácios, parques, ruas arborizadas e muita beleza. Mas lá, o que nos encantou mesmo, foram as mesquitas na principal praça da cidade. Por mais que já tínhamos visitado diversos templos budistas, hindus e outros, estar dentro de uma mesquita destas é algo incanssável. Vale mesmo a pena esta experiência!

Mesquita Eman

Foi caminhando por uma dessas mesquitas que de repente nos deparamos com duas pessoas que não nos pareceram estranhas!!! Ueh, será que são aqueles dois canadenses que encontramos na Austrália e que nos deram a grande dica de nossa viagem, a da caminhada no Circuito Annapurnas, Nepal? Dito e feito, fomos até eles e eles logo nos reconheceram também. Interessante, um reencontro do nada após 10 meses… Passamos agradáveis horas com eles e após, seguimos para a capital do país, Teerã, pois diversas coisas em nosso carro, passaporte e vistos teriam que ser resolvidas.

Teera

Teerã é uma metrópolis de 12 milhões de habitantes. Circular por aqui e achar o que precisamos não é nada fácil, porém, a hospitalidade do iraniano vem de encontro nessas situações… pois conhecemos Aydin, pessoa muito legal que nos convidou para ficar em sua casa e nos deu total apoio em tudo o que necessitamos. Quanto ao nosso passaporte, o renovamos por estar sem espaço para novos carimbos e vistos e o mesmo levou menos que duas horas para ficar pronto. Os vistos que imaginávamos que teríamos que fazer aqui, por sorte não perdremos tempo com isso. Para a Turquia, não precisamos e para a Síria, poderemos fazer na própria borda do país. Porém, para que possamos seguir viagem rumo a Turquia, ainda nos falta uma coisa: achar as pastilhas de freio para nosso carro, pois os Land Rovers iranianos usam um sistema de freio diferente do nosso e isso pode causar uma pequena dor de cabeça, que porém será resolvida com certeza.

Khodã Hãfiz, que significa na língua perça, good bye!!!

  
  

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